sexta-feira, 23 de outubro de 2026

TRANSPORTE GRATUITO NO DOMINGO

O governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e a prefeita de São Luís, Esmênia Miranda (PSD), anunciaram que o transporte público será realmente gratuito, no próximo domingo (25), na realização do 2º Turno das eleições 2026.

Brandão explicou a gratuidade no intermunicipal rodoviário e na travessia aquaviária.

“Atenção. Confira sobre a gratuidade nos transportes para o segundo turno das eleições: Passagens sem custo no transporte intermunicipal rodoviário de 00h de 23/10 até 12h de 26/10. Nos veículos do transporte alternativo/ complementar cadastrados na MOB que fazem a travessia aquaviária, de 24 a 26/10”, destacou o governador.

A prefeita da capital maranhense assegurou ainda que além da garantia de catraca livre. a frota será reforçada para o eleitor.

“Neste domingo, 25 de outubro, dia das eleições, os ônibus urbanos estarão com a CATRACA LIVRE das Oh às 22h! A gratuidade no transporte público vale para todos, e os ônibus circularão com a frota reforçada. Veja o seu trajeto com antecedência e exerça, com cidadania, o seu direito de votar”, disse Esmênia Miranda

TRE CONFIRMA TROCA DE APENAS SEIS LUGARES DE VOTAÇÃO

Após realizar uma força-tarefa para reduzir os impactos das mudanças dos locais de votação no Maranhão para o segundo turno das Eleições 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão informa que baixou de 13 para seis os locais que funcionarão em lugares diferentes do 1º Turno.

O órgão, reforça, novamente, que São Luís, a capital, em nenhum momento teve mudança. São apenas seis cidades que terão mudanças: Graça Aranha, Lima Campos, Rosário, Morros, São Mateus do Maranhão e Tutóia.

A alteração destes locais de votação tem o objetivo de assegurar condições adequadas de funcionamento das seções eleitorais e garantir a eleitoras e eleitores o pleno exercício do direito ao voto. Nos demais locais de votação do estado, os endereços permanecem os mesmos do 1º Turno.

Se ainda assim você tem dúvida do seu local de votação, a consulta pode ser feita pelo aplicativo e-Título, pelo Autoatendimento Eleitoral, pela Ouvidoria no número 148 ou ainda enviando mensagem para o whatsapp (98) 2107-8880.

Clique aqui e veja os seis locais que sofrerão alteração na votação do 2º Turno

UM PONTO DE DIFERENÇA


A terceira pesquisa Datafolha, contratada pela TV Globo, sobre o 2º Turno da eleição presidencial de 2026 foi divulgada na tarde de ontem, quinta-feira (22).

Flávio Bolsonaro surge com 47% das intenções de voto, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 46%. Brancos e nulos somam 5%, os indecisos são 2%. Levando em conta apenas os votos válidos, apontou Flávio Bolsonaro com 50% contra 50% de Lula.

A pesquisa Datafolha (BR-09709/2026) entrevistou 2.520 eleitores, entre os dias 20 e 22 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

A última pesquisa será divulgada na véspera da eleição, sábado dia 24, após o debate da TV Globo, que ocorre nesta sexta-feira (23).

COLUNA DO ZÉ LOPES ?l- 63, E AGORA JOSÉ?

 


63, E agora José?

Nasci rm 23 de outubro de 1963. Hoje, portanto, completo 63 anos. Não posso dizer que, bem vividos, mas, vividos.  Desregradamente, vividos. Carrego no peso de todo esse tempo, muitas glórias, inglórias, ilusões, desilusões, amores, desamores, altos,  baixos, prós contras,  e todos os antagonismos inerentes a uma pessoa, ou, qualquer pessoa que, por dádiva divina, se destaque no que faz.

Nasci com o dom da música, da poesia, das letras, das palavras e isso me deu tudo, o pouco que tenho, sem precisar de nada ilícito. Isso me conforta, e até hoje o meu dom me dá o pão de cada dia, o que agradeço a todos que me ajudam a comprar.

