quarta-feira, 12 de agosto de 2026

POESIA - INDAGAÇÕES DO VENTO - ZÉ CHAGAS

INDAGAÇÕES DO VENTO


Ossos do Guevara:

— esqueleto do sonho?

natureza rara

de assombro medonho?


Ideais sepultos

que brotam de novo?

revide aos insultos

que sofreu o povo?


Soturna guerrilha

que o mundo reclama

pensando que brilha,

já não sendo chama?


Será brasa viva

a arder o futuro?

Cinza que se ativa,

fogo de monturo?


Será que a ossada

de Che ainda aduba

a terra encharcada

do sangue de Cuba?


Que cães vão em busca

desses ossos dúbios,

ao sol que hoje ofusca

tão falsos conúbios?


A alma latina

nasce desses ossos,

como o que germina

dos estrumes nossos?


Será que esse mito

que do chão renasce

fará o infinito

encarar sua face?


Será que ele é visto

como um santo novo,

ou num neocristo

na reza do povo?


Pode um morto só

nos dar esperança, a

o fazer-se pó

que ao vento se lança?


E o que o vento indaga

ganhará resposta,

ou somente a praga

da verdade exposta?


Um herói em osso

mantém seu tutano,

em meio ao destroço

do destino humano?


Posto assim Guevara

nos ossos do ofício,

a morte o declara

pronto ao sacrifício?


Seu caminho torto

será que ainda alcança

o perdido porto

de sua esperança?


Ossos do Guevara:

— quem é tão fecundo

que os toma e prepara

a sopa do mundo?


José Chagas 


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