CENAS DO COTIDIANO LXVIII
(... delirantes delírios)
Há muito e muito tempo, vivencio a boa prática política, desde que, "inda quirança", comecei a acompanhar a responsabilidade e o empenho do meu avô Antônio do Rosário e da quase totalidade de meus conterrâneos, para quem a palavra valia mais que qualquer nota promissória e para quem "o ganhar ou o perder" eram apenas o (con)curso de uma disputa, pautada em honra e respeito
e, sem qualquer nuance de paixão política, "no meu tempo de minino, quando um canidato perdia a inleiçao, pegava uma carona no rabo dum fuguete", saído das mãos do mestre Severino, geralmente lançado do Obelisco. E, se não houvesse, o produto do citado mestre, ia, assim mesmo, com o trovejante e inconfundível rojão, que parecia querer rasgar o céu, e que só Paulo Castro possuía. Um trovão, verdadeiramente, assustador, "sem lastro de feiques nius"
e, verdadeiramente, passado o cômputo dos votos e a ressaca eleitoral, tudo era festa. E a urbanidade se fazia presente, como realmente deve acontecer com pessoas de bom senso e conscientes
e, nestes tempos da informação, tenebrosos e modernosos, a viagem se dá em jatinho, na calada da noite, cercada de mirabolantes ameaças
e o que mais me preocupa, de verdade, é o "louco delírio", que me estarrece. Afinal, recebi um vídeo, em que uma senhora, em alto e bom som, conclama, com forte convicção, que "um OVNI" já chegou para trocar "as mentá faculdade" de dois adversários e que, a partir de janeiro, iremos ter a irreversível comutação de personalidades. Isso no mínimo é passível de um olhar clínico. Sério e científico ou, então, me convenço de que sou eu quem estou delirando. E, como bem nos apresentou Machado de Assis, me convenço de que eu quem sou o alienado, forte candidato à Casa de Orates
e, sem delírio algum, a minha preocupação se faz presente. E, de verdade, não percebo boas perspectivas para nossa nação, antes tão cordata e tão humana
e, num absurdo delírio, até alguns empresários quebram a lógica do mercado e da cidadania, desligando o trabalhador, que se recusou a votar no candidato daquele, e, num flagrante de desrespeito, até o cliente, pela mesma prática democrática. E essa postura, além de ser irracional, não prenuncia um futuro sustentado na harmonia, que tanto marcou, e que deverá marcar, a nossa convivência. Será que agora só nos resta trazer, na testa, o selo de nossas escolhas?! Barbaridade!!!
e, ante tamanha barbárie, não me resta muito argumento. "E, cum isso, é mió pô a língoa num saco, pra num sê malcriado i parecê um poquinho civilizado, i i durmi, qui tenho mais lucro"
Inté maise!
Zé Carlos Gonçalves


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