Por Joaquim Haickel
Contam que certa vez Aristóteles foi levado por um de seus mais curiosos e dedicados discípulos, Teofrasto, ao oráculo de Anfiarau, em Oropos, perto de Atenas, onde foram recebidos por um sacerdote de nome Melampo que usava uma bacia cheia de água para ver o futuro. A água na bacia funcionava como um portal que mostrava o que iria acontecer. Naquele dia, o portal os levou para um tempo distante, bem mais de 2.000 anos adiante.
Do outro lado do tempo, via-se um alto tribunal reunido para decidir se investigaria um dos seus membros. Aquela era uma república quente cujas leis estavam desgastadas e cansadas. Naquele tribunal havia um magistrado de fala brilhante que, algumas vezes, invocou o nome de Aristóteles, que, de longe, tudo assistia. Foi então que Teofrasto perguntou ao mestre:
— Mestre, aquele orador vos cita recorrentemente. Disse ele ao Arconte (juiz dirigente dos trabalhos) que, segundo vós, a ironia serve para descontrair o ambiente.
Ao que Aristóteles, intrigado, respondeu:
— Curioso! Nunca disse tal coisa. Isso é fala de sofista, de gente que eu já descrevi como mercadora de sabedoria que não possui. Quando anotei frases assim, foi para reprová-las. A ironia, para mim, sempre foi um vício do dissimulador; a virtude está na verdade sem adorno. Aquele homem me chama para abençoar justamente o que eu condenava. É vil. E, note bem, ele faz isso com tanta graça na língua que quase convence. É o que eu chamaria de um sofista quase perfeito.
Eles voltaram a assistir ao julgamento, e o discípulo comentou:
— Agora ele faz troça, mestre. Comenta o que teria dito um desses comediantes de feira, ironiza o Arconte, ri num julgamento que trata da suspeita de um supremo juiz haver vendido sentenças.
— Esse tipo eu já descrevi em meus textos: é o bufão, o que não resiste a uma pilhéria, não poupa ninguém e brinca na hora mais imprópria. Ei-lo de novo, agora ampliado nessas telas do futuro. Ri o bufão, e sangra a cidade.
Teofrasto prosseguiu, na tentativa de obter de Aristóteles a certeza sobre tais narrativas:
— Ele abriu o voto, mestre, falando de castigos que uma potência estrangeira estaria preparando contra ele e contra seus colegas.
— Então, antes mesmo de medir, ele entortou a régua. Veja o que ensinei sobre a arte de persuadir: conduzir o juiz pelo medo é falsear a medida na origem. É colocar, de maneira criminosa, o temor antes do mérito. O que se pode esperar de reto de uma vara que já é torta?
— E há mais, mestre. O juiz investigado votou sobre a forma como ele mesmo deveria ser julgado. E o citado orador votou ao lado dele. E mais ainda: ao perceber que perderia o julgamento, mesmo já tendo votado, pediu que a decisão fosse adiada.
— Isso, meu bom e jovem amigo, não tem nome de julgamento. Tem nome de interesse. Quem decide causa própria perde a verdade de vista, porque o interesse cega. Já não era juiz; era parte.
Teofrasto calou-se um instante e depois perguntou:
— Que dizeis então de tudo isso, mestre?
— Digo o que sempre disse: que o homem não é o que proclama, mas o que faz; que a virtude é hábito, e o caráter, a soma dos seus atos; e que o poder revela quem o carrega. Quanto mais alto o assento, mais severa a régua. E o que fez este, com tamanho peso e diante de todos? Fez pilhéria, citou-me torto, começou pelo medo, votou com o investigado e, ao ver que se formava a maioria contra si, deteve a cidade inteira pedindo mais tempo.
— Mestre, o que o senhor diria para um homem como esse?
— Que mesmo sem o conhecer, eu já o havia descrito, e a outros como ele: o bufão que ri fora de hora, o dissimulador de ironias, o sofista que vende palha por ouro, o vaidoso que simula uma grandeza que não tem. Diante do cargo que ocupa, não o tenho em grande conta. Pois a virtude, meu discípulo, nunca esteve em citar alguém ou buscar o aval de suas palavras. Está em agir conforme aquilo que a pessoa citada realmente ensinou. Quem invoca a régua e a entorta não é sábio: é sofista. E o sofista, bem sabeis, sempre fala bonito, mas suas palavras, por mais belas que sejam, soam ocas, vazias.
A água na bacia ficou turva. Aristóteles reverenciou o oráculo, despediu-se de Melampo e saiu acompanhado de Teofrasto. Dizem que, antes de partir, ele sorriu e murmurou, incrédulo:
— Aquele país não existe. É impossível que haja uma corte como aquela e juízes como aqueles.
P.S.: Qualquer semelhança entre este texto e os acontecimentos recentes de nosso país será mero fruto da liberdade literária e criativa deste modesto autor que, incapaz de relatar os fatos tal como ocorreram, os transporta para o paraíso das ideias e dos sonhos, na tentativa de compreender o que acontece.