Logo cedo, vem a dor da agulhada diária, abro a bolsa com caixas de medicamentos e sigo a engolir comprimidos, em um ato já automático. No espelho, o óculos na cara, muitos cabelos brancos,  e a tinta me socorre. O dia a dia sempre me traz uma noite embaraçada e se rola um clima, sempre tenho uma pílula azul para tinturar o amor.

Não sou diferente de ninguém, já tive todos os sentimentos, bons e ruins, sou meio explosivo, mas não sei o que é o ódio, o rancor, sei a força de perdoar e de pedir perdão. Me arrependo sim, de muitas coisas que não fiz, mas, me arrependo mais, de muitas coisas que fiz.

Deixei de fazer muitas coisas, fui vítima de muitas coisas, ouvi muitas coisas sem poder responder e até falei muitas coisas, úteis ou inúteis, coisas são só coisas, mesmo assim, alimentam.

Envelheci como a árvore que plantei na infancia, , meu tronco cresceu, sofri metamorfose, botei flores, dei frutos e hoje sem folhas, meus galhos quebradiços, caem e sujam todo o chão, onde um dia,  varrido pelo vento, vê gora os meus pedaços apodrecerem e se misturarem à frialdade inorgânica da terra. Um bom estrume.

Fui menino, cresci na solidão dos quintais, lavei meu corpo na água barrenta do rio,  perdi a alma no silêncio calórico da noite, prendi na gaiola das horas, o passarinho que me despertava com seu canto, todas as manhãs que cismavam em chover.

Aprendi a fazer do amor uma bela canção e  da morte, uma triste poesia.  Misturei as cores, as dores, o grito e o medo, e pintei a tela da minha existência e assinei com um pseudônimo inelegivel.

Fiz muitos projetos, realizei alguns, outros não. Tenho uma biografia obscura, inexpressiva, incompreensível,  registrada em pergaminhos, recheada de Diáspora e dialetos.

Como escritor, tenho três livros lançados- Bacabal, cenas de um capítulo passado (Cronicas), Confesso que vi, vivi e até ouvi (cronicas) e o recém lançado, Repente Urbano (poesias) e trabalhos literários em coletâneas e antologias.

Como cantor, tenho 09 Cs e um EP gravados. Bourbon, Festa, Sobre todas as coisas que aprendi por aí, Aos Brincantes, Todos os junhos, Decalque, Concerto para Sao Luis, Um Carnaval no teu sorriso, Um Salão para Nós dois  e o EP Noir. Participei de muitas coletâneas, a exemplo de Nossa voz, Nossa VozII, Nós, Toadas, Festiveiros, Bacabal 90 anos, o canto da Ema...

Como compositor, tenho mais de mil músicas gravadas, e o meu trabalho além de fazer parte do Cancioneiro junino e carnavalesco maranhense, também é ouvido em todo o Brasil.

Essas conquistas não fazem de mim maior do que eu sou e nem maior do que ninguém, apenas consegui algumas coisas que corri atrás.

Hoje completo 63 anos, e acho que estou completo, o homem e o poeta. Sobrevivi ao caos, travo uma guerra diária com meus invencíveis demônios e meu sono, sempre aos pedaços, me impedem de sonhar.

Uma taça de vinho suja de batom, a cerveja esquentando no copo e o cigarro apagado no cinzeiro. É o fim da festa, e o que restou de mim, perambula na morbidez do quarto, onde a morte me espreita e por várias vezes tentou me levar, mas o Deus poeta condicionou essa aventura - se você morresse, mas você não morre- e a poesia se eternizou e sussurrou no meu ouvido, - Você é duro, José. E lá se vão 63 primaveras, ainda que as flores não sejam assim tão belas.


Ze Lopes.

POESIA - TORRE DE NEVOA - FLORBELA ESPANCA

  

Torre de névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,

Feita de fumo, névoas e luar,

E pus-me, comovida, a conversar

Com os poetas mortos, todo o dia.


Contei-lhes os meus sonhos, a alegria

Dos versos que são meus, do meu sonhar,

E todos os poetas, a chorar,

Responderam-me então: “Que fantasia,


Criança doida e crente! Nós também

Tivemos ilusões, como ninguém,

E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”


Calaram-se os poetas, tristemente...

