“SIM, SENHORA”: a MÚSICA, o amor, o tempo e a solidão na poesia de Zé Lopes.
Há canções que apenas passam pelos ouvidos. Outras permanecem. “Sim, Senhora”, do cantor e compositor Zé Lopes, pertence a essa segunda categoria: é uma música que, pela força de sua letra e pela delicadeza de sua melodia, transforma uma história de amor em reflexão sobre o tempo, a solidão e a necessidade humana de amar.
A canção nos apresenta uma senhora envolvida pelo silêncio de seu próprio mundo. Há nela a solidão, o vazio e a consciência de que o tempo não interrompe sua marcha para esperar os amantes. O amor existe, mas parece lutar contra aquilo que ninguém consegue vencer: os dias que passam, as distâncias que se formam e o medo de amar quando a vida já deixou suas marcas.
Zé Lopes constrói imagens de grande beleza poética. Enquanto o rio corre no quintal do poeta, o mar balança perto da calçada da senhora amada. Rio e mar tornam-se, assim, mais do que elementos da paisagem: são metáforas do movimento da vida. Tudo corre, tudo balança, tudo passa. O tempo não para. E, no entanto, o poeta permanece preso àquela mulher, aos seus beijos e à vontade quase indomável de viver perto dela.
A senhora dorme infeliz e acorda diante de um vazio. O poeta, por sua vez, também é atingido pela passagem do tempo. Ambos parecem habitar margens diferentes de uma mesma saudade. Entre eles existe o amor, mas também existe o medo; existe o desejo, mas também a distância; existe a lembrança, mas sobretudo a necessidade de ainda viver aquilo que talvez o tempo tenha tentado impedir.
É nesse ponto que “Sim, Senhora” alcança sua maior força: a canção não fala apenas de um amor vivido, mas de um amor que resiste. O poeta não consegue dominar a própria vontade de estar perto da mulher amada. Ele precisa dos seus beijos como quem precisa de ar. O beijo deixa de ser apenas gesto de paixão e se transforma em condição de sobrevivência.
A beleza da letra se completa na melodia. Palavra e música caminham juntas, dando à canção uma atmosfera de ternura, melancolia e desejo. A melodia não apenas acompanha os versos: ela amplia aquilo que as palavras dizem e permite que o ouvinte sinta o que talvez não possa ser inteiramente explicado.
Desde o início de sua trajetória artística, marcada pela participação em festivais de música no começo dos anos 80, em Bacabal, Zé Lopes construiu uma vida dedicada à palavra cantada. E “Sim, Senhora” pode ser considerada uma das mais belas canções de seu percurso como cantor e compositor. Já ouvi essa música dezenas de vezes. Nela, encontramos a maturidade de quem compreendeu que o amor não é apenas encontro. Às vezes, é espera. Às vezes, é ausência. Às vezes, é medo. E, muitas vezes, é a insistência humana de continuar amando mesmo quando o tempo parece dizer que já passou.
Mas o poeta responde ao tempo.
Sim, senhora.
Erivelton Lago
Advogado criminalista, cantor, compositor, poeta e escritor
***
SIM SENHORA
Zé Lopes
Sim senhora
Por que acreditar
No que não fiz
Por que dormir assim
Tão infeliz
E acordar nesse vazio
Sim senhora
É que o tempo passa
Pra nós dois
E a solidão que vem depois
Esbarra no silêncio
E no seu medo
De se acreditar
Senhora dona
Dos acordes da canção
Teus olhos brilham
Minha dor em tuas mãos
Enquanto um rio corre
Em meu quintal
O mar balança
Perto da tua calçada
Areia Branca
Entranha em teu cabelo
Pele, pelos
Meu desejo a viajar
Se não consigo
Dominar minhas vontades
Morro de saudades de você
Senhora
Eu preciso dos teus beijos
Pra sobreviver.
https://youtu.be/kqYQm8b7WpA?is=C93HJKgFrmQNImFK
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