sexta-feira, 5 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
ORLEANS BRANDÃO É JULGADO PELO SOBRENOME -DIZ HILDON TOCHA

O deputado Hildo Rocha (MDB) utilizou a Tribuna da Câmara Federal para comentar sobre as eleições do Maranhão.
O parlamentar lembrou que a maioria dos pré-candidatos ao Governo do Maranhão possuem parentes políticos, mas ressaltou que apenas Orleans Brandão (MDB) tem sido julgado pelo sobrenome.
“Hoje no Maranhão existem quatro pré-candidatos com grandes chances de vencer a eleição para o governo. Três são de famílias políticas, entre eles o Orleans Brnadão – com dois tios que são políticos, um prefeito e o governador. O Eduardo Braide (MDB) tem pai político – deputado estadual, diversos mandatos, foi presidente da Assembleia, foi secretário de estado. O outro, Felipe Camarão (PT), é filho de um político também, que foi vereador de São Luís e secretário de Estado. Só um não tem parentes na política, que é o Lahesio Bonfim”, destacou Hildo Rocha.
O deputado disse ainda que o “único defeito” que conseguiram colocar no pré-candidato é o fato dele ser sobrinho do atual governador Carlos Brandão.
“O que eu vejo é que culpam Orleans apenas por ser parente do Carlos Brandão. Único defeito que colocam nele é ser sobrinho do governador Brandão. Não chamam de ladrão, por que foi secretário e não roubou. Não chamam de incompetente, por que ele cumpriu a missão que foi incubido na secretaria. Não chamam de prepotente por que é homem de diálogo. Portanto, o único defeito deste jovem, que é brilhante, competente, habilidoso, é ser sobrinho do governador Carlos Brandão”, finalizou.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA SUSPENDE LEI DE SAO LUIS QUE PROIBE MULHERES TRANS DE USAREM BANHEIROS FEMININOS
O Tribunal de Justiça do Maranhão, através do Órgão Especial, decidiu suspender a Lei nº 7.792/2025, de autoria do vereador Marquinhos e que proibia mulheres trans de utilizarem banheiros femininos em São Luís-MA. A decisão atende pleito da Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE/MA).
A lei foi promulgada pela Câmara de São Luís em 13 de maio, após o projeto de lei ter sido aprovado em dois turnos pelos vereadores da Capital Maranhense, mas não ter sido sancionado pelo Executivo.
A Defensoria Pública sustentou que a lei viola princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da igualdade e da não discriminação, além de contrariar entendimentos já firmados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre identidade de gênero e proteção da população trans.
A suspensão determinada pelo Órgão Especial impede a aplicação da lei até o julgamento definitivo da ADI em Plenário no Tribunal de Justiça do Maranhão. Com a decisão, mulheres trans voltam a ter garantido o acesso aos banheiros femininos na capital maranhense
RELIGIAO -CORPUS CHRISTI
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Corpus Christi, também chamada de Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo ou Corpus Domini, e generalizada em Portugal como Corpo de Deus, é uma celebração litúrgica da Igreja Católica dedicada à adoração e à veneração da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. A solenidade ocorre na quinta-feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade, que sucede o Domingo de Pentecostes, embora em alguns países sua celebração seja transferida para o domingo seguinte. Também é observada, em diferentes graus, por algumas comunidades da Comunhão Anglicana.
Festa do Preciosíssimo Sangue
Instituída no século XIII, a festa tem como finalidade proclamar publicamente a fé na presença de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados, bem como promover a devoção ao Santíssimo Sacramento. Por esse motivo, ocupa lugar de destaque no calendário litúrgico católico e é classificada como uma solenidade. Nos países onde a conferência episcopal assim determina, constitui também um dia santo de guarda, com a obrigação de participação na Santa Missa.
Uma das características mais marcantes da celebração é a procissão eucarística pelas vias públicas, durante a qual o Santíssimo Sacramento é conduzido solenemente em ostensório. Para os católicos, essa manifestação pública expressa a adoração devida a Cristo presente na Eucaristia e o testemunho da fé diante da sociedade. O Código de Direito Canônico (cânone 944) recomenda que o bispo diocesano promova tais procissões, especialmente na solenidade de Corpus Christi, como sinal público de veneração ao Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo.
Em diversas regiões do mundo, particularmente nos países de tradição católica, a celebração é acompanhada por costumes populares, entre os quais se destacam os tapetes ornamentais confeccionados nas ruas para a passagem da procissão, reunindo elementos de arte, devoção e identidade cultural.
POESIA - O POETA DA ROÇA- PATATIVA DO ASSARÉ
O poeta da roça
:
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mio.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.
Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça,
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sôdade que mora em meu peito.
Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.
Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.
Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte
Patativa do Assaré
quarta-feira, 3 de junho de 2026
PRESIDENTE DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA AUTORIZA EMPRESTIMO DO GOVERNO DE R$ 1,3 BILHÃO
Coube ao próprio presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, desembargador Ricardo Duailibe, autorizar o Governo do Maranhão a retomar os procedimentos para contratação de um empréstimo de R$ 1,3 bilhão junto ao Banco do Brasil.
