DO TEJO AO DOURO
Uma viagem de descobertas, histórias, vinhos, encantos e saudades.
Há viagens que fazemos para conhecer lugares. Outras, porém, parecem ter sido cuidadosamente escritas pelo destino para nos proporcionar algo muito maior: a alegria de viver, o prazer de descobrir novos horizontes e o privilégio de transformar momentos passageiros em lembranças eternas.
Nossa viagem por Portugal foi exatamente assim.
Foram dias de descobertas, encantamentos, emoções, conversas intermináveis, gargalhadas espontâneas, brindes generosos e, sobretudo, da deliciosa convivência com amigos queridos.
Percorremos cidades que parecem ter feito um pacto com o tempo para preservar suas histórias, seus monumentos, suas tradições e aquela maneira tão peculiar de transformar a saudade em poesia.
De Lisboa ao Porto, do Tejo ao Douro, encontramos um país onde o passado permanece vivo, a gastronomia é uma celebração cotidiana e a música parece conhecer os sentimentos que nem sempre conseguimos traduzir em palavras.
E que bela viagem!
LISBOA — ONDE A HISTÓRIA ENCONTRA O TEJO
Lisboa, nossa porta de entrada, recebeu-nos com sua elegância secular, suas ruas de pedra, seus tradicionais elétricos, suas ladeiras e seus monumentos que parecem guardar os segredos de tantas gerações.
Às margens do Tejo, contemplamos uma cidade que respira história, onde antigos navegadores deixaram suas marcas e poetas encontraram inspiração para cantar o amor, a distância e a saudade.
Belém, com sua torre emblemática e o imponente Mosteiro dos Jerónimos, recorda os tempos em que Portugal se lançou ao desconhecido, transformando a coragem dos navegadores numa das páginas mais extraordinárias de sua história.
Caminhar pelas ruas de Alfama, admirar a Praça do Comércio, contemplar a cidade dos seus miradouros e ouvir, ao longe, os acordes de uma guitarra portuguesa é perceber que Lisboa possui uma alma própria.
Uma alma que mistura grandeza e simplicidade, alegria e melancolia, tradição e modernidade.
Lisboa nos ensinou que algumas cidades não precisam ser inteiramente compreendidas.
Basta senti-las.
SINTRA — ONDE O ROMANTISMO GANHOU MORADA
Sintra surgiu como um cenário de sonhos.
Seus palácios, castelos, jardins e montanhas parecem ter sido retirados das páginas de um romance medieval.
A beleza exuberante do Palácio da Pena, o mistério da Quinta da Regaleira e o encanto de suas paisagens fazem daquela cidade um lugar onde a imaginação ganha asas e o romantismo encontra morada.
Há algo de misterioso em Sintra.
Talvez seja a neblina que frequentemente envolve suas montanhas. Talvez sejam os caminhos escondidos entre árvores centenárias ou a impressão de que, a qualquer momento, algum personagem de um antigo romance poderá surgir diante de nós.
Ali, até os menos sentimentais do grupo devem ter experimentado algum impulso poético.
Se não sentiram, certamente estavam distraídos procurando o próximo restaurante!
ÓBIDOS — UMA CIDADE ESCRITA EM LIVROS
Óbidos foi uma daquelas surpresas que nos fazem acreditar que algumas cidades foram construídas não apenas com pedras, mas também com poesia.
Cercada por muralhas medievais, com suas ruas estreitas, casas brancas adornadas de flores e detalhes coloridos, Óbidos parece conservar o privilégio de viver num tempo diferente do nosso.
Caminhar por suas vielas é como folhear um antigo livro de histórias, no qual cada esquina revela uma nova página e cada janela parece guardar um romance que ainda não terminou.
Mas Óbidos nos reservava uma particularidade extraordinária: sua relação apaixonada com os livros.
Reconhecida internacionalmente como Vila Literária, a pequena cidade abriga uma surpreendente concentração de livrarias e espaços dedicados à leitura.
E que descoberta fascinante encontrar, no interior da antiga Igreja de São Tiago, uma livraria!
Onde outrora predominavam os rituais religiosos, hoje repousam milhares de livros, numa convivência singular entre arquitetura sagrada, literatura e conhecimento.
Uma igreja transformada em templo dos livros!
Que bela maneira de preservar o passado, oferecendo-lhe uma nova missão cultural.
