quinta-feira, 20 de agosto de 2026

CRÔNICA - O SONHO DOBRADO NA BOLSA - POR ZEZINHO CASANOVA

O sonho dobrado na bolsa

A chuva despencava sobre São Luís Gonzaga do Maranhão como se tentasse lavar as irregularidades do calçamento de pedra, mas lá embaixo, onde o asfalto se misturava à lama, a cidade apenas parecia se fechar em uma melancolia cinzenta. Dalva estava encostada na moldura da porta do bar "Esquina da Sorte", observando as gotas pesadas formarem cortinas translúcidas sobre o mundo. O cheiro de terra molhada se fundia ao aroma barato de cigarro e ao perfume adocicado que ela usava para tentar mascarar a rotina.

Seu reflexo na vidraça embaçada mostrava uma mulher que o espelho insistia em datar, mas que os olhos, ainda ávidos, se recusavam a aceitar. Dalva não era apenas o corpo que circulava entre os homens que buscavam esquecimento ou companhia barata. Dentro de sua cabeça, ela ainda guardava o caderno de caligrafia que um antigo professor, lá no tempo de menina, havia chamado de "o mais bonito da turma". Ela ainda era a menina que sonhava em ser costureira de vestidos de noiva, alguém que desenhava rendas nos cadernos como se pudesse, de fato, tecer um destino diferente.

Um carro passou devagar, as luzes dos faróis cortando a penumbra, e ela sentiu o calafrio que qualquer mulher na rua conhece bem: o misto de vulnerabilidade e a necessidade de não se deixar abater pelo medo. Ela ajeitou a franja com os dedos, um hábito nervoso que mantinha desde a adolescência em Carolina, antes de a vida tomar os rumos de espinho e poeira que a trouxeram até ali.

— Está vindo alguém, Dalva? — Perguntou Joca, o dono do bar, enquanto limpava o balcão com um pano encardido de tão usado.

Dalva não respondeu de imediato.

— Você podia ter outra vida. — Disse Joca.

— Escolha é palavra bonita quando a barriga já jantou.

Ela observou um grupo de rapazes rindo na mesa do canto, ignorantes quanto à existência dela, exceto pelas vezes em que precisavam de um olhar ou de um consolo passageiro. "Humanizar" era uma palavra que ela nunca usara, mas sentia na pele a falta que ela fazia. Para aqueles homens, ela não tinha biografia, não tinha infância, não tinha planos para além do próximo pôr-do-sol. Ela era a paisagem noturna, a funcionalidade da carne, um vulto que atravessava a calçada.

Pensou em sua mãe, na casa de taipa que ficara para trás. Pensou em como, se a vissem naquele momento, a julgariam pela régua da moralidade alheia, sem nunca perguntar quanto custou a ela manter a sanidade.

A prostituição, para Dalva, não era uma "escolha" feita em um escritório, mas uma deriva que foi acontecendo centímetro a centímetro, perna a perna, degrau a degrau, até que o solo embaixo dela já era outro. Ela se lembrava de ser amada, de ter sentido a pele ser tocada com respeito, algo que parecia ter ficado preso em algum ano anterior à virada do milênio.

A chuva aumentou, o som nas telhas de zinco tornando-se um rufar de tambores de guerra. Dalva sentiu um aperto no peito, uma vontade quase infantil de correr para debaixo de algum telhado seguro, mas não havia para onde ir. O seu "lugar" era ali, onde as esquinas de outrora se confundiam com a precariedade do agora. Ela olhou para a própria mão, enfeitada com um anel de bijuteria barata que soltava tinta verde nos dedos. Ainda havia ali a beleza das mãos que um dia desenharam rendas.

— A vida não é o que a gente faz quando não tem saída, Joca. — Ela disse, de repente, quebrando o silêncio do bar.

Joca parou a limpeza, confuso.

— Falou alguma coisa, Dalva?

Nada. — Ela forçou um sorriso, um daqueles que usava como armadura. — Só estava pensando que essa chuva vai estragar o movimento.

