PARA BETO EHONG NÃO JOGAR A TOALHA NA ESCURIDÃO: Cultura do Maranhão vira moeda de troca política e abandona quem de fato faz arte
O Maranhão tem uma cultura que atravessa séculos, resiste à pobreza, à falta de incentivo e ao esquecimento. Mas não resiste ao pior inimigo: o descaso institucional.
A pasta da cultura no estado deixou há muito tempo de ser um instrumento de política pública. Virou prêmio. Virou loteamento. Virou moeda de troca para pagar favores, acomodar aliados e atender aos caprichos de quem manda.
Não se trata de exagero. É o retrato que se repete a cada gestão: a Secretaria de Cultura é entregue não a quem entende de cultura, mas a quem entende de campanha. O critério não é competência técnica, compromisso democrático ou trajetória com os fazedores de cultura. O critério é fidelidade política.
O assalto às aspirações populares
Enquanto mestres do Bumba Meu Boi, brincantes de tambor de crioula, produtores independentes, artistas visuais e grupos de periferia amargam editais atrasados, espaços fechados e promessas não cumpridas, a pasta segue sendo usada para "política do pão com ovo".
É o velho toma-lá-dá-cá travestido de gestão. Nomeia-se amigo. Destina-se verba para evento de apoiador. Fecha-se museu para abrir restaurante. Desmonta-se equipamento cultural para entregar a hotelaria. Tudo em nome de um "desenvolvimento" que não inclui o povo que produz cultura todos os dias.
O resultado é um verdadeiro assalto aos anseios legítimos da população. Sequestra-se o direito ao acesso, à memória e à identidade. E se entrega, em troca, um cenário onde quem faz cultura precisa mendigar o que deveria ser garantido por dever do Estado.
O desabafo que escancara a ferida
Essa falência moral e administrativa ganhou voz na última semana no desabafo público do produtor cultural Beto Ehong:
"A gente olha para as caras, as ações e o histórico de quem hoje domina a pasta oficial da cultura e sabe que não tem como esperar algo decente. São boçais, incompetentes, corruptos, insensíveis. E não adianta MP, imprensa, conselhos. Só uma ruptura total muda esse cenário. É o triste retrato da nossa realidade. Eu tô jogando a toalha."
A frase dói porque é verdadeira. Dói porque vem de quem está na trincheira há anos. Dói porque revela o cansaço de quem luta contra um sistema que trata a cultura como despesa e não como investimento civilizatório.
Beto, em nome de todos nós que ainda acreditamos: não jogue a toalha.
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| Beto Ehong |
A escuridão só vence quando a gente apaga a própria luz. E você, assim como tantos outros fazedores de cultura do Maranhão, é luz.
Democracia sem cultura é fachada
Uma sociedade democrática não se sustenta apenas com asfalto e ponte. Se sustenta com memória, com arte, com pensamento crítico, com espaço para a diferença. Quando o poder público transforma a cultura em balcão de negócios, ele ataca diretamente os valores éticos e profissionais que deveriam reger a gestão pública.
O que vemos é a negação do pacto democrático. É a transformação da Secretaria de Cultura em cabide de emprego e em caixa para beneficiar os vencedores das chapas eleitorais. E quem paga a conta? O povo. O artista. O estudante. O brincante.
O Maranhão não precisa de gestores que tratam cultura como favor. Precisa de gestores que a tratem como direito.
Precisamos de ruptura, sim. Mas ruptura para dentro: com conselhos atuantes, com orçamento protegido, com política de Estado e não de governo. Com escuta real aos que vivem a cultura no chão.
Beto, volta pra luta. A toalha não pode ser jogada agora. Porque se você e outros desistirem, quem ganha são exatamente os boçais e incompetentes que você denunciou.
E o Maranhão merece mais do que isso. Merece respeito.
*Euclides Moreira Neto é Ph.D em Comunicação, Linguagem e Cultura pela UNAMA e professor do Curso de Jornalismo da UFMA.



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