Para quem ama a literatura, Óbidos não é apenas uma cidade a visitar. É um lugar onde sentimos vontade de permanecer, abrir um livro e deixar que o tempo passe sem pedir licença.
E, naturalmente, não poderíamos deixar aquela vila sem conhecer sua famosa ginjinha, servida em pequenos copinhos de chocolate.
Uma combinação tão agradável que alguns dos nossos companheiros demonstraram imediato interesse em aprofundar os estudos sobre a bebida!
NAZARÉ — A GRANDEZA DO ATLÂNTICO
Nazaré nos apresentou a força e a grandiosidade do Atlântico.
Suas ondas gigantes, a tradição dos pescadores, as mulheres de sete saias e a beleza de suas praias revelam um Portugal profundamente ligado ao mar.
Do alto do Sítio, diante daquela imensidão azul, sentimos a extraordinária mistura de admiração e respeito que a natureza desperta.
É impressionante imaginar que aquelas águas, aparentemente tranquilas em determinados momentos, possam produzir algumas das maiores ondas já surfadas no mundo.
Nazaré possui essa peculiaridade: enquanto suas ondas desafiam os mais corajosos, suas tradições acolhem os visitantes com a simplicidade e a autenticidade de seu povo.
Ali compreendemos que o mar, assim como a vida, pode ser generoso e imprevisível, sereno e assustador, mas nunca deixa de despertar nossa admiração.
BATALHA — A HISTÓRIA ESCULPIDA EM PEDRA
Batalha apresentou-nos um Portugal monumental, solene e profundamente orgulhoso de sua história.
Ali encontramos o magnífico Mosteiro de Santa Maria da Vitória, conhecido como Mosteiro da Batalha, uma das mais extraordinárias expressões da arquitetura gótica portuguesa.
Erguido para celebrar a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota, aquele monumento impressiona pela imponência de suas estruturas, pela delicadeza dos detalhes esculpidos em pedra e pela capacidade de transformar um acontecimento histórico numa obra de arte que atravessa os séculos.
Suas capelas, seus claustros e as famosas Capelas Imperfeitas, que permanecem inacabadas, despertam uma reflexão curiosa:
Nem tudo o que é belo precisa estar concluído.
Há obras que, mesmo incompletas, alcançam a eternidade.
Diante daquela grandiosidade, pensei em quantas gerações passaram por ali, quantas mãos trabalharam naquelas pedras e quantos sonhos humanos sobreviveram graças à arte e à memória.
Batalha nos ensinou que a história não vive apenas nos livros.
Às vezes, ela se ergue diante de nós, silenciosa, majestosa e impossível de ignorar.
FÁTIMA — UMA PAUSA PARA A ALMA
Fátima nos proporcionou uma experiência diferente, marcada pelo silêncio, pela fé e pela espiritualidade.
Diante do Santuário, encontramos um momento para agradecer a Deus pelo dom da vida, pela saúde, pela família, pelos amigos e por tantas bênçãos que, muitas vezes, a correria cotidiana não nos permite reconhecer.
Naquele ambiente de devoção, observando peregrinos de tantas nacionalidades, compreendemos como a fé consegue aproximar pessoas que não compartilham o mesmo idioma, mas carregam esperanças semelhantes.
Cada oração parecia guardar uma história.
Cada olhar traduzia um pedido, uma gratidão ou uma saudade.
Foi uma pausa para a alma.
Um daqueles lugares onde as palavras se tornam pequenas diante da grandeza dos sentimentos.
E saímos dali com uma certeza: viajar também é encontrar oportunidades para olhar para dentro de nós mesmos.
COIMBRA — ONDE A MÚSICA SE TRANSFORMA EM SAUDADE
Coimbra, ah, Coimbra!
Cidade dos estudantes, dos doutores, das capas negras e das serenatas que atravessam gerações.
Sua universidade secular, com a majestosa Biblioteca Joanina, é um verdadeiro templo do conhecimento, enquanto suas ruas antigas parecem guardar histórias de juventude, sonhos e paixões.
Às margens do Mondego, recordamos o amor de Pedro e Inês de Castro, uma das histórias mais comoventes da tradição portuguesa.
Um amor que desafiou convenções, enfrentou interesses políticos e terminou tragicamente com a morte de Inês.
A tradição conta que Pedro, inconformado com a perda da mulher amada, jamais permitiu que sua memória fosse esquecida.
A história e a lenda acabaram se entrelaçando, eternizando um sentimento que continua inspirando poetas e apaixonados.
