sexta-feira, 6 de novembro de 2026

ERLANIO XAVIER DEVE IR PRO UNIÃO BRASIL

O ex-presidente da FAMEM e atual deputado federal eleito no Maranhão, Erlânio Xavier, deverá mesmo trocar de legenda e, ao que tudo indica, a mudança deve ocorrer antes mesmo do início do mandato, previsto para 1º de fevereiro de 2027.Turismo Maranhão

Erlânio se elegeu deputado federal no PDT, mas o partido não alcançou a cláusula de desempenho nas eleições de 2026 e acabou encolhendo nacionalmente, já que saiu de 17 deputados federais eleitos em 2022 para somente seis parlamentares este ano. Vale ressaltar que essa situação deixará o PDT sem Fundo Partidário e Eleitoral e sem tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Diante disso, qualquer filiado eleito ao PDT em 2026 pode naturalmente deixar a legenda, sem o receio de perder o mandato por conta da chamada fidelidade partidária.Notícias Eleições

O presidente do União Brasil, deputado federal reeleito Pedro Lucas, já convidou Erlânio para o partido e, pelo visto, a tendência é que o convite seja aceito.

Erlânio já está se sentindo em “casa” e participou de um encontro da Bancada do União Brasil, nesta quinta-feira (05), que contou com a presença do presidente nacional da legenda, Antônio Rueda. O encontro, que também teve a participação do presidente da Câmara Federal, Hugo Motta (Republicanos-PB), serviu para o União declarar apoio a reeleição de Motta.

A chegada de Erlânio no União é questão de tempo, pelo visto, pouco tempo.

VEM AÍ O IMPOSTO DO PECADO

 

O brasileiro vai ter 90 dias para a chegada do Imposto Seletivo, mais conhecido como Imposto do Pecado.

A nova taxa, já publicada no Diário Oficial da União, começará a ser cobrada a partir de 2 de fevereiro de 2027, por conta da noventena, o prazo de cobrança foi fixado para começar a valer noventa dias após a publicação da MP, que tem força de lei. 

O Imposto do Pecado vai incidir sobre bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente e alcançará aeronaves, embarcações, cigarros e outros produtos de tabaco, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas.

Os cigarros terão impostos de 66,7%, enquanto que uísque e vodca chegam a 24% e a cerveja terá uma taxa de 4,2%. Veja acima na tabela o percentual que será cobrado em cada produto.

No Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, apresentado no final de agosto deste ano, a equipe econômica do Governo Federal projeta uma arrecadação de quase R$ 42 bilhões com o Imposto Seletivo no próximo ano.


CPI CONTRA FELIPE CAMARÃO É ARQUIIVADA NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO MARANHÃO

O vice-governador Felipe Camarão (PT) comemorou o arquivamento da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa do Maranhão, que investigava supostas irregularidades de Camarão no exercício do cargo durante os últimos quatro anos.

Camarão destacou que a CPI foi arquivada sem apresentação de um relatório final e que seguirá de cabeça erguida e com a consciência tranquila.

“A verdade prevaleceu! A CPI aberta contra mim na Assembleia Legislativa do Maranhão foi oficialmente arquivada, sem apresentar uma única prova ou sequer um relatório final. Agradeço a Deus, à minha família, aos amigos e a todos que sempre confiaram em mim. Agradeço também à Assembleia pelo respeito às regras institucionais. Mais uma tentativa de atingir minha honra ficou pelo caminho. Sigo firme, de cabeça erguida, com a consciência tranquila e o coração cheio de gratidão!”, destacou.

Vale ressaltar que parecer da Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) e a maioria do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA) já haviam se posicionado pelo arquivamento, uma vez que o prazo inicial de 120 dias da CPI foi encerrada em julho, durante o período eleitoral, sem ampliação do prazo e sem registro público de relatório final homologado

CRÔNICA - A VIRADA - POR ZEZINHO CASANOVA

A VIRADA  

Há uma palavra que parece carregar dentro de si o movimento do mundo: virada. A gente vira a página de um livro, vira a esquina de uma rua, vira a noite trabalhando tentando escrever uma crônica, vira o rosto para esconder uma lágrima. Vira o calendário, vira o ano, vira a sorte. Há quem vire as costas para o passado e quem passe a vida inteira tentando virar o jogo. Mas nem toda virada faz barulho. Algumas acontecem no silêncio de uma madrugada, quando a coragem, cansada de esperar, resolve finalmente acordar.

Dona Francisca, por exemplo, nunca imaginou que sua grande virada aconteceria aos sessenta e dois anos. Depois de uma vida inteira lavando roupa para fora, viu-se diante de uma máquina de costura herdada da irmã. As mãos, acostumadas ao sabão e à água fria, aprenderam a conversar com linhas e tecidos. No começo, costurava pequenos consertos. Depois vieram vestidos, uniformes, encomendas. Um dia, pendurou na porta de casa uma placa escrita à mão: Costuras da Chica.

Não ficou rica, mas passou a assinar o próprio destino com a linha da independência. Sua virada não apareceu nos jornais, não mereceu discursos nem fotografias. Coube inteira naquele pequeno letreiro, onde uma mulher que sempre trabalhara para os outros descobriu que ainda podia construir alguma coisa para si.