E é desde então que eu choro amargamente

Na minha Torre esguia junto ao Céu!...


Florbela Espanca 





SEXTOU COM MUÇÃO

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

COMECA AS ARTICULAÇÕES PARA A TRANSIÇÃO DO GOVERNO DO ESTADO DO MARANHÃO

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) realizou, na tarde de ontem, quarta-feira (21), a primeira reunião de trabalho com a Comissão de Transição do Governo estadual eleito. A equipe é integrada por Caroline Marques Salgado (coordenadora), David Col Debella, Manuella Oliveira Fernandes, Silvana Carla Costa dos Santos e Simão Cirineu.

O conselheiro Marcelo Tavares, presidente em exercício do TCE, coordenou a reunião ao lado dos auditores e assessores que compõem a Comissão de Acompanhamento da Transição de Governo do Estado do Maranhão, criada pela Portaria TCE/MA nº 899, de 09 de outubro de 2026, para verificar o cumprimento da Lei nº 10.219/2015, que normatiza as transições de governo.

Entre outros aspectos, a lei garante o pleno acesso aos integrantes da Comissão de Transição do Governo eleito às informações relativas às contas públicas, aos programas e aos projetos do atual governo.

Devem ser disponibilizados à comissão, de forma imediata e sem a necessidade de requerimento, documentos e informações como o Plano Plurianual (PPA); a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO); os Anexos de Metas Fiscais e de Riscos Fiscais; a Lei Orçamentária Anual (LOA), além dos demonstrativos dos saldos disponíveis, que devem ser apresentados na forma de termo de conferência de saldos em caixa, onde se firmará valores encontrados nos cofres estaduais na data da prestação das informações à comissão de transição.

Além destas informações, devem ser disponibilizados os termos de conferência de saldos em bancos, onde serão anotados os saldos de todas as contas mantidas pelo Poder Executivo estadual, acompanhados de extratos que apontem expressamente o valor existente na data da prestação das informações à comissão de transição; a relação de valores pertencentes a terceiros e regularmente confiados à guarda da Tesouraria e os demonstrativos da Dívida Fundada Interna, bem como de operações de créditos por antecipação de receitas.

O principal ponto debatido na reunião foi o funcionamento do sistema de saúde pública durante o período de transição. A preocupação do governo estadual eleito é garantir a continuidade da prestação de serviços à população nesta área, com a manutenção das atividades de todas as unidades de saúde que fazem parte da rede pública estadual.

O presidente em exercício do TCE, conselheiro Marcelo Tavares, assegurou aos integrantes da Comissão de Transição do Governo eleito que a instituição vai atuar, no âmbito de suas atribuições, para que todas as regras do processo de transição de governo sejam cumpridas integralmente, possibilitando a continuidade do desenvolvimento das políticas públicas, de forma a garantir que a população continue tendo acesso aos serviços de saúde. “A Comissão de Acompanhamento da Transição de Governo criada pelo TCE já está adotando as medidas necessárias para garantir que a legislação seja cumprida e o Governo Estadual eleito possa ter acesso a todas as informações necessárias ao conhecimento da realidade administrava do estado, para que possa planejar e desenvolver as futuras ações de governo”, afirma

CRONICA - A ÚLTIMA LIÇÃO DO DIA DOS PROFESSORES


CRÔNICA DO DIA: A Última Lição do Dia dos Professores

Naquela manhã de outubro, a escola amanheceu com a mesma aparência de todos os dias: paredes descascadas, ventiladores cansados, ar condicionados quase frios, carteiras riscadas com declarações de amor que duravam menos que uma aula e um corredor onde os gritos dos alunos chegavam antes deles. Havia, porém, uma diferença no calendário. Era Dia dos Professores.

A Secretaria de Educação havia reorganizado as datas letivas para evitar folgas alternadas e garantir a continuidade das aulas. Por isso, enquanto algumas escolas celebravam a data com homenagens, bolos e fotografias nas redes sociais, naquela escola o sinal tocou normalmente. A festa ficara para outra ocasião. O conteúdo programático, não.