Talvez por isso Coimbra pareça guardar, entre suas pedras e suas canções, uma compreensão muito particular do amor e da saudade.
Mas Coimbra me reservava uma experiência especialmente emocionante, que certamente ocupará um lugar privilegiado entre as lembranças desta viagem.
Tive a imensa alegria de assistir a um concerto de Fado de Coimbra.
E foi ali, ouvindo aquelas vozes carregadas de sentimento e o som inconfundível da guitarra portuguesa, que descobri algo que até então desconhecia profundamente: a diferença entre o fado de Coimbra e o tradicional fado de Lisboa.
O fado lisboeta nasce da alma popular, das vielas, das tabernas e dos bairros antigos.
É visceral, dramático, apaixonado.
Canta amores perdidos, destinos contrariados e saudades que parecem não encontrar consolo.
Já o Fado de Coimbra possui outra atmosfera.
Profundamente ligado à tradição universitária, é marcado pelas serenatas, pela poesia, pelo romantismo e por uma delicada melancolia.
Tradicionalmente interpretado por homens de capa negra, traz consigo a emoção das despedidas estudantis, dos amores juvenis e da saudade dos anos que não regressam.
Enquanto o fado de Lisboa parece frequentemente cantar as dores da vida, o de Coimbra muitas vezes canta a beleza daquilo que a vida nos deu e que o tempo levou.
E essa diferença me encantou profundamente.
Como músico, compositor e apaixonado pela poesia, senti naquele concerto uma emoção difícil de traduzir.
Não estava apenas ouvindo canções.
Estava conhecendo uma tradição na qual a música, a literatura e a memória se abraçam.
Houve momentos em que me pareceu que aquelas guitarras não tocavam apenas suas cordas, mas também algumas cordas escondidas dentro de nós.
Saí daquele concerto com a agradável sensação de ter descoberto um novo universo musical e com a certeza de que Coimbra não havia conquistado apenas minha admiração: havia conquistado também um pedaço do meu coração.
Coimbra possui essa beleza singular: é jovem pela alma universitária, antiga pela história e eternamente romântica pelas canções que ecoam em suas ruas.
AVEIRO — A DELICADEZA DOS CANAIS
Aveiro nos recebeu com a delicadeza de seus canais, seus moliceiros coloridos, suas construções elegantes e seus tradicionais ovos-moles.
Conhecida como a Veneza portuguesa, a cidade possui uma beleza própria, mais discreta, mas igualmente encantadora.
Seus barcos coloridos deslizam pelas águas, enquanto as fachadas revestidas de azulejos e os edifícios de inspiração Arte Nova conferem às ruas uma personalidade singular.
Uma cidade acolhedora, onde a água parece passear tranquilamente entre as casas e o tempo parece caminhar sem pressa.
Foi mais uma agradável descoberta nesse mosaico de encantos portugueses.
PORTO E VILA NOVA DE GAIA — DUAS CIDADES, UM MESMO RIO
E então chegamos ao Porto. Um
Uma cidade de personalidade marcante, onde a história se mistura aos sabores, às tradições e à beleza do majestoso Douro.
Suas pontes imponentes, a encantadora Ribeira, suas igrejas revestidas de azulejos, suas ruas históricas e a generosidade de sua gastronomia fizeram do Porto um dos capítulos mais saborosos da nossa jornada.
O Porto não parece preocupado em seduzir o visitante.
Simplesmente se apresenta como é: autêntico, histórico, acolhedor e cheio de personalidade.
E, do outro lado do Douro, encontramos Vila Nova de Gaia, inseparável do Porto pela geografia, pela história e, sobretudo, pelo vinho.
Gaia nos encantou com sua orla movimentada, suas paisagens privilegiadas e suas tradicionais caves, onde repousam alguns dos vinhos mais famosos do mundo.
Dali, contemplar o Porto, com suas construções antigas descendo pelas encostas até encontrar o rio, é assistir a um espetáculo de rara beleza.
As duas cidades parecem conversar permanentemente através das águas do Douro, unidas por pontes que são muito mais do que obras de engenharia: são verdadeiros símbolos de uma história compartilhada.
E foi justamente em Gaia que compreendi um pouco melhor a importância do vinho para a cultura portuguesa.
Aquelas caves não guardam apenas barris.
Guardam tradições familiares, conhecimentos transmitidos por gerações e uma relação quase afetiva entre o homem, a terra e o tempo.
