quinta-feira, 22 de outubro de 2026

CRONICA - A ÚLTIMA LIÇÃO DO DIA DOS PROFESSORES


CRÔNICA DO DIA: A Última Lição do Dia dos Professores

Naquela manhã de outubro, a escola amanheceu com a mesma aparência de todos os dias: paredes descascadas, ventiladores cansados, ar condicionados quase frios, carteiras riscadas com declarações de amor que duravam menos que uma aula e um corredor onde os gritos dos alunos chegavam antes deles. Havia, porém, uma diferença no calendário. Era Dia dos Professores.

A Secretaria de Educação havia reorganizado as datas letivas para evitar folgas alternadas e garantir a continuidade das aulas. Por isso, enquanto algumas escolas celebravam a data com homenagens, bolos e fotografias nas redes sociais, naquela escola o sinal tocou normalmente. A festa ficara para outra ocasião. O conteúdo programático, não.

Na sala do nono ano, a professora  Maria do Amparo  preparava mais uma tentativa de fazer a língua portuguesa atravessar a fronteira da indiferença.

Tinha quase vinte anos de magistério e uma convicção que o tempo, apesar de tudo, ainda não conseguira aposentar: a escola deveria ensinar os alunos a ler o mundo antes mesmo de exigir que decifrassem as palavras. Gostava de Paulo Freire, acreditava no diálogo e defendia uma educação que libertasse, em vez de apenas disciplinar. Para ela, ensinar não era despejar regras gramaticais sobre cabeças distraídas, mas abrir janelas onde os alunos só enxergavam paredes.

Naquela turma, entretanto, as janelas pareciam emperradas.

Havia quem chutasse a mochila do colega, quem transformasse qualquer pergunta em motivo de zombaria, quem disputasse o volume da própria voz com o ventilador e quem já tivesse aprendido, antes mesmo de terminar o ensino fundamental, que intimidar os outros era uma maneira eficiente de conquistar espaço.

Amparo conhecia os nomes, os temperamentos e algumas das histórias que os alunos escondiam atrás dos gestos agressivos. Sabia que, em certas casas, faltava comida; em outras, sobravam gritos. Havia meninos que trabalhavam depois da aula, meninas que cuidavam dos irmãos menores e adolescentes que conheciam mais profundamente a linguagem das ofensas do que a dos afetos.

Compreender aquelas realidades, contudo, não tornava a sala de aula menos difícil. A professora sabia que a pobreza não condenava ninguém à violência, assim como conhecia alunos de famílias desestruturadas capazes de gestos extraordinários de ternura. Cada estudante era um universo, embora alguns insistissem em transformar a sala inteira num campo de batalha.

Naquela manhã, Helena decidiu começar de maneira diferente. Escreveu no quadro, em letras grandes:

QUEM TEM O DIREITO DE CONTAR A PRÓPRIA HISTÓRIA?

Em seguida, virou-se para a turma.

— Hoje, não quero começar pela gramática. Quero ouvir vocês. Se pudessem mudar alguma coisa no mundo, o que mudariam?

Um aluno respondeu que acabaria com as provas. Outro disse que proibiria os professores de passar atividades. A turma explodiu em gargalhadas. Do fundo, alguém imitou o som de uma sirene. Duas carteiras arrastaram-se pelo chão, e um pedaço de papel atravessou a sala como um pássaro sem rumo.

Amparo esperou. Acreditava que o silêncio também podia ser uma ferramenta pedagógica, embora naquele nono ano ele fosse um artigo de luxo.

— Professora, eu mudaria a escola inteira. — Disse um rapaz, sem tirar os olhos do celular. — Aqui ninguém escuta ninguém.

A frase provocou risos, mas Helena percebeu nela uma verdade involuntária.

— Então talvez seja por aí que a gente deva começar. — respondeu a professora. — Aprendendo a escutar.

Foi quando percebeu que Camila, sentada perto da janela, continuava mexendo no telefone, alheia à atividade. Ela era conhecida pelos enfrentamentos. Respondia aos professores, discutia com os colegas e parecia carregar nos ombros uma raiva maior que seu corpo franzino. Naquela manhã, tinha o rosto fechado e os olhos fixos na tela. Helena aproximou-se da carteira.