Na sala do nono ano, a professora  Maria do Amparo  preparava mais uma tentativa de fazer a língua portuguesa atravessar a fronteira da indiferença.

Tinha quase vinte anos de magistério e uma convicção que o tempo, apesar de tudo, ainda não conseguira aposentar: a escola deveria ensinar os alunos a ler o mundo antes mesmo de exigir que decifrassem as palavras. Gostava de Paulo Freire, acreditava no diálogo e defendia uma educação que libertasse, em vez de apenas disciplinar. Para ela, ensinar não era despejar regras gramaticais sobre cabeças distraídas, mas abrir janelas onde os alunos só enxergavam paredes.

Naquela turma, entretanto, as janelas pareciam emperradas.

Havia quem chutasse a mochila do colega, quem transformasse qualquer pergunta em motivo de zombaria, quem disputasse o volume da própria voz com o ventilador e quem já tivesse aprendido, antes mesmo de terminar o ensino fundamental, que intimidar os outros era uma maneira eficiente de conquistar espaço.

Amparo conhecia os nomes, os temperamentos e algumas das histórias que os alunos escondiam atrás dos gestos agressivos. Sabia que, em certas casas, faltava comida; em outras, sobravam gritos. Havia meninos que trabalhavam depois da aula, meninas que cuidavam dos irmãos menores e adolescentes que conheciam mais profundamente a linguagem das ofensas do que a dos afetos.

Compreender aquelas realidades, contudo, não tornava a sala de aula menos difícil. A professora sabia que a pobreza não condenava ninguém à violência, assim como conhecia alunos de famílias desestruturadas capazes de gestos extraordinários de ternura. Cada estudante era um universo, embora alguns insistissem em transformar a sala inteira num campo de batalha.

Naquela manhã, Helena decidiu começar de maneira diferente. Escreveu no quadro, em letras grandes:

QUEM TEM O DIREITO DE CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA?

Em seguida, virou-se para a turma.

— Hoje, não quero começar pela gramática. Quero ouvir vocês. Se pudessem mudar alguma coisa no mundo, o que mudariam?

Um aluno respondeu que acabaria com as provas. Outro disse que proibiria os professores de passar atividades. A turma explodiu em gargalhadas. Do fundo, alguém imitou o som de uma sirene. Duas carteiras arrastaram-se pelo chão, e um pedaço de papel atravessou a sala como um pássaro sem rumo.

Amparo esperou. Acreditava que o silêncio também podia ser uma ferramenta pedagógica, embora naquele nono ano ele fosse um artigo de luxo.

— Professora, eu mudaria a escola inteira. — Disse um rapaz, sem tirar os olhos do celular. — Aqui ninguém escuta ninguém.

A frase provocou risos, mas Helena percebeu nela uma verdade involuntária.

— Então talvez seja por aí que a gente deva começar. — respondeu a professora. — Aprendendo a escutar.

Foi quando percebeu que Camila, sentada perto da janela, continuava mexendo no telefone, alheia à atividade. Ela era conhecida pelos enfrentamentos. Respondia aos professores, discutia com os colegas e parecia carregar nos ombros uma raiva maior que seu corpo franzino. Naquela manhã, tinha o rosto fechado e os olhos fixos na tela. Helena aproximou-se da carteira.

— Camila, guarde o celular e participe da atividade, por favor.

A menina não respondeu.

— Estou falando com você.

— E eu ouvi.

— Então guarde o aparelho.

Camila ergueu os olhos devagar.

— A senhora só sabe mandar.

Helena respirou fundo. Não queria transformar uma orientação em duelo. A experiência lhe ensinara que, diante de uma turma inquieta, certas palavras precisavam ser escolhidas com o cuidado de quem atravessa uma ponte estreita.

— Não estou aqui para mandar na sua vida. Estou aqui para ajudar você a aprender. Mas, para isso, precisamos respeitar o espaço de todos.

— Respeitar? — Camila soltou uma risada amarga. — Vocês falam de respeito, mas ninguém respeita a gente!

Alguns alunos começaram a incentivar a discussão. Outros puxaram os celulares, atentos à possibilidade de registrar uma cena que, minutos depois, poderia circular pelas redes sociais com uma legenda cruel.

