domingo, 10 de maio de 2026

COLUNA DO DR.ERIVELTON LAGO - A INOCÊNCIA E A ENCHENTE DO MEARI

 


A INOCÊNCIA E A ENCHENTE DO MEARIM

Em 1964, eu tinha apenas sete anos de idade. Morava no bairro da Trizidela, na cidade de Bacabal, quando o rio Mearim resolveu mostrar a força da natureza e invadiu as casas humildes daquele bairro tão sofrido quanto humano.

A enchente levou muita coisa. Perdemos camas, colchões, roupas e objetos simples que, para famílias pobres, tinham um valor imenso. Naquele tempo, quase ninguém possuía luxo algum. Não havia fogão a gás dentro de casa. Rádio era artigo raro. Televisão era um imaginário. Algo ainda do outro mundo. Rádio e radiola quem tinha era o nosso vizinho Preto Oito. Lá em casa a vida era feita de necessidade, improviso e esperança, mas era muito boa. Não sei explicar porque. 

As famílias foram evacuadas às pressas da beira do rio para outros locais mais seguros. E foi então que comecei a assistir uma das cenas mais fortes da minha infância: a solidariedade humana. 

Chegavam pessoas trazendo arroz, macarrão, farinha, café, açúcar, roupas usadas e sardinhas enlatadas. Vinham donativos das boas almas da cidade, das igrejas, dos vizinhos e até dos políticos. Havia uma corrente silenciosa de humanidade percorrendo as ruas alagadas da Trizidela.

Minha mãe chorava muito. Eu me lembro dela aflita, angustiada, reclamando da situação, preocupada com o futuro dos filhos e, ao mesmo tempo, agradecendo a Deus por cada ajuda recebida. Naquele momento, ela carregava o peso da responsabilidade de uma mãe pobre diante da tragédia. Mas não me lembro de nenhum menino chorando, só brincando.

Mas eu era apenas uma criança. Eu não entendia o drama dos adultos. Não compreendia o significado da perda, da humilhação, do medo ou da insegurança. Enquanto os mais velhos sofriam, eu brincava com meus colegas pelas ruas molhadas, observando o movimento das pessoas e achando tudo aquilo uma espécie de aventura.

Para mim, era divertido ganhar brinquedos usados, roupas diferentes e comida distribuída pelas pessoas. A tragédia dos adultos, vista pelos olhos de uma criança, às vezes se transformava numa curiosa festa da sobrevivência.

Hoje, olhando para trás, compreendo finalmente as lágrimas da minha mãe. A infância possui um poder extraordinário: ela protege a alma da criança contra o peso completo da realidade. A inocência funciona como uma espécie de escudo invisível que impede o coração infantil de sentir toda a dureza do mundo.

Talvez por isso a inocência seja uma das coisas mais belas da vida. O adulto calcula, teme, sofre, perde o sono e antecipa desgraças. A criança apenas vive o instante. Ela encontra alegria onde o adulto vê tragédia. Ela brinca onde o adulto chora. Ela sorri no meio da enchente sem perceber que a mãe está tentando esconder o desespero atrás de uma oração.

Com o passar dos anos, percebi que aquela enchente não inundou apenas casas. Ela revelou o melhor e o pior da condição humana: a pobreza, o sofrimento, a desigualdade, mas também a compaixão, a caridade e a capacidade das pessoas simples de dividirem o pouco que possuem. 

Ainda hoje, quando lembro do rio Mearim cheio, das águas entrando nas casas da Trizidela e da minha mãe chorando enquanto agradecia por dois quilos de arroz, entendo que a vida é feita dessas contradições profundas. A dor dos adultos. A inocência das crianças. A solidariedade das pessoas de bom coração. Talvez seja exatamente isso que mantém o mundo de pé até hoje.

Erivelton Lago – advogado criminalista, cronista, escritor, músico, cantor compositor e professor 



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