— Camila, guarde o celular e participe da atividade, por favor.

A menina não respondeu.

— Estou falando com você.

— E eu ouvi.

— Então guarde o aparelho.

Camila ergueu os olhos devagar.

— A senhora só sabe mandar.

Helena respirou fundo. Não queria transformar uma orientação em duelo. A experiência lhe ensinara que, diante de uma turma inquieta, certas palavras precisavam ser escolhidas com o cuidado de quem atravessa uma ponte estreita.

— Não estou aqui para mandar na sua vida. Estou aqui para ajudar você a aprender. Mas, para isso, precisamos respeitar o espaço de todos.

— Respeitar? — Camila soltou uma risada amarga. — Vocês falam de respeito, mas ninguém respeita a gente!

Alguns alunos começaram a incentivar a discussão. Outros puxaram os celulares, atentos à possibilidade de registrar uma cena que, minutos depois, poderia circular pelas redes sociais com uma legenda cruel.

Amparo sentiu a aula escapar por entre os dedos.

— Camila, sente-se direito, guarde o celular e vamos conversar depois. Agora, preciso continuar a atividade.

— A senhora não manda em mim!

— Não quero mandar em você. Quero que você entenda que sua liberdade não lhe dá o direito de impedir a liberdade dos outros.

Por um instante, a sala ficou suspensa naquela frase. Camila levantou-se bruscamente. A cadeira tombou para trás. A professora pediu que ela se acalmasse, mas a menina já não parecia ouvir. Havia insultos, vozes sobrepostas, colegas incentivando o confronto e uma tensão que crescia sem que ninguém soubesse como interrompê-la.

Amparo tentou manter a voz firme.

— Camila, por favor, vamos resolver isso conversando.

A resposta veio num movimento rápido, desesperado e irreversível. A lâmina de uma faca surgiu na mão da adolescente. Houve um grito. Depois, o silêncio.

Amparo levou a mão ao corpo e olhou para a própria palma, como se não compreendesse o vermelho que começava a manchá-la. Camila permaneceu imóvel por um segundo, os olhos arregalados diante daquilo que acabara de fazer. Alguém correu até a porta. Outro aluno começou a chorar. As carteiras, antes instrumentos de barulho, pareciam agora testemunhas incapazes de falar.

A professora caiu.

Naquele instante, o Dia dos Professores deixou de ser uma data no calendário e se transformou numa pergunta terrível: em que momento a escola, que deveria ser um lugar de encontro, se tornara um lugar onde uma educadora precisava temer pela própria vida?

Os minutos seguintes foram de desespero. Chamaram a direção, pediram socorro, afastaram os estudantes. Helena foi amparada até a chegada do atendimento médico. Camila, ainda em choque, foi retirada da sala.

Sobre a mesa, o livro de língua portuguesa permanecia aberto. A atividade continuava pela metade. No quadro, a pergunta escrita em letras grandes parecia olhar para todos:

Quem tem o direito de contar a própria história?

Naquela manhã, ninguém conseguiu respondê-la.

Amparo sobreviveu, mas alguma coisa nela permaneceu naquela sala. Não apenas o medo, nem somente a lembrança da lâmina. Ficou a imagem dos rostos adolescentes, do celular erguido, das vozes que incentivavam a briga e do instante em que uma tentativa de ensinar se converteu numa luta pela sobrevivência.

Nos dias seguintes, vieram as notícias, os comentários, as opiniões apressadas. Houve quem culpasse a professora por ter chamado a atenção da aluna. Houve quem exigisse punições exemplares. Outros aproveitaram a tragédia para atacar a escola pública, como se os problemas de uma sociedade inteira coubessem nos muros de uma instituição.

Poucos perguntaram quantos alunos naquela escola precisavam de acompanhamento psicológico, quantos professores trabalhavam sem apoio suficiente, quantas famílias estavam desamparadas e quantas vezes a violência havia dado sinais antes de explodir.

Compreender as circunstâncias não significava justificar a agressão. Camila precisava responder pelo que fizera, de acordo com a lei e com sua condição de adolescente. Amparo tinha o direito de ser protegida, cuidada e respeitada. E a escola precisava de condições reais para ensinar, acolher e estabelecer limites.