Já Antônio, motorista de ônibus, experimentou uma virada bem diferente. Durante vinte anos, percorreu as mesmas ruas, enfrentou os mesmos engarrafamentos e ouviu as mesmas reclamações dos passageiros. Conhecia a cidade pelos buracos do asfalto e pelas histórias que entravam pela porta da frente. Até que, numa manhã de segunda-feira, recebeu a notícia de que a empresa encerraria suas atividades.

Aos cinquenta anos, desempregado, Antônio sentiu que o mundo havia feito uma curva sem avisá-lo.

Passou semanas olhando pela janela, vendo os ônibus seguirem seus caminhos enquanto o dele parecia interrompido. Até que a filha, estudante de pedagogia, lhe perguntou por que não terminava os estudos que havia abandonado na juventude.

Antônio resistiu. Disse que estava velho, que não tinha cabeça para aquilo, que os livros pertenciam a outra estação da vida. Mas voltou à escola. Na primeira noite, sentou-se na última carteira, envergonhado. Meses depois, já era o primeiro a levantar a mão. Descobriu que existem viagens que não precisam de volante e estradas que começam dentro de um caderno.

A vida lhe havia tirado uma direção, mas lhe oferecia a possibilidade de encontrar outra. 

Também havia Clara, professora de escola pública, dessas que carregam no coração mais alunos do que cabem numa sala de aula. Clara pensou em desistir muitas vezes. Faltavam livros, sobravam dificuldades. Havia dias em que o salário parecia pequeno demais para sustentar os sonhos e grande demais era o cansaço para continuar acreditando. Certa manhã, encontrou sobre sua mesa uma carta de um antigo aluno.

Ele havia ingressado na universidade. Na última linha, escreveu: “Professora, a senhora me ensinou que o lugar onde nascemos não precisa determinar até onde podemos chegar.”

Clara chorou.

Naquele instante, compreendeu que sua virada não consistia em abandonar a sala de aula, mas em reencontrar o sentido de permanecer nela. Porque existem viradas que mudam o caminho. Outras mudam apenas o nosso modo de caminhar. E há aquelas que ultrapassam a vida individual e alcançam as ruas, as praças, as cidades, o país inteiro.

O Brasil também conhece suas viradas.

É um país que, entre avanços e retrocessos, aprendeu que a democracia não é uma estrada reta. É um caminho construído por milhões de passos, por disputas, divergências, conquistas e escolhas. Um caminho que exige vigilância, respeito e a capacidade de reconhecer no outro o mesmo direito de existir, pensar e sonhar.

Em tempos de eleição, a palavra virada ganha uma força especial.

Ela sai das conversas de esquina, atravessa as mesas de bar, invade as redes sociais e chega às casas onde famílias inteiras acompanham, entre expectativas e apreensões, a contagem dos votos. Foi assim que a trajetória de Lula, marcada por derrotas, vitórias, afastamentos e retornos, transformou a ideia de virada em uma imagem recorrente da política brasileira.

No segundo turno de uma eleição, cada voto participa de uma história coletiva. A virada nas urnas, quando acontece, não é apenas uma mudança na posição dos candidatos. É também a demonstração de que, numa democracia, o resultado pertence à vontade expressa pelos eleitores, e não às certezas antecipadas por quem disputa o poder.

Para uns, o resultado representa esperança. Para outros, preocupação ou discordância. E talvez esteja justamente aí uma das maiores responsabilidades democráticas: compreender que a vitória de um candidato não elimina a cidadania de quem escolheu outro. A democracia precisa continuar depois da apuração.

Precisa chegar à mesa de Dona Francisca, ao emprego de Antônio, à escola de Clara. Precisa ser percebida na dignidade do trabalho, no acesso à educação, no alimento que não pode faltar, no direito de falar e de ser ouvido. Porque uma virada política só encontra seu significado mais profundo quando a vida das pessoas também encontra oportunidades de melhorar.

E o povo, esse personagem imenso que raramente cabe inteiro nos discursos, continua fazendo suas próprias viradas. É a mãe que consegue matricular o filho na universidade. O agricultor que vê a chuva chegar depois de uma longa estiagem. O jovem que conquista o primeiro emprego. O aposentado que recupera a tranquilidade de comprar seus remédios. A família que, depois de tantas dificuldades, volta a fazer planos para o futuro.

Nenhuma dessas histórias depende apenas de um homem, de um partido ou de uma eleição. Dependem de trabalho, políticas públicas, oportunidades, escolhas e de uma sociedade que não desista de si mesma. Talvez seja esse o verdadeiro sentido da virada: a possibilidade de que o amanhã não esteja condenado a repetir o ontem. Afinal, a vida não avisa quando vai mudar de direção.

Às vezes, a virada chega como tempestade. Outras vezes, como uma brisa que abre discretamente a janela. Pode nascer de uma perda, de um encontro, de uma decisão ou de um voto. O importante é compreender que virar não significa necessariamente esquecer o caminho percorrido. Significa reconhecer que ainda existe estrada pela frente.

Dona Francisca continua costurando. Antônio continua estudando. Clara continua ensinando. E o Brasil continua escrevendo, entre conflitos e esperanças, as páginas de sua história. Todos, à sua maneira, procuram a mesma coisa: um amanhã que valha a pena.

Porque, no fundo, a maior virada não é simplesmente trocar quem está no poder, mudar de profissão ou começar outra vez.

A maior virada acontece quando aquilo que parecia impossível deixa de ser apenas esperança e começa, finalmente, a se tornar realidade.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

POESIA - TORTURA - FLORBELