segunda-feira, 27 de julho de 2026

POESIA - DESTRUIÇÃO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Destruição

Os amantes se amam cruelmente

e com se amarem tanto não se veem.

Um se beija no outro, refletido.

Dois amantes que são? Dois inimigos.


Amantes são meninos estragados

pelo mimo de amar: e não percebem

quanto se pulverizam no enlaçar-se,

e como o que era mundo volve a nada.


Nada, ninguém. Amor, puro fantasma

que os passeia de leve, assim a cobra

se imprime na lembrança de seu trilho.


E eles quedam mordidos para sempre.

Deixaram de existir, mas o existido

continua a doer eternamente.


Carlos Drummond de Andrade

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