A educação libertadora em que Amparo acreditava nunca significara ausência de regras, muito menos a obrigação de um professor aceitar humilhações ou correr riscos para provar sua vocação. Liberdade sem responsabilidade não constrói convivência. Diálogo sem segurança não se sustenta. E nenhuma pedagogia pode exigir que um educador ofereça a própria integridade física como material didático.

Talvez a grande tragédia daquela manhã não tivesse começado no instante em que a lâmina apareceu. Talvez tivesse raízes mais antigas, espalhadas por ausências, negligências, agressividades naturalizadas e pela dificuldade coletiva de reconhecer que educar é uma tarefa de toda a sociedade, não apenas de quem entra numa sala com um livro debaixo do braço.

Mas seria injusto reduzir Amparo à condição de vítima. Ela era professora antes daquele dia e continuava sendo muito mais do que a violência que sofrera. Era a mulher que preparava aulas, corrigia redações, inventava estratégias para despertar curiosidade e acreditava que uma palavra bem colocada poderia abrir caminhos.

Era uma profissional que merecia voltar para casa em segurança. E isso, que deveria ser tão simples, tornou-se uma reivindicação urgente.

No Brasil, há milhares de Amparos que entram nas escolas carregando livros, cadernos, planos de aula e uma esperança que raramente aparece nos contracheques. Professores que improvisam laboratórios onde faltam equipamentos, transformam textos em debates, fazem da poesia uma ponte para a realidade e tentam descobrir, entre uma provocação e outra, o que ainda pode despertar o interesse de um adolescente.

São profissionais que ensinam a diferença entre uma metáfora e uma mentira, entre uma opinião e um argumento, entre discordar de alguém e desejar destruí-lo. Ensinam que a palavra pode ferir, mas também pode reparar; que a liberdade exige responsabilidade; que ninguém precisa humilhar o outro para ser ouvido.

Não são heróis de uma profissão destinada ao sacrifício. São trabalhadores. Precisam de salários dignos, formação continuada, respeito, segurança, equipes de apoio, escolas bem estruturadas e políticas públicas que não os abandonem diante de problemas que ultrapassam os limites da sala de aula.

Neste Dia dos Professores, enquanto flores, cartões e homenagens percorrem as redes sociais, vale lembrar que o melhor presente não é um discurso bonito pronunciado uma vez por ano. É a garantia de que cada educador possa ensinar sem medo, de que cada estudante encontre na escola oportunidades reais de crescimento e de que a sociedade compreenda que a violência contra um professor fere muito mais do que uma pessoa: atinge o próprio sentido da educação.

Quanto a Helena, talvez um dia volte a escrever no quadro. Talvez escolha outra pergunta, outro texto, outra maneira de começar a aula. Não sabemos se conseguirá apagar inteiramente o que viveu. Algumas feridas não obedecem ao calendário escolar.

Mas, se voltar, que encontre uma escola diferente. Uma escola onde sua voz não precise disputar espaço com ameaças, onde o diálogo seja acompanhado de responsabilidade e onde ensinar não seja um ato de coragem diante do perigo, mas um exercício cotidiano de dignidade.

E que, ao abrir o livro, encontre novamente aquilo que a fez escolher o magistério: a possibilidade de que uma palavra alcance alguém, permaneça em sua memória e ajude a mudar o rumo de uma vida.

Porque há lições que não cabem no quadro. Há mestres que continuam ensinando mesmo quando o mundo lhes oferece motivos para desistir. E há uma dívida que o Brasil precisa reconhecer: não basta aplaudir os professores no dia em que se celebra sua profissão. É preciso defendê-los em todos os dias em que exercem o direito de ensinar.

Aos professores brasileiros, que fazem da palavra uma ferramenta de transformação e da sala de aula um território de possibilidades, nossa homenagem, nosso respeito e nossa gratidão.

Que nunca lhes faltem livros para ensinar, liberdade para pensar, condições para trabalhar e segurança para voltar para casa. E que nenhum professor precise derramar o próprio sangue para que o Brasil finalmente compreenda o valor de sua missão. Porque, quando um professor é ferido, não é apenas uma pessoa que sangra.

