sexta-feira, 10 de julho de 2026

OPINIÃO -; ACERVO NÃO É ESMOLA - JADER CAVALCANTE

*Acervo não é esmola*

*Jáder Cavalcante**


Tenho visto, com certa frequência, escritores maranhenses (alguns conhecidos meus) publicando fotografias nas redes sociais ao lado da diretora da Biblioteca Pública Benedito Leite, registrando a entrega, em doação, de exemplares de suas obras ao acervo da instituição.

Respeito profundamente o gesto de cada autor. Trata-se de uma decisão pessoal, movida, quase sempre, pelo desejo de compartilhar conhecimento e de tornar sua produção acessível ao público. Mas meu respeito vem revestido de discordância, que não é dirigida aos escritores, mas, sim, ao modelo que, aos poucos, parece naturalizar uma inversão de responsabilidades.

Publicar um livro no Brasil, especialmente fora dos grandes centros editoriais, é um verdadeiro ato de resistência. O escritor precisa pesquisar, idealizar, escrever, contratar serviço de revisão, editoração, capa, imprimir e divulgar a obra. Na maioria das vezes, tudo isso é custeado com recursos próprios. Pouquíssimos recuperam o investimento financeiro realizado, sem contar, é claro, com o tempo gasto na criação da obra, e isso nunca é contabilizado financeiramente — sabe aquele adágio de que “tempo é dinheiro”?

Ao mesmo tempo, o poder público (estadual e municipal) destina milhões de reais à contratação de atrações nacionais para grandes eventos festivos, principalmente, o carnaval e as festas juninas. Não discuto a importância dessas manifestações culturais, mas me pergunto por que o mesmo empenho não se traduz em políticas permanentes de valorização da produção intelectual maranhense.

Os impostos pagos pela sociedade existem justamente para financiar serviços públicos. Cultura também é serviço público. Bibliotecas públicas não deveriam depender da generosidade dos autores para atualizar seus acervos. Deveriam possuir dotação orçamentária específica para adquirir livros, especialmente, daqueles que produzem conhecimento e literatura no próprio estado.

Há ainda um aspecto escondido nas entrelinhas dessa bondade: ao doarem sistematicamente suas obras, os próprios autores podem, ainda que involuntariamente, contribuir para o desprestígio econômico e simbólico do livro. A gratuidade, quando se transforma em regra, tende a transmitir a ideia de que aquele bem não possui valor de mercado ou de que sua aquisição não exige investimento. O livro deixa de ser visto como resultado de um longo processo intelectual e passa a ser percebido como algo que pode ser obtido sem qualquer contrapartida. Essa percepção não favorece o escritor, nem fortalece a cadeia produtiva do livro.

A Biblioteca Pública Benedito Leite é um patrimônio cultural do Maranhão. Justamente por isso, precisa ser fortalecida por meio de políticas públicas consistentes, e não sustentada pelo sacrifício daqueles que já enfrentaram enormes dificuldades para publicar seus livros. Beira a crueldade a administração da Biblioteca aceitar com normalidade que escritores entreguem suas obras gratuitamente àquele templo do conhecimento. Tudo lá dentro é pago — água, luz, limpeza, segurança, reformas, conservação, restauro, etc. Por que a atividade-fim da Biblioteca deveria contar com o beneplácito da parte mais frágil do sistema?

Valorizar um escritor não é apenas abrir espaço para uma fotografia no momento da entrega de um exemplar. Valorizar um escritor é reconhecer que seu trabalho possui valor econômico, intelectual e cultural. É comprar seus livros para que eles integrem o acervo público, remunerando dignamente quem dedicou anos de estudo e trabalho para produzi-los.

Assim como a viúva do Evangelho deu tudo o que tinha, muitos escritores maranhenses também entregam à Biblioteca Pública exemplares que lhes custaram meses — às vezes anos — de trabalho e investimento. A diferença é que, no episódio bíblico, aquela oferta possuía um sentido religioso; aqui, a doação acaba suprindo uma responsabilidade que deveria ser do Estado. Bibliotecas públicas existem para preservar livros; governos existem para garantir que eles cheguem às estantes por meio de políticas públicas, e não pela renúncia de quem os escreveu.


* Jáder Cavalcante é professor, revisor de textos e escritor de literatura pedagógica (português e inglês) e ficcional. É membro fundador da Academia Literária do Maranhão (ALMA), onde ocupa a cadeira 21, patroneada por Aluísio Azevedo.

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