O DOURO — UMA PAISAGEM QUE PARECE PINTADA À MÃO
Mas Portugal ainda nos reservava um dos cenários mais extraordinários de toda a viagem: o Vale do Douro.
Ali, a natureza parece ter decidido reunir seus mais belos recursos para criar uma paisagem de rara poesia.
Montanhas cobertas de vinhedos, encostas cuidadosamente desenhadas pela mão humana e um rio que serpenteia serenamente entre elas compõem um espetáculo difícil de descrever.
E tivemos o privilégio de realizar um inesquecível passeio de barco pelas águas do Douro.
Enquanto nossa embarcação avançava, descortinavam-se paisagens de uma beleza quase inacreditável.
Nas encostas, inúmeras vinícolas e quintas tradicionais exibiam seus vinhedos cuidadosamente organizados em socalcos, formando desenhos harmoniosos que acompanhavam cada curva das montanhas.
Entre aquelas paisagens, surgiam antigas construções, pequenas povoações e vestígios de um passado que parecia observar silenciosamente a passagem do tempo.
E havia ainda os impressionantes desfiladeiros, com suas encostas abruptas, lembrando, em determinados trechos, aqueles fiordes majestosos que costumamos admirar em fotografias de países distantes.
Paisagens de cair o queixo!
O rio serpenteava entre as montanhas, revelando a cada curva um cenário ainda mais surpreendente.
Por alguns instantes, tive a sensação de que estávamos navegando dentro de uma pintura, daquelas que um artista levaria anos tentando reproduzir e que a natureza, generosamente, havia criado sem esforço aparente.
Mas o mais bonito daquele passeio não estava apenas nas paisagens.
Estava também na companhia, nos comentários de admiração, nas fotografias, nas brincadeiras e nos brindes que acompanhavam nossa contemplação.
Ali compreendi que algumas das maiores riquezas da vida não podem ser compradas nem guardadas.
Só podem ser vividas.
OS VINHOS — UMA DESCOBERTA INESPERADA
Preciso registrar uma descoberta pessoal.
Confesso que nunca fui um grande apreciador de vinhos.
Sempre admirei sua tradição, mas não havia desenvolvido a sensibilidade necessária para degustá-los com entusiasmo.
Entretanto, Portugal começou a modificar essa relação.
Entre tintos, brancos e o tradicional vinho do Porto, aprendi a observar aromas, apreciar sabores e compreender que degustar um vinho é também conhecer a história de uma terra, sua cultura e suas tradições.
Descobri, sobretudo, que o melhor vinho nem sempre é aquele de maior prestígio, mas aquele que compartilhamos com pessoas especiais, em momentos que gostaríamos de prolongar.
Não voltei propriamente um especialista, mas certamente um aprendiz mais interessado!
E seria uma injustiça histórica deixar de registrar o comportamento de alguns integrantes da nossa comitiva.
Havia entre nós determinados companheiros aparentemente comprometidos com a nobre e dificílima missão de acabar com os estoques de bebidas das terras lusitanas!
Era impressionante o espírito de sacrifício daqueles abnegados!
Enquanto alguns contemplavam monumentos, admiravam paisagens e estudavam a história portuguesa, outros demonstravam um interesse quase científico pelo patrimônio líquido nacional.
Não descansavam diante de uma adega, não recuavam perante uma garrafa e jamais abandonavam um brinde pela metade!
Suspeito, inclusive, que algumas vinícolas tenham precisado rever seus planejamentos de produção após a passagem da nossa expedição.
Felizmente, Portugal possui uma tradição vinícola suficientemente robusta para resistir a tamanho entusiasmo.
Caso contrário, poderíamos ter provocado uma crise de abastecimento e, quem sabe, até um incidente diplomático entre as duas nações!
Mas foram justamente essas brincadeiras, os brindes e as gargalhadas que deram à viagem um sabor tão especial.
Porque a amizade também se alimenta dessas pequenas irreverências que, com o passar dos anos, transformam-se nas histórias mais divertidas de recordar.
A GASTRONOMIA — PORTUGAL TAMBÉM SE CONHECE À MESA
Ah, a culinária portuguesa!
Uma deliciosa combinação de tradição, simplicidade, generosidade e sabores que parecem ter sido aperfeiçoados ao longo de séculos.
E, naturalmente, o bacalhau ocupou lugar de honra em nossas mesas.