É o futuro inteiro que perde uma página.


José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade



POESIA - PSRA IR A LUA - CECILIA MEIRELLES

  

Para ir à Lua


Enquanto não têm foguetes

para ir à Lua

os meninos deslizam de patinete

pelas calçadas da rua.


Vão cegos de velocidade:

mesmo que quebrem o nariz,

que grande felicidade!

Ser veloz é ser feliz.


Ah! se pudessem ser anjos

de longas asas!

Mas são apenas marmanjos!


Cevolia Meireles

POESIA - INTERLUDIO - CECÍLIA MEIRELLES

   

Interlúdio


As palavras estão muito ditas

e o mundo muito pensado.

Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro

nem passado.

Deixa o presente — claro muro

sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,

Não me expliques o presente,

pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,

o cometa dos meus males

afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.


Cecília Meirelles 

HOJE TEM SHOW VOZES E VERSOS


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

NATALIA DUDA TEM REELEIÇÃO GARANTIDA PARA PRESIDENCIA DA CAMARA DE BACABAL

*Natália Duda tem reeleição garantida para Presidência da Câmara de Bacabal*

A reeleição da vereadora Natália Duda à Presidência da Câmara Municipal de Bacabal é apontada como certa nos bastidores políticos. Com apoio declarado de 11 vereadores, além do próprio voto, a atual presidente reúne 12 votos, número superior aos nove necessários para vencer a eleição da Mesa Diretora.

Nesta terça-feira (20), Natália recebeu a declaração de apoio de 11 dos 17 vereadores da Casa: Reginaldo do Posto, Alberto Sobrinho, Alex Abreu, Serafim Reis, Patrícia Teles, Ivonete Paiva, Elizabeth da Colônia, Batata do Frigorífico, João Alberto, Paulo Brandão e Fernando da Luziana. Com o voto da própria presidente, o grupo soma 12 votos. Segundo informações de bastidores, outros dois vereadores ainda poderão declarar apoio à sua reeleição.

A articulação reúne parlamentares de diferentes posições e tem como um dos fatores a experiência de Natália Duda, que exerce o quarto mandato como vereadora. À frente do Legislativo, ela tem conduzido os trabalhos da Casa com diálogo entre os parlamentares e habilidade na construção de entendimentos.

A expectativa de continuidade também está relacionada à condução administrativa da Câmara e à capacidade de articulação política da presidente. Com a maioria já declarada, Natália chega à votação com o apoio necessário para renovar o mandato.

A eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Bacabal para o biênio 2027/2028 será realizada nesta quarta-feira (21 de outubro), às 15h, no plenário da Casa.



SÓ UM PONTINHO


Pesquisa Quaest para o 2º Turno, divulgada nesta quarta-feira (21), mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 45% das intenções de voto, contra 44% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além disso, o levantamento aponta que 9% pretendem votar branco/nulo e/ou não votar; e 2% estão indecisos.

Levando em conta apenas os votos válidos: Flávio Bolsonaro teria 50,56%, enquanto Lula com 49,44%.

Entre os entrevistados, independente do seu voto, 54% acham que Flávio Bolsonaro vai vencer a disputa e 37% apontam Lula como favorito.

A Quaest perguntou aos eleitores se a decisão de voto deles era definitiva ou se ainda podia mudar: 90% disseram ser definitivo e 10% admitem mudar. Entre eleitores de Lula, 90% dizem que a decisão é definitiva e 9%, que ainda podem mudar o voto. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, os números são 93% não mudam e 7% podem modificar.

A pesquisa Quaest de 20 de outubro ouviu 2.154 pessoas, entre os dias 17 e 20 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como BR-08535/2026.

DEPOIS DO MOVIMENTO, LULA VISITA SARNEY

Mesmo com a agenda apertada, afinal falta apenas cinco dias para a eleição de 2º Turno, o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fez questão de fazer uma visita de cortesia ao amigo e ex-presidente José Sarney (MDB), após ato de campanha na capital maranhense.

Sarney, que se recuperou de uma pneumonia recente e passou por uma cirurgia para tratar uma obstrução intestinal, recebeu Lula em sua residência, em São Luís.