Mas não era pelo movimento que ela chorava por dentro. Era pelo reconhecimento de que, embora a rua estivesse cheia de homens, ela se sentia como se vivesse em um vácuo.

Foi então que a porta do bar se abriu outra vez. Um menino de não mais que oito anos entrou correndo, encharcado da cabeça aos pés. Apertava contra o peito um caderno protegido por um saco plástico já rasgado nas pontas.

Olhou para dentro do salão com a timidez de quem sabia que aquele não era um lugar para crianças.

— Moço... tem um copo d'água?

Joca apontou com o queixo para o balcão.:

— Dalva, pega uma água pra ele.

Ela encheu um copo de alumínio e o entregou. O menino bebeu depressa, respirou fundo e devolveu o copo com as duas mãos. Nesse instante, seus olhos encontraram os dela. Não havia curiosidade. Não havia malícia. Nem julgamento. Apenas gratidão.

— Obrigado, dona.

Dalva demorou um segundo para responder. Havia muito tempo ninguém lhe dirigia uma palavra tão simples. Sorriu sem perceber.

— Vai com cuidado. A chuva ainda não terminou.

O menino fez que sim com a cabeça, apertou novamente o caderno contra o peito e saiu correndo pela rua molhada. Dalva acompanhou seus passos até que desaparecessem atrás da cortina de chuva. Então olhou para as próprias mãos. As mesmas mãos que tantos conheciam sem jamais cumprimentar naquela noite, sentiram que ainda existia fora do papel que o mundo insistia em lhe dar.

Ao ver uma luz tremeluzir na poça de água à sua frente, Dalva se lembrou do vestido de noiva que nunca costurou nem vestiu.

Pouco depois, a chuva começou a perder força. As gotas grossas transformaram-se em pingos espaçados, até que restou apenas o som da água escorrendo pelas calhas enferrujadas.

Joca apagou uma das luzes do bar.

— Pode fechar, Dalva. Hoje a noite morreu mais cedo.

Ela apenas assentiu. Empurrou a cadeira para debaixo da mesa, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou devagar até a porta. Antes de sair, abriu a bolsa de couro já gasta pelo tempo.

Entre um batom sem tampa, um pente de dentes quebrados e algumas notas dobradas, retirou um pedaço de papel amarelado. Desdobrou-o com o cuidado de quem toca uma fotografia antiga. Era um desenho. Um vestido de noiva. A renda havia sido desenhada a lápis, com linhas delicadas que o tempo quase apagara. Dalva passou a ponta dos dedos sobre o papel.

Sorriu. Não um sorriso de felicidade. Mas de reconhecimento. Dobrou novamente o desenho, alisando cada vinco com paciência, e guardou-o de volta na bolsa. Então saiu. A rua ainda brilhava sob a água da chuva na terra do cuxá. Ela caminhou sem pressa entre as poças que refletiam as luzes dos postes. Naquela noite, ninguém a chamou. Ninguém a assobiou. Ninguém lhe pediu nada. Era apenas uma mulher atravessando a cidade. E, por alguns quarteirões, isso lhe pareceu suficiente.


José  Casanova

POESIA - TOMARA - VINÍCIUS DE MORAES

 Tomara


Tomara

Que você volte depressa

Que você não se despeça

Nunca mais do meu carinho

E chore, se arrependa

E pense muito

Que é melhor se sofrer junto

Que viver feliz sozinho


Tomara

Que a tristeza te convença

Que a saudade não compensa

E que a ausência não dá paz


E o verdadeiro amor de quem se ama

Tece a mesma antiga trama

Que não se desfaz

E a coisa mais divina

Que há no mundo

É viver cada segundo

Como nunca mais


Vinícius de Moraes 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

RÉU CONFESSO DO TECH OFFICE É DESMENTIDO POR CARLOS BRANDÃO

Vazou, no dia de ontem, terça-feira (18), o depoimento para a Polícia Federal do assassino confesso do homicídio no edifício Tech Office, Gilbson Júnior.