O processo estava suspenso por decisão da Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, em ação popular movida pelo advogado Rodrigo Lago. A liminar impedia qualquer ato ligado à contratação, além da liberação e uso dos recursos.
No entanto, após a decisão do presidente do TJ, Ricardo Dauilibe, atendendo pedido da Procuradoria-Geral do Estado (PGE-MA), o Governo do Maranhão, caso queira, pode continuar com as tratativas para a realização do empréstimo prova evidente de ilegalidade.
Na decisão, o magistrado entendeu que a manutenção da liminar poderia causar grave lesão à ordem administrativa e à economia pública, comprometendo investimentos previstos em obras de infraestrutura e recuperação de rodovias estaduais. Segundo a decisão, a paralisação dos projetos poderia gerar aumento de custos, necessidade de retrabalho e desperdício de recursos já aplicados. Além disso, ressaltou ainda que a intervenção judicial em políticas públicas deve observar limites constitucionais, especialmente quando há impacto direto sobre o planejamento financeiro e a execução de obras consideradas estratégicas para o Estado.
SELETIVIDADE E HIPOCRISIA DE OPOSICIONISTAS NA MIRA DO DEPUTADO YGLESIO MOISES
O deputado estadual Dr. Yglésio (PRD) fez críticas severas ao que chamou de “seletividade e hipocrisia” de parlamentares dinistas por criticarem o governo hoje, mas terem silenciado quando foi conveniente e recebiam benesses do Estado.
“Não vi nenhum ânimo de revolta quando se beneficiaram”, afirmou o parlamentar sobre o posicionamento dos dinistas.
Um dos episódios citados por Yglésio como esquecido pelos dinistas foi a “entrega” de obra incompleta, na gestão do ex-governador Flávio Dino, da ponte entre os municípios de Central e Bequimão, sem a finalização da cabeceira e sem a estrada concluída.
“São uns tigrões para falar o que querem, para arrotar a pureza, dizer que agora nada presta. Mas, são uns pequeninos ratinhos quando era aqui o benefício que colhiam. É essa hipocrisia”, afirmou.
O deputado do PRD também alertou sobre os dinistas estarem no comando de “brotos oligárquicos” e não oferecerem nada de novo na política do Maranhão.
“Falam de oligarquia, mas quem foi indicado ao cargo de suplente de senador foi a esposa; o outro tinha irmão na Seduc; o outro fez o partido e colocou o pai na direção”, detalhou.
Dr . Yglésio também fez críticas ao comportamento dos dinistas por sempre saírem do plenário durante seus discursos. E argumentou: “Sabe por que não tem oposicionista no plenário? Porque eles sabem que lá no meu gabinete está tudo comprovado”, concluiu.
LULA E FUFUCA - COMPETÊNCIA RECONHECIDA
A recente declaração do presidente nacional do PT, Edinho Silva, quando esteve no Maranhão, sobre a relação entre o presidente Lula e o seu ex-ministro do Esporte, deputado federal André Fufuca, foi recebida com o peso de uma grande chancela.
Ao jogar luz sobre o “carinho” mútuo e o excelente “serviço prestado” pelo ministro, o presidente nacional do PT não fez apenas um afago protocolar de gestão, carimbou Fufuca como um dos nomes de extrema confiança do Palácio do Planalto.
A avaliação nos bastidores é de que Fufuca conseguiu o que poucos conseguem no Centrão: furar a bolha do pragmatismo e conquistar o coração do presidente pela competência e lealdade nas entregas. Esse prestígio com Lula eleva o ministro a outro patamar e consolida de vez suas condições para disputar uma vaga ao Senado pelo Maranhão.
A mensagem de Edinho Silva deixa claro: Fufuca entregou resultados no ministério e agora está mais do que credenciado a voos maiores em Brasília
CONTO - O PIROTÉCNICO ZACARIAS - MURILO RUBIÃO
O PIROTÉCNICO ZACARIAS
E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d’alva. (Jó, xi, 17).
Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?
A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo — o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado.
A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho 15 compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Presente!
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.
— “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Não está?
— Tire a mão da boca, Zacarias!
— Quantos são os continentes?
— E a Oceania?
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam dona Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.
— Simplício Santana de Alvarenga!
— Meninos, amai a verdade!
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu.
Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio.
O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso, com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens.
Havia silêncio, mais sombras que silêncio, porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade, dosando a gíria.
Também o ambiente repousava na mesma calma e o cadáver — o meu ensanguentado cadáver — não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.
A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente enganados, como explicarei mais tarde.)
Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado.
Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Esse argumento não me ocorreu no momento.)
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso.
Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma ideia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:
— Alto lá! Também quero ser ouvido.
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me.
Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, o que me prontifiquei a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.
Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito nítidas. A bebida, que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos. E a ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico.
Ao clarear o dia, saí da semiletargia em que me encontrava. Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às sensações longínquas do meu delírio policrômico.)
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao colorido das paisagens estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia, desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo.
Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência.
Tinha ainda que lutar contra o desatino que, às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento.
Fiz várias tentativas para estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real fora a minha morte.
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto.
Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados.
Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos.
Murilo Rubião