“Vir ao Maranhão e não visitar o Sarney era não vir ao Maranhão. Então, fazer uma visita ao presidente Sarney e a dona Marly é um dever de ofício, de gratidão, pela relação extraordinária que eu construí com o presidente Sarney”, declarou Lula.

Também participaram do encontro Marly Sarney, ex-primeira-dama do Brasil; Roseana Sarney, deputada federal e ex-governadora do Maranhão; Rafael Fonteles (PT), governador do Piauí; e Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil



MUDANÇA NOS LOCAIS DE VOTAÇÃO TRAZ DUAS IMPORTANTES OBSERVAÇÕES

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciou a mudança de 453 seções eleitorais entre o primeiro e o segundo turno das eleições 2026. Entre os motivos para a troca, estão danos causados por chuvas, reformas não concluídas, problemas de acessibilidade e falhas no fornecimento de energia elétrica.

Por conta das mudanças anunciadas pelo TSE, atualmente presidido pelo ministro Nunes Marques, indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, alguns já fizeram ilações e que as trocas poderiam prejudicar a candidatura do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No entanto, é preciso fazer duas observações importantes sobre essa conjecturas ilógicas.

As mudanças foram autorizadas e anunciadas pelo TSE, mas foram solicitadas pelos Tribunais Regionais Eleitorais. Ou seja, coube a cada TRE dos estados identificar eventuais falhas no locais utilizados no primeiro turno e pedir as trocas no segundo turno, sem nenhuma interferência do TSE.

Por fim, mas não menos importante, se formos fazer uma comparação com as últimas eleições gerais, o número de mudanças de locais de votação entre os dois turnos em 2026 é 12 vezes menor do que em 2022.

Se em 2026 teremos a mudança de 453 seções eleitorais entre os dois turnos, em 2022 foram simplesmente registrados alterações em 5.822 locais de votação. Para irmos um pouco mais longe, em 2018 tivemos 2.387 trocas do primeiro para o segundo turno.

Ou seja, o número de trocas em 2026 é risível, principalmente se compararmos com 2022 e 2018.

É aguardar e conferir, mas as duas observações derrubam quaisquer ilações sobre as mudanças nos locais de votação para o segundo turno no próximo domingo (25)

LULA ARRASTA MULTIDÃO EM PASSAGEM POR SAO LUIS

Depois de não vir ao Maranhão no 1º Turno, o atual presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no dia de ontem,v terça-feira (20), esteve na capital maranhense para atos políticos, faltando cinco dias para a eleição do 2ºTurno, no próximo domingo (25).

Durante a passagem de Lula, o petista conseguiu colocar no seu carro, desfilando por algumas ruas da região central de São Luís, alguns adversários políticos. Estavam com Lula, em cima do veículo, o governador Carlos Brandão (MDB), as senadoras Eliziane Gama (PT) e Ana Paula Lobato (PSB), além do senador eleito André Fufuca (PP). O senador Weverton Rocha (PDT) não marcou presença no evento.

“Meu coração transborda gratidão por tanto carinho, tanta força e tanta demonstração de amor hoje! O Maranhão mostrou, mais uma vez, que quando o povo se une, acredita e caminha junto, ninguém segura! A energia de vocês nos move, a confiança nos fortalece e a união nos faz avançar! Obrigado, São Luís! Obrigado, Maranhão! Essa caminhada é nossa, e ainda temos muito a conquistar!”, destacou Lula.

Brandão, mesmo sem ter recebido o apoio de Lula no 1º Turno, esteve acompanhando o petista e mostrou confiança na virada.

“Esse é o encontro das pessoas que querem que os programas sociais continuem e que o Brasil siga avançando. Votar Lula 13 é o caminho para que todos tenham acesso à saude, educação e uma vida melhor. O Maranhão já decidiu. Bora, Lula! Bora virar!”, afirmou Brandão.

André Fufuca e Eliziane Gama, que estiveram em palanques diferentes no 1º Turno, mas brigando por vaga ao Senado, destacaram a importância do evento para a caminhada de Lula nesta reta final.

“Um dia histórico! O povo maranhense foi pra rua e mostrou a sua força. Continuaremos nessa luta por mais dignidade e justiça, ao lado de Lula. Essa história vai continuar a brilhar!”, disse Fufuca.