O condenado afirmo que frequentava o Palácio dos Leões para fazer reuniões com o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e seu sobrinho, Daniel Brandão. Gilbson chegou a afirmar que usava a vaga número 6 para estacionar.

O governador voltou a se manifestar sobre o episódio. Brandão, mais uma vez, negou qualquer envolvimento com o crime e afirmou que nunca recebeu Gilbson no Palácio dos Leões. Além disso, o governador postou uma foto onde funciona o tal estacionamento 6, citado no depoimento.

Não há sequer uma prova de todas essas inverdades que estão sendo ditas. Por isso, afirmo categoricamente que são mentirosas. Nunca tive relação com esse assassino confesso. Nunca o recebi no Palácio, nem em qualquer lugar. A vaga 6 no estacionamento do Palácio dos Leões, que ele diz que ocupava, está há 6 anos preenchida por um gerador”, afirmou Brandão.

POLÍCIA FEDERAL NÃO VÊ CRIME EM ATITUDE DO BLOGUEIRO LIIS PABLO

E agora ? a inteligência da Polícia Federal emitiu relatório que embasou as medidas de busca e apreensão relacionadas às reportagens do jornalista Luís Pablo, mas o relatório afirma não haver indícios de que ele tenha cometido violação de sigilo funcional. O documento também diz não ser possível “apontar com máxima certeza” que o jornalista tenha recebido dinheiro para publicar matérias sobre o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). As informações são da jornalista Malu Gaspar.

Apesar das conclusões da PF, o ministro Alexandre de Moraes afirmou, ao autorizar as diligências, haver indícios relevantes da prática do crime de perseguição contra Dino. Para isso, citou uma manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que se posicionou favoravelmente às medidas.

Desde novembro de 2025, Luís Pablo publicou reportagens questionando o uso de um veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por Flávio Dino e familiares. O ministro sustenta que não houve irregularidade. Em março deste ano, o jornalista foi alvo de uma operação determinada por Moraes, na qual foram apreendidos dois celulares, um notebook e um pen drive.

A análise dos equipamentos permitiu aos investigadores identificar o ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão Raimundo Cutrim como fonte das informações. Mensagens examinadas pela PF mostram que Cutrim enviou imagens e documentos ao jornalista por meio do WhatsApp. O relatório também registra que os dois chegaram a se encontrar pessoalmente, mas não aponta participação de Luís Pablo em atos de perseguição

ORLEANS BRANDÃO TERÁ O MAIOR TEMPO DE PROPAGANDA ELEITORAL

O Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA) divulgou, na noite de ontem,.terça-feira (18), o tempos dos candidatos ao Governo do Maranhão na propaganda eleitoral gratuita no Rádio e TV.

O candidato Orleans Brandão (MDB), que pertence a coligação “Por Todo Maranhão” (Republicanos, PDT, MDB, Podemos, PRD e Solidariedade) ficou com 4 minutos e 1 segundo em cada bloco destinado à eleição para governador.

Já Felipe Camarão (PT), que pertence a coligação “Brasil Justo, Maranhão Grande” (formada por PSB, Federação Brasil da Esperança — PT, PCdoB e PV — e Federação PSOL/Rede) ficou com 3 minutos e 28 segundos.

Eduardo Braide (PSD) ficou o terceiro melhor tempo. O ex-prefeito de São Luís está na coligação “Pra Transformar o Maranhão” (PSD e Novo) e terá 1 minuto e 30 segundos.

Os demais candidatos ficarão com parcelas apenas nas inserções diárias da programação de TV e Rádio. A propaganda eleitoral gratuita acontecerá entre 28 de agosto e 1º de outubro.

A distribuição do tempo leva em consideração critérios da legislação eleitoral, especialmente a representação dos partidos e federações na Câmara dos Deputados

CARLOS BRANDÃO VAI AO STF CINTRA INQUÉRITO INSTAURADO POR FLAVIO DINO

A defesa do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), decidiu acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar suspender o inquérito policial instaurado por determinação do ministro Flávio Dino que envolve o assassinato ocorrido no edifício Tech Office, na capital maranhense.