Amparo sentiu a aula escapar por entre os dedos.

— Camila, sente-se direito, guarde o celular e vamos conversar depois. Agora, preciso continuar a atividade.

— A senhora não manda em mim!

— Não quero mandar em você. Quero que você entenda que sua liberdade não lhe dá o direito de impedir a liberdade dos outros.

Por um instante, a sala ficou suspensa naquela frase. Camila levantou-se bruscamente. A cadeira tombou para trás. A professora pediu que ela se acalmasse, mas a menina já não parecia ouvir. Havia insultos, vozes sobrepostas, colegas incentivando o confronto e uma tensão que crescia sem que ninguém soubesse como interrompê-la.

Amparo tentou manter a voz firme.

— Camila, por favor, vamos resolver isso conversando.

A resposta veio num movimento rápido, desesperado e irreversível. A lâmina de uma faca surgiu na mão da adolescente. Houve um grito. Depois, o silêncio.

Amparo levou a mão ao corpo e olhou para a própria palma, como se não compreendesse o vermelho que começava a manchá-la. Camila permaneceu imóvel por um segundo, os olhos arregalados diante daquilo que acabara de fazer. Alguém correu até a porta. Outro aluno começou a chorar. As carteiras, antes instrumentos de barulho, pareciam agora testemunhas incapazes de falar.

A professora caiu.

Naquele instante, o Dia dos Professores deixou de ser uma data no calendário e se transformou numa pergunta terrível: em que momento a escola, que deveria ser um lugar de encontro, se tornara um lugar onde uma educadora precisava temer pela própria vida?

Os minutos seguintes foram de desespero. Chamaram a direção, pediram socorro, afastaram os estudantes. Helena foi amparada até a chegada do atendimento médico. Camila, ainda em choque, foi retirada da sala.

Sobre a mesa, o livro de língua portuguesa permanecia aberto. A atividade continuava pela metade. No quadro, a pergunta escrita em letras grandes parecia olhar para todos:

Quem tem o direito de contar a própria história?

Naquela manhã, ninguém conseguiu respondê-la.

Amparo sobreviveu, mas alguma coisa nela permaneceu naquela sala. Não apenas o medo, nem somente a lembrança da lâmina. Ficou a imagem dos rostos adolescentes, do celular erguido, das vozes que incentivavam a briga e do instante em que uma tentativa de ensinar se converteu numa luta pela sobrevivência.

Nos dias seguintes, vieram as notícias, os comentários, as opiniões apressadas. Houve quem culpasse a professora por ter chamado a atenção da aluna. Houve quem exigisse punições exemplares. Outros aproveitaram a tragédia para atacar a escola pública, como se os problemas de uma sociedade inteira coubessem nos muros de uma instituição.

Poucos perguntaram quantos alunos naquela escola precisavam de acompanhamento psicológico, quantos professores trabalhavam sem apoio suficiente, quantas famílias estavam desamparadas e quantas vezes a violência havia dado sinais antes de explodir.

Compreender as circunstâncias não significava justificar a agressão. Camila precisava responder pelo que fizera, de acordo com a lei e com sua condição de adolescente. Amparo tinha o direito de ser protegida, cuidada e respeitada. E a escola precisava de condições reais para ensinar, acolher e estabelecer limites.

A educação libertadora em que Amparo acreditava nunca significara ausência de regras, muito menos a obrigação de um professor aceitar humilhações ou correr riscos para provar sua vocação. Liberdade sem responsabilidade não constrói convivência. Diálogo sem segurança não se sustenta. E nenhuma pedagogia pode exigir que um educador ofereça a própria integridade física como material didático.

Talvez a grande tragédia daquela manhã não tivesse começado no instante em que a lâmina apareceu. Talvez tivesse raízes mais antigas, espalhadas por ausências, negligências, agressividades naturalizadas e pela dificuldade coletiva de reconhecer que educar é uma tarefa de toda a sociedade, não apenas de quem entra numa sala com um livro debaixo do braço.

