quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

COM A PALAVRA - COISAS E LOAS - POR ZÉ CARLOS GONÇALVES

 


COISAS E LOAS

(... "o senhorzinho", que engravidou um ET, feminino)


    Há alguns dias, me vi no meio de um fato inusitado. Algo, que já, há tempo, não presenciava. E, por isso, sou adepto das filas, mesmo com toda a parafernália tecnológica ao dispor. Nelas, ouço, vejo e vivo o inacreditável. Fora que são um laboratório social fantástico. Afinal, "de tudo" acontece.

    Desta feita, na fila do BB, o tempo ia mais demorado do que de costume. E, numa espécie de monólogo, "um senhorzinho" se  empolgou desmedidamente. E que empolgação! 

    Relatou que fora abduzido por um disco voador, quando jovem. Passara alguns dias sendo estudado, com amostras de seu sangue, que foram insistentemente retiradas e analisadas por "um serzinho", diminuto, que parecia ser o chefão daquela missão de outro mundo. Era a quem os outros três se dirigiam em uma linguagem constituída de zumbidinhos, bem parecidos com o som dos besourinhos, que aprisonávamos em caixas de fósforo, o nosso radinho, da distante e inventiva infância.

     Porém, o que impressionou a todos, ali, é ter afirmado, com todas as letras e trejeitos, que até desconfiava de que pudesse "ser pai de um ETzinho", já que o seu sangue foi injetado em um ET, com um comportamento feminino.

     A fila era só interesse pela narrativa tão cheia de detalhes. O silêncio se fazia que até doía os ouvidos. Era como também estivéssemos na aeronave e vivêssemos a mesma aventura, daquele senhor, que não estava na idade de mentir, com tanta convicção. 

    Uma senhora, a terceira à minha frente, trazia as mãos num frenesi tamanho, que até pensei que iria feri-las. E a sua blusa de seda, verde canário, foi denunciando o nervosismo exacerbado. A mancha de suor aumentou, aumentou, em uma sudorese tremenda.

     Ah, luta terrível, a desviar o olhar! O olho, teimoso que só, voltava involuntário a se fixar naquela crescente mancha. Não sei os dos senhores, mas os meus são indiscretos. Quando se sentem proibidos, fogem e voltam e voltam e fogem, numa luta insana, em que sou sempre o perdedor, sempre a  disfarçar.

    Mas não vim aqui falar da teimosia dos meus olhos. O certo é que "o senhorzinho" estava tão empolgado que eu já até o associava à figura de um ET. Não que eu já tenha visto algum, mas da associação com as caricaturas e os desenhos, estampados nos jornais e nas revistas, "pra nos dar" a noção da aparência, de seres tão privilegiados. Privilegiados, em inteligência, é o que dizem. Fisicamente, eu sou mais a minha carcaça,  desengonçada e carente de graça. Também, não sinto falta dos olhões e da cabeçorra, que lhes levam uns setenta por cento do peso.

    Mas voltemos. Tudo seguiria normal, se não aparecesse "um saidinho", que sempre aparece, "a botar água na fervura". E não foi diferente.

     E, de verdade, como já ouvi e vi muitos "inimigos da verdade", em minha querida Princesa, já estranhava que não havia aparecido, até ali, alguém que fizesse frente ao empolgado senhorzinho. O pensamento veio como um relâmpago; e, como um relâmpago, abriu a boca um rapaz, mirrado, cara de debochado, que se saiu com esta. "Eu também já vi muitos discos voadores na minha querida Baixada. Mas nenhum teve a coragem de me carregar. Tenho o sangue forte, grosso, amargo, 'qui só a pêsti'. Acho até 'cum um pôco di medinho de uma indigestão', pois não foram poucas as vezes, que passaram sobre a minha cabeça. Ou, com  medo de mim, se mandaram, 'apôis disaforo nãu levo pra casa'. E 'nãu ia levá nada, pra mim mi pregá cum uma mundiça daquela".  

    A gargalhada se fez geral. E, para não perder o embalo, já que o momento permitia e já muito empolgado, calou o senhorzinho. "Pra fim de papo furado, essa aventura não é nada, nadica pra mim, ora, ora. Já passei boa parte da minha vida lutano com coisa grande. Na beira da Baía de Cumã, tive uma luta, de um dia, todinho, e pesquei, de linha, um peixe lutador, que só 'a mulesta'. Quando consegui tirar ele da água, 'pra ocês vê', foi que vi que tinha 'um parmo de distância  dum ôlho pr'outro. Era um monstro o bichão". 

      E, não satisfeito, continuou. "Pior foi lá, em casa. Vovô criou um porco, que ficou uma ignorânça de grândi. Mais ... si apruveitô só uma parte dele. Cumo ingordou tanto, nãu levantô mais. Ficava sempre só de um lado. Comia deitado. O peso derrubô ele. O mais rúim, dum porcão daquele, foi qui aproveitamo só a banda, que ficava pra rima. A que ficava pra baxo, quando se virô êli, 'cupim já tinha comido todinha".

     Aí, a gargalhada foi, ainda, mais forte. O ET foi jogado ao espaço da desimportância. O falante senhorzinho foi saindo, aos pouquinhos, da fila e, "cum'uma návi espaciá, "si escafedeo i zé fini!"


          Zé Carlos Gonçalves

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