Os advogados defendem que caberia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), e não o STF, conduzir investigações criminais envolvendo governadores. O entendimento inclusive é o mesmo defendido pela Procuradoria Geral da República.

A ação apresentada no STF sustenta ainda que o ministro Flávio Dino teria violado o princípio do “juiz natural”, o devido processo legal e o sistema acusatório, que separa as funções de investigar, acusar e julgar.

Existe a possibilidade de que ainda nesta terça-feira (18) seja sorteado o relator desta ação no

FELIPE CAMARÃO DIZ QUE SÓ AGORA O ELEUTOR VAI SE INTERESSAR POR POLÍTICA

A Rádio Mirante News FM finalizou na manhã  de ontem, terça-feira (18) as entrevistas com os candidatos ao governo do Maranhão. Felipe Camarão (PT) foi o último candidato entrevistado no programa Ponto Final, com os jornalistas Jorge Aragão, Ronaldo Rocha e Alessandra Rodrigues

Durante a sabatina, o candidato destacou que os investimentos no ensino público e na qualificação profissional serão o eixo central de sua gestão.

“A minha principal marca será educação. Retomada do programa escola digna, ampliação de escola em tempo integral com ensino profissionalizante. Colocar ensino superior em todas as cidades”, declarou.

Camarão também comentou sobre o atual cenário eleitoral no Maranhão. O candidato do PT ressaltou que agora que o eleitor vai acompanhar as eleições de 2026.

“Em todas as pesquisas já divulgas tem um número interessante, no levantamento espontâneo (onde não são apresentados os nomes ao eleitor) mais de 50% dos entrevistados não sabem em quem votar. Isso reflete que o eleitor ainda não começou a acompanhar a eleição e, consequentemente, não definiram seus votos. Acredito que a disputa nacional terá reflexo nas eleições do Maranhão”, destacou.

Clique aqui e veja a entrevista na íntegra

OPINIÃO -:DAS RAÍZES QUE NOS SUSTENTAM ÀS SEMENTES DO AMANHÃ OU COMO A CULTURA POPULAR E AS PRÁTICAS COMUNITÁRIAS CONSTROEM O PRESENTE E PROJETAM O FUTURO* - POR EUCLIDES MOREIRA NETO

DAS RAÍZES QUE NOS SUSTENTAM ÀS SEMENTES DO AMANHÃ OU COMO A CULTURA POPULAR E AS PRÁTICAS COMUNITÁRIAS CONSTROEM O PRESENTE E PROJETAM O FUTURO

Sem valorizar quem faz cultura na base e quem cuida do próximo, não haverá futuro justo. É nas periferias que se planta o amanhã.

Vivemos um tempo em que se fala muito de futuro. De inovação, de tecnologia, de "disrupção". Mas há uma pergunta que raramente é feita com a seriedade que merece: sobre que chão esse futuro está sendo construído? Que alicerces sustentam o presente que vivemos hoje? 

Se olharmos com atenção para fora das manchetes, para fora dos gabinetes e dos grandes centros de decisão, encontraremos a resposta nas ruas, nas praças, nos barracões, nas escolas públicas, nas cozinhas comunitárias e nos terreiros. Encontraremos nas referências passadas. Mais especificamente, encontraremos na cultura popular e nas práticas comunitárias que, há séculos, são as verdadeiras arquitetas da nossa sociabilidade.

Esta matéria é uma defesa. Uma defesa da memória, da arte feita pelo povo e para o povo, e das ações que tiram do anonimato aquela parcela da sociedade que insistem em chamar de "invisível". Porque invisível ela só é para quem não quer ver.

*A MEMÓRIA COMO PROJETO: ENTENDENDO AS REFERÊNCIAS PASSADAS*

Comunicação, linguagem e cultura são indissociáveis. Não comunicamos ideias soltas no ar. Comunicamos histórias, símbolos, afetos que herdamos. A linguagem não nasce no vazio. Ela é forjada na convivência, no trabalho coletivo, na festa e na dor. E a cultura é justamente o nome que damos a esse acúmulo de sentidos.