Descobrimos que os portugueses conseguiram transformar esse peixe numa verdadeira instituição nacional.
Assado, à Brás, com natas, à lagareiro ou preparado de tantas outras maneiras, o bacalhau parecia apresentar-se a cada refeição com uma nova personalidade.
E o mais curioso é que, por mais que o repetíssemos, sempre havia uma nova receita capaz de despertar nossa curiosidade.
Mas preciso fazer justiça a outro protagonista das nossas experiências gastronômicas:
O robalo!
Que peixe extraordinário!
Preparado com aquela simplicidade elegante que caracteriza a boa cozinha portuguesa, frequentemente grelhado, acompanhado de azeite, batatas e legumes, o robalo revelou sabores delicados, textura admirável e um frescor que dispensava qualquer sofisticação exagerada.
Às vezes, a grandeza de uma refeição está justamente na capacidade de respeitar o sabor natural dos seus ingredientes.
E entre bacalhaus, robalos, azeites generosos, doces conventuais, pastéis de nata e tantos outros encantos, fomos descobrindo que Portugal também sabe conquistar seus visitantes pelo paladar.
Aliás, nossas refeições mereceriam um capítulo à parte.
Mesas fartas, conversas demoradas, histórias repetidas com novos detalhes e aquela agradável sensação de que ninguém tinha pressa de levantar.
Porque, entre amigos, uma boa refeição nunca termina quando acaba a comida.
Termina quando se esgotam os assuntos, o que, convenhamos, raramente aconteceu com nosso grupo!
A AMIZADE — O MELHOR DESTINO DE QUALQUER VIAGEM
Ao longo daqueles dias, fui percebendo algo que talvez seja uma das grandes verdades da vida.
Por mais deslumbrantes que sejam as cidades, por mais imponentes que sejam os monumentos e por mais encantadoras que sejam as paisagens, nenhuma viagem alcança sua plenitude sem a alegria de uma boa companhia.
Foram os amigos que deram vida aos passeios, alegria às refeições, descontração aos jantares e significado aos brindes.
Foram eles que transformaram pequenos imprevistos em episódios engraçados, longos trajetos em conversas agradáveis e momentos aparentemente simples em lembranças preciosas.
Quantas risadas!
Quantas histórias!
Quantas conversas que começaram sem compromisso e terminaram deixando a sensação de que ainda havia tanto a dizer!
Quantos brindes à vida, à amizade e, em alguns casos, provavelmente à simples existência de mais uma garrafa disponível!
A verdade é que fomos felizes.
Felizes de uma maneira simples, espontânea, sem grandes exigências ou preocupações.
Felizes porque estávamos juntos.
E talvez seja essa uma das mais belas conquistas da maturidade: compreender que a verdadeira riqueza da vida não está na quantidade de lugares que conhecemos, mas na qualidade dos afetos que cultivamos pelo caminho.
Afinal, monumentos podem ser fotografados, paisagens podem ser revisitadas e restaurantes podem ser recomendados.
Mas a alegria de uma boa companhia não se reproduz por encomenda.
Ela simplesmente acontece.
E, quando acontece, transforma uma viagem em algo muito maior do que um deslocamento geográfico.
Transforma-a numa experiência humana.
A SAUDADE — AQUILO QUE O TEMPO NÃO NOS DEIXA TRAZER
Agora, quando nossa jornada chegou ao fim, surgiu inevitavelmente aquele sentimento que os portugueses souberam traduzir numa palavra tão pequena e, ao mesmo tempo, tão imensa:
SAUDADE!
Saudade das manhãs em que acordávamos curiosos para descobrir o próximo destino.
Saudade das paisagens, das ruas antigas, dos monumentos, das refeições demoradas e das mesas onde a conversa parecia nunca terminar.
Saudade das brincadeiras, das gargalhadas, dos brindes e até das discussões sobre qual seria o próximo passeio ou restaurante.
Saudade daquela agradável certeza de que, no dia seguinte, estaríamos novamente juntos, compartilhando novas experiências.
E é curioso perceber como o tempo se comporta.
Nos momentos difíceis, parece caminhar lentamente.
Mas, quando estamos felizes, adquire uma pressa quase cruel.
Não nos pergunta se queremos prolongar um abraço, repetir uma conversa, contemplar mais um pôr do sol ou brindar mais uma vez.
Simplesmente passa.
E, quando percebemos, aquilo que ontem era expectativa já se transformou em lembrança.
