terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

COM A PALAVRA - HISTORIETA DE MEU AGRADO XII - POR ZÉ CARLOS GONÇALVES R

 

HISTORIETA DE  MEU AGRADO XII

     (... ah, bendita linguági!)


     Como trabalho com a linguagem, há muito tempo, "já diviria tá acustumado cum argumas situaçõis", que tenho que enfrentar de vez em quando.

      Há alguns dias, em uma conversa "com um velho cunhicido", lhe disse que iria pra casa, porque "tava na hora de imitar morto. Pra quê?!" Fui veementemente repreendido. "Tu quê brincá cum a môrti?!"

      A verve de meu interlocutor foi tamanha qui mi abalô. Fiquei sem jeito e demorei um bocado para me recuperar.

      E, ainda ressabiado, "li disse qui, cum 'lucrécia", eu brinco sem medo. E, "pra quebrar o gelo, fui buscar um chasco", que nos divertiu muito, em nossa ingenuidade, e lhe perguntei, "só de mal", ao perceber que não sabia o que é "uma brincadeirinha". E, sem rodeio, "mandei bala. Tu brinca cum'eo brinco?!" 

       E o cúmulo do cúmulo era achar, em nossa infância, que essa expressão era uma grande e absurda ofensa, quando, hoje, as TVs, os shows, os cinemas e a internet, descaradamente, sem pudor, nos incentivam "a não só brincar, mas dar brincos, anéis, pulseiras, colares" ... e outras coisitas mais, tão escondidas e proibidas de se mencionar, que, até de se falar, causam arrepios.

      Mas, voltemos. "Como um baxadêro da gema", como eu, pode ter medo de algo, se "sempre foi um sujeito forte, casca dura, côro grosso, sem medida". 

       Um sofrente com a água distante e salobra. "Com tosse braba, puxamento, papeira, sarampo, ispinhela caída, arca aberta, frieira, bicho no pé, barriga d'água". E, se não tomasse cuidado, "corria o risco de acordá atarantado, pegá um vento, tê uma congestão, sofrê di andaço i di cobrêro ... e mais uma centena e uma ziquiziras".

     Aí, nessa vibe, "querê imitá môrto" é até uma expressão de parcos centavos, "uma simples brincadeirinha, qui si num mata ingorda!

     E a "lucrécia', qui si imbrenhe pô ôtas vereda! Vá brincá cum a curacanga, lá, pras banda do Têso du Fôgo! Cruzincrêdo! Tá ripriindido!"

      E, meu santinho Santo Inácio de Loiola, "mi livrai di todo malaméim!"


          Zé Carlos Gonçalves

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