Quando falo em "referências passadas", não estou falando de nostalgia. Nostalgia paralisa. Referência mobiliza. É o tambor que já soou ontem e que hoje convoca a juventude para o ensaio. É a receita da avó que vira cardápio de uma cozinha solidária. É o enredo de uma escola de samba de 1998 que inspira a temática de 2027.

Negar essas referências é praticar um epistemicídio. É matar formas de saber que não cabem em planilha, mas que sustentam a vida em comunidade. O Brasil, e o Maranhão de forma muito potente, é um país forjado na mistura. E essa mistura não aconteceu nos livros. Aconteceu na roda. Aconteceu no sincretismo do Bumba Meu Boi. Aconteceu na resistência do tambor de crioula, patrimônio da humanidade. Aconteceu no cordel, na cantoria, no cacuriá, no reggae. 

Essas manifestações são marcas indeléveis porque elas cumprem uma função social que o Estado, muitas vezes, não cumpre: a de criar pertencimento.

*A CULTURA POPULAR COMO TECNOLOGIA SOCIAL*

Chamamos de "tecnologia" tudo aquilo que resolve um problema humano. Nesse sentido, a cultura popular é uma das mais sofisticadas tecnologias sociais que já inventamos.

Vejamos o exemplo dos grupos carnavalescos e juninos. Pegue a Sociedade Recreativa Favela do Samba. O que ela faz? Ela pega jovens que poderiam estar na ociosidade ou na vulnerabilidade e os coloca para criar. Para costurar, para dançar, para tocar, para pensar um enredo. Isso é educação. É comunicação. É economia criativa.

Quando a Favela do Samba anuncia para 2027 o enredo "GAMAR: O MÁGICO SEMEAR DE ARTES, SONHOS E TRANSFORMAÇÕES", inspirado no Grupo de Arte da Escola Estadual Maria José Aragão, ela está fazendo duas coisas: prestando homenagem e semeando o futuro.

O trabalho do professor Wilson Chagas, com o GAMAR, foi e é fundamental. Wilson usou o teatro, a dança e a poesia como ferramenta pedagógica para tirar crianças e adolescentes da vulnerabilidade. Resultados concretos: jovens na universidade, diminuição da violência, livros publicados, espetáculos que marcaram a cidade. Do "Poema Sujo" a "A Carne Mais Barata do Mercado é a Carne Negra", o GAMAR provou que arte transforma.


Ao levar esse enredo para a avenida, a escola está ensinando a cidade inteira que a cultura não é supérflua. É estruturante.

*PRÁTICAS COMUNITÁRIAS: A ÉTICA DO CUIDADO EM AÇÃO*

Se a cultura popular é a alma, as práticas comunitárias são o corpo. São a materialização do cuidado. E é aqui que a sociedade como um todo tem muito a aprender.

Durante a pandemia, quem segurou a barra? Foram as cozinhas solidárias, os coletivos de bairro, as igrejas, os grupos de mães. Abaixo veja 5 exemplos que a sociedade precisa copiar:

*1. Cozinhas e Geladeiras Solidárias*  

Grupos que cozinham coletivamente para distribuir marmitas. Mais que matar a fome, é um ato que diz: "você não está sozinho". É a economia do cuidado em prática.

*2. Projetos de Arte-Educação nas Periferias*  

Como o próprio GAMAR. Em vez de investir em repressão, investiu-se em expressão. Deu-se palco e microfone. O resultado foi acesso à universidade e cidadania. Qualquer política pública séria para a juventude precisa começar por aqui.

*3. Bibliotecas Comunitárias e Saraus de Periferia*  

Moradores transformam garagens em pontos de leitura. Fazem batalha de rima e contação de história. Estão criando um território de imaginação. Isso combate a desigualdade de repertório.