Regressamos com as malas cheias, os celulares repletos de fotografias, algumas calorias extras e o coração transbordando gratidão.
Mas trouxemos também algo que não pesa na bagagem e, paradoxalmente, é o que mais sentimos:
A saudade.
A saudade de um tempo que gostaríamos de guardar inteiro, mas que só podemos conservar em fragmentos de memória.
Talvez um dia regressemos a Portugal.
Talvez voltemos a contemplar o Tejo, caminhar pelas ruas de Lisboa, admirar os palácios de Sintra, percorrer as muralhas de Óbidos, rever o mar de Nazaré, contemplar a grandiosidade do Mosteiro da Batalha, rezar em Fátima, ouvir novamente o fado de Coimbra, passear pelos canais de Aveiro, admirar o Porto a partir de Gaia e navegar outra vez pelas águas do Douro.
Talvez possamos saborear novamente um bom bacalhau, um delicioso robalo e aqueles vinhos que aprendemos a apreciar com mais entusiasmo.
Talvez os nossos incansáveis apreciadores de vinho retornem para concluir aquela missão que, felizmente para a economia portuguesa, ficou inacabada!
Mas existe uma certeza que nenhuma viagem consegue modificar.
Podemos voltar aos mesmos lugares, reencontrar as mesmas pessoas e repetir os mesmos caminhos.
O que jamais conseguiremos é regressar ao tempo exato em que fomos tão felizes.
Porque a vida não nos permite guardar os instantes.
Permite-nos apenas vivê-los intensamente e, depois, transformá-los em lembranças.
E talvez seja essa a beleza mais profunda de tudo o que experimentamos.
A consciência de que fomos felizes enquanto o tempo passava, mesmo sem percebermos que aqueles dias, tão comuns enquanto aconteciam, um dia nos fariam tanta falta.
Hoje, ao recordar nossa passagem pelas terras lusitanas, percebo que Portugal nos ofereceu muito mais do que belas paisagens.
Ofereceu-nos história, cultura, música, sabores, espiritualidade e a oportunidade de refletir sobre aquilo que verdadeiramente importa.
Lisboa mostrou-nos a grandeza do passado.
Sintra, a beleza dos sonhos.
Óbidos, o encanto dos livros.
Nazaré, a força da natureza.
Batalha, a permanência da história.
Fátima, a serenidade da fé.
Coimbra, a poesia da música.
Aveiro, a delicadeza das coisas simples.
Porto e Gaia, a harmonia entre tradição e modernidade.
E o Douro, com suas águas e vinhedos, mostrou-nos que a natureza também sabe escrever poemas.
Cada cidade deixou uma lembrança.
Cada paisagem despertou uma emoção.
Cada encontro acrescentou uma página à nossa história.
E, para concluir, deixo uma reflexão que talvez traduza melhor tudo aquilo que essa experiência me ensinou:
Viajar é descobrir que o mundo é grande demais para conhecermos por inteiro, mas generoso o suficiente para nos oferecer momentos que cabem eternamente no coração.
Do Tejo ao Douro, percorremos caminhos, conhecemos histórias e contemplamos paisagens que certamente permanecerão em nossa memória.
Trouxemos fotografias, sorrisos, experiências e lembranças.
Mas ficou pelo caminho aquilo que mais gostaríamos de trazer: o tempo em que vivemos tudo isso.
E a saudade, essa companheira inevitável das grandes alegrias, talvez seja apenas o coração tentando regressar aonde o tempo já não nos permite voltar.
Porque há viagens que terminam quando chegamos em casa.
E há outras que nunca terminam, porque continuam viajando dentro de nós.
Esta certamente será uma delas.
E que a vida ainda nos reserve muitos caminhos para percorrer, livros para ler, músicas para ouvir, amigos para abraçar, sonhos para realizar e histórias para contar.
Afinal, não são os anos que dão grandeza à nossa existência, mas a intensidade, o amor e a beleza dos momentos que conseguimos viver.
E, se a vida é uma viagem sem passagem de volta, que nunca nos faltem coragem para partir, sensibilidade para contemplar e um coração suficientemente jovem para continuar se encantando.
Com carinho, gratidão, uma pontinha de irreverência e uma imensa saudade.
Otávio Pinho
Médico, poeta, músico e compositor
Membro da Academia Bacabalense de Letras — Cadeira nº 25, cujo patrono é o músico e compositor Papete.




















