terça-feira, 18 de agosto de 2026

POESIA - HEI - ABEL CARVALHO


Hei


Hei de afundar no tempo como um vício virtuoso.

Hei de moldar a cabeça ao travesseiro, caso passem as tantas dores que aconchego,

E sentir de novo sãos os dedos que teu corpo percorreram.

Hei de dormir mesmo insone e sonhar com teus sonhos,

Odisseia inacabada de mil noites de desvelo.

Hei de singrar qual quilha e sangrar em devaneio, sorrir quando o dia me chegar,

Deixar inerte na vigília o corpo desafeto, quedante e pouco ereto,

Fingir, fazer calar, tapar com os olhos o pesadelo,

Fazer crescer, merecer a inquietude avassaladora que atormenta

A mente sedenta de amor, de dor, langor e saudade.

Hei de amar mais mil vezes a ti perdidamente,

Viver mais mil noites de insônia e fazer, outra vez,

A dor em mil poesias frias, reticentes, quebrantadas e perenes,

Fortes, fieis e perturbadoras, apenas poesias tradutoras

De um amor achado e perdido, indevido, benvindo e banido,

Amor, apenas amor como a dor serena da poesia  que nunca deixará de nascer.


Abel Carvalho


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