quarta-feira, 13 de maio de 2026

CRÔNICA - O 23 DE MAIO NAO FOI CARIDADE + POR ZEZINHO CASANOVA


O 13 de Maio não foi Caridade

Em Bacabal, maio sempre chega vestido de duas cores: o verde das margens do Mearim e o preto invisível da memória que o Brasil insiste em esconder debaixo do tapete da História.

Na Praça Santa Terezinha, enquanto os carros passavam cuspindo pressa e fumaça, seu Antônio Preto, “dono” de um boi sotaque de Zambumba, ajeitava lentamente o chapéu de palha. Sentado num banco gasto pelo tempo, parecia conversar com os fantasmas da cidade. Não os fantasmas de lençol branco das histórias de assombração. Eram outros. Fantasmas que carregavam correntes nos tornozelos e cicatrizes nas costas.

Um menino parou diante dele .Ayo com seus 12 anos não era formador de opinião, mas sua curiosidade em saber o porquê das coisas lhe dava ares de ter mais idade.

— Vô, é verdade que a Princesa Isabel libertou os escravos porque era boazinha?

Seu Preto soltou uma risada seca. Dessas que não nascem da alegria, mas do cansaço. O coração bateu forte feito a Zabumba do seu bumba-meu-boi.

— Menino… se bondade acabasse com escravidão, o mundo nunca tinha precisado de revolta.

O vento atravessou a praça como quem queria ouvir melhor. Seu Preto olhou para o rio Mearim com olhos fixos no passado.

— A abolição não foi presente. Foi derrota da elite escravista. – Afirmou  seu Preto com um tom de vitória.

O menino franziu a testa. Ayo queria apenas entender o que dissera a professora de história na escola.

— Derrota? – Questionou Ayo.

— Sim. Os fazendeiros lutaram até o último segundo pra manter nossos parentes  acorrentados. Compravam políticos, financiavam deputados, inventavam leis que pareciam liberdade, mas eram armadilhas com perfume de progresso.

Seu Preto apontou para o céu, como se lesse palavras invisíveis. A história de seus ancestrais estrava escrita e gravada na sua mente, quem contou foi sua vó Venancia do Seco das Mulatas.

— A Lei do Ventre Livre dizia que os filhos dos escravizados nasceriam livres… mas tinham que trabalhar até os vinte e um anos. Liberdade com coleira.

—E a Lei dos Sexagenários?

— Libertava os velhos quando o corpo já estava quebrado pelo trabalho. Era como devolver ao mar um peixe depois que ele já morreu.

O menino ficou em silêncio. Cada palavra que ele dizia surgiam em sua mente como imagens acústicas,

Ao redor, Bacabal seguia viva: mototáxis zunindo como insetos nervosos, vendedores gritando promoções, ônibus sacudindo poeira. A cidade parecia correr sem perceber que pisava sobre séculos mal enterrados. Eram fantasmas, almas penadas sociais que se viam na obrigação de assombrar o futuro.

— Então a princesa não acabou com a escravidão? – Quis entender Ayo curioso,

— Quem acabou foi o medo da elite de perder tudo. A Inglaterra pressionava. Os escravizados fugiam em massa. Quilombos como o São Sebastião dos pretos cresciam por toda parte. O Exército já se recusava a caçar fugitivos. A escravidão não foi desmontada com delicadeza. Ela apodreceu em praça pública.

Seu Raimundo levantou devagar. Seus passos eram devagar devido ao peso da história que carregava nos ombros.

Os olhos dele tinham uma tristeza antiga, dessas que passam de geração em geração como herança invisível. Essa herança agora se materializava em novas arapucas da modernidade.

— Quando veio o 13 de maio de 1888, a princesa assinou a tal da lei áurea, a elite perdeu os escravizados… mas não perdeu as terras, nem o dinheiro, nem o poder político. E sabe o que fizeram com os libertos? Nada. Porque o Brasil não deu escola, não deu terra, não deu trabalho digno. Jogaram o povo negro numa liberdade vazia, como quem solta alguém no meio da tempestade sem abrigo. Libertaram o povo negro da senzala, mas penduraram nossos descendentes nos morros, nas periferias e nas margens invisíveis do país

O menino olhou para as próprias mãos. As palavras do avô ecoavam na cabeça do menino como tambores atravessando o tempo...

— Então o racismo de hoje começou ali?

Seu Raimundo respondeu quase num sussurro:

— O racismo de hoje é a continuação daquela assinatura. Só trocaram as correntes de ferro por outras mais modernas.

A tarde começou a cair sobre o Rio Mearim. O céu parecia uma brasa acesa. Bonito de se ver de onde estava com o neto.

Do outro lado da praça,  professora   Raquel encerrava a aula dizendo aos alunos:

— A abolição foi um ato de humanidade.

Seu preto lhou para o neto sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação ap que ouviu.  Respirou fundo. Depois falou baixinho, como quem conversa com o próprio país:

— Humanidade teria sido repartir terra. Construir escolas. Garantir dignidade. O 13 de maio não foi bondade. Foi uma derrota incompleta da escravidão.

O menino perguntou:

— E o Brasil ainda vive essa derrota? – Indagou Ayo.

Seu Preto olhou para os bairros pobres espalhados pela cidade, Setubal tinha todas as caraterísticas de um quilombo urbano, embora não fosse reconhecido, a Trizidela estava á sua frente. Visualizou em sua tela mental  os rostos negros a carregar  caixas, empurrando bicicletas, limpando vidros de carros nos sinais.

Então respondeu:

— Vive meu neto. Porque a senzala acabou no papel. Mas muita gente poderosa passou séculos construindo maneiras novas de deixar o mesmo povo do lado de fora da casa-grande.

O sino da igreja Santa Terezinha bateu seis horas. Era Padre Lauro com sua cara de Santo Barroco que fez dieta chamando para a Missa das sete.

E naquela hora, Bacabal inteira pareceu ficar alguns segundos em silêncio. Como se até a cidade tivesse entendido que liberdade sem justiça é só uma porta aberta para o abandono.


Por José Casanova

Professsor, Jornalista, escritor e cronista

membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade


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