*4. Mutirões de Reaproveitamento para Festas Populares*  

É a luta das escolas de samba. Construir um carro alegórico sem verba é um exercício de engenharia social. É pedir doação de cano, de ferro. É transformar lixo em luxo. Quando a Favela do Samba solicita materiais para suas alegorias, ela está oferecendo à sociedade um espetáculo gratuito, educativo e democrático. Está gerando emprego e identidade.

*5. Redes de Apoio entre Vizinhos*  

Rodas de conversa de mulheres, grupos de idosos. São espaços onde a dor é dividida e a solução é construída coletivamente. O Estado muitas vezes não tem capilaridade para isso. A comunidade tem.

*O "INVISÍVEL" E A QUESTÃO DA JUSTIÇA SOCIAL*

Chamar uma parcela da sociedade de "invisível" é um ato de violência. Invisível para quem? Para o poder público que não coleta lixo? Para a mídia que só vai na comunidade quando tem tragédia?

O que vemos nas comunidades é o oposto da invisibilidade. Vemos gente que cria, que trabalha, que cuida, que reza, que canta. O que falta não é visibilidade. O que falta é reconhecimento.

Reconhecer é pagar o mestre de cultura. Reconhecer é dar estrutura para a escola de samba. Reconhecer é comprar do pequeno produtor da feira comunitária. Defender ações para os mais carentes não é assistencialismo. É reparação histórica.

*COMUNICAÇÃO, LINGUAGEM E O FUTURO QUE QUEREMOS*

Como pesquisador da área, encerro com uma reflexão: o futuro será disputado no campo dos sentidos. Que narrativas vamos contar sobre nós mesmos? 

A linguagem que usamos para falar das periferias importa. Chamar de "favela" com orgulho, como faz a Favela do Samba, é um ato político. Mostrar o brilho da fantasia feita com material reaproveitado é um ato político. 

O jornalismo tem um papel fundamental nisso. Nosso papel não é apenas noticiar o fato. É contextualizar. É mostrar que atrás de cada carro alegórico tem 6 meses de trabalho. Que atrás de cada marmita tem uma rede de mulheres que não dorme.

*CONSIDERAÇÕES FINAIS: SEMEAR PARA COLHER*

As referências passadas são as sementes. A cultura popular é a terra fértil. As práticas comunitárias são a água e o cuidado diário.

Não vamos colher um futuro de paz e justiça se hoje negarmos adubo para quem planta. O Maranhão e o Brasil precisam de políticas públicas que entendam a cultura não como custo, mas como investimento. Que entendam a comunidade não como problema, mas como solução.

Enquanto isso não acontece de forma plena, a responsabilidade segue sendo nossa. De apoiar. De divulgar. De doar. De participar. De reconhecer.

Porque o presente que vivemos foi construído por mãos anônimas. E o futuro que sonhamos só será digno se for construído pelas mesmas mãos.  

Que não sejam mais invisíveis.


*_Por Euclides Moreira Neto - PhD em Comunicação, Linguagem e Cultura – UNAMA e Professor do Curso de Jornalismo – UFMA_

POESIA - TRAPÉZIO - ZÉ CHAGAS



TRAPÉZIO


O tempo se esvai

pela janela do mundo

suicida-se o eternoem nós

e a vida não devolve senão

os ossos

construção precária

que é já de início

as ruínas do ser

O esqueleto cai

 do seu trapézio de sonho

e resta-lhe o aplauso do nada.


 José Chagas 


terça-feira, 18 de agosto de 2026

CANDIDATO A DEPUTADO FEDERAL JANSEM PENHA, INFORMA


O candidato a deputado federal Jansem Penha, que dentro do seu planejamento de campanha, , faz visitas diárias a várias cidades do estado, usou suas redes sociais para informar os preparativos para seu primeiro pronunciamento oficial. Diz a nota:

"Informo aos amigos e a todos maranhenses que estou cuidando da parte burocrática para então fazer meu primeiro pronunciamento sobre minha candidatura a Deputado federal com o N° 3333. O Maranhão Levado à Sério!. Aguardem.

Jansem Penha