Mas seria injusto reduzir Amparo à condição de vítima. Ela era professora antes daquele dia e continuava sendo muito mais do que a violência que sofrera. Era a mulher que preparava aulas, corrigia redações, inventava estratégias para despertar curiosidade e acreditava que uma palavra bem colocada poderia abrir caminhos.

Era uma profissional que merecia voltar para casa em segurança. E isso, que deveria ser tão simples, tornou-se uma reivindicação urgente.

No Brasil, há milhares de Amparos que entram nas escolas carregando livros, cadernos, planos de aula e uma esperança que raramente aparece nos contracheques. Professores que improvisam laboratórios onde faltam equipamentos, transformam textos em debates, fazem da poesia uma ponte para a realidade e tentam descobrir, entre uma provocação e outra, o que ainda pode despertar o interesse de um adolescente.

São profissionais que ensinam a diferença entre uma metáfora e uma mentira, entre uma opinião e um argumento, entre discordar de alguém e desejar destruí-lo. Ensinam que a palavra pode ferir, mas também pode reparar; que a liberdade exige responsabilidade; que ninguém precisa humilhar o outro para ser ouvido.

Não são heróis de uma profissão destinada ao sacrifício. São trabalhadores. Precisam de salários dignos, formação continuada, respeito, segurança, equipes de apoio, escolas bem estruturadas e políticas públicas que não os abandonem diante de problemas que ultrapassam os limites da sala de aula.

Neste Dia dos Professores, enquanto flores, cartões e homenagens percorrem as redes sociais, vale lembrar que o melhor presente não é um discurso bonito pronunciado uma vez por ano. É a garantia de que cada educador possa ensinar sem medo, de que cada estudante encontre na escola oportunidades reais de crescimento e de que a sociedade compreenda que a violência contra um professor fere muito mais do que uma pessoa: atinge o próprio sentido da educação.

Quanto a Helena, talvez um dia volte a escrever no quadro. Talvez escolha outra pergunta, outro texto, outra maneira de começar a aula. Não sabemos se conseguirá apagar inteiramente o que viveu. Algumas feridas não obedecem ao calendário escolar.

Mas, se voltar, que encontre uma escola diferente. Uma escola onde sua voz não precise disputar espaço com ameaças, onde o diálogo seja acompanhado de responsabilidade e onde ensinar não seja um ato de coragem diante do perigo, mas um exercício cotidiano de dignidade.

E que, ao abrir o livro, encontre novamente aquilo que a fez escolher o magistério: a possibilidade de que uma palavra alcance alguém, permaneça em sua memória e ajude a mudar o rumo de uma vida.

Porque há lições que não cabem no quadro. Há mestres que continuam ensinando mesmo quando o mundo lhes oferece motivos para desistir. E há uma dívida que o Brasil precisa reconhecer: não basta aplaudir os professores no dia em que se celebra sua profissão. É preciso defendê-los em todos os dias em que exercem o direito de ensinar.

Aos professores brasileiros, que fazem da palavra uma ferramenta de transformação e da sala de aula um território de possibilidades, nossa homenagem, nosso respeito e nossa gratidão.

Que nunca lhes faltem livros para ensinar, liberdade para pensar, condições para trabalhar e segurança para voltar para casa. E que nenhum professor precise derramar o próprio sangue para que o Brasil finalmente compreenda o valor de sua missão. Porque, quando um professor é ferido, não é apenas uma pessoa que sangra.

É o futuro inteiro que perde uma página.


José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade



POESIA - PSRA IR A LUA - CECILIA MEIRELLES

  

Para ir à Lua


Enquanto não têm foguetes

para ir à Lua

os meninos deslizam de patinete

pelas calçadas da rua.


Vão cegos de velocidade:

mesmo que quebrem o nariz,

que grande felicidade!

Ser veloz é ser feliz.


Ah! se pudessem ser anjos

de longas asas!

Mas são apenas marmanjos!


Cevolia Meireles

POESIA - INTERLUDIO - CECÍLIA MEIRELLES

   

Interlúdio


As palavras estão muito ditas

e o mundo muito pensado.

Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro

nem passado.

Deixa o presente — claro muro

sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,

Não me expliques o presente,

pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,

o cometa dos meus males

afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.


Cecília Meirelles