“Foi extraordinário! Vamos vencer, gente! Dia 25 é 13”, assegurou Eliziane.



CRONICA - A CASA DA INFANCIA - POR JOSÉ SARNEY

A casa da infância

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24 de abril, é o dia em que meus olhos se abriram para o mundo, às sete e meia da manhã, na cidade de Pinheiro, localizada na Pré-Amazônia, área da Baixada Maranhense, zona de campos verdes, alagados, com muitos lagos e capins variados, como arroz-bravo, andrequicé, capim-de-marreca, algodão-do-campo, e flores amarelas que enfeitavam o tapete verde das plantas. 

Nessa cidade, as casas baixas, a rua deserta e a visão do campo verde davam ternura a uma planície sem fim que se perdia no horizonte. Era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como em outros lugares sempre chamada de Rua Grande, e a outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação. Em 1920 foi elevada a Município, desmembrada da Comarca de São Bento.

Em março de 1930, uma comitiva chegou a Pinheiro no fim da tarde e desembarcou no porto do Albino Paiva — assim chamado porque ali ele tinha sua casa de comércio —, onde aportavam as canoas, que, no inverno, eram o único transporte disponível. Naquela tarde, meus pais se dirigiram para a casa onde iriam morar.

Deus, o ser bondoso que eu sabia ter me dado a vida, me assegurou a Eternidade no paraíso que Ele me dera para viver na Terra: uma pequenina casa, com um quarto na frente, com piso de tijolo local, um outro quarto, uma salinha de comida e cozinha, juntas, de chão de barro batido.

A casa da infância é, sobretudo, onde moram as saudades nunca mortas, no interior do Maranhão, há quase cem anos — isso parece ontem. Na memória me vêm o pote com água de caneca, a cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, as fruteiras, manga, figo, laranja-da-terra, tangerina e a horta de quintal com tomate, vinagreira, maxixe, alface e abóbora. Os urucus vermelhos e o cavalo Graúna, preto, brilhante, relinchando com a chegada das cargas de palmito de babaçu, num quadro materializado no tempo.

Ficava na rua principal, àquele tempo José Anastácio, que fora um grande prefeito da cidade. Em frente morava José Alvim, farmacêutico, solteirão que depois veio a se casar com Inês de Castro — que se tornaram meus amigos, eles e seus filhos.

Naquela madrugada de abril anterior ao meu nascimento, chovera muito, e ainda chovia quando meu pai teve de ir buscar na Farmácia do Zé Alvim, a única da vila, uma injeção para restabelecer as contrações do parto. Aliás, o ditado popular era: “abril, chuvas mil; maio, trovão e raio”.

Busco antigas recordações e lembro das chuvas da minha infância e, na minha memória, as águas não param de cair. Ao me recordar desse tempo hoje ainda chove, uma chuva azul escuro que turva o dia.

Na cidadezinha pequena, pobre, isolada, mas bela na pureza de seus humildes arruados, Pinheiro, ficava minha casa, meu chão, onde meus olhos se abriram para a vida. Em duas ruas a cidade se esgotava. Mas nada mais belo do que a minha cidade, seus campos, suas águas, sua gente.

Eu tenho escrito muitas vezes que o tempo é uma criação do homem, feito de datas escolhidas por nós. Mas o tempo não destrói as memórias velhas, onde ficam as saudades nunca mortas.

Ao longo da vida, com mais de 50 anos de crônicas de imprensa, publicadas semanalmente em jornais e sites, que eu me recorde, com boa memória, jamais meu aniversário coincidiu com a data e o dia da publicação do meu artigo: sexta-feira, 24. Por isso compartilho tanta saudade. Desculpe-me o leitor, mas obrigado pelos parabéns que eu sei que está me enviando.

Eu sou só gratidão no dia de hoje. Todas as manhãs e noites agradeço a Deus pela vida que me deu, através do meu pai e da minha mãe, e pela minha família: filhos, genro, noras, netos, bisnetos, parentes e amigos. Deus guiou os meus passos.

Viva a vida. Viva o amor. E as saudades que nunca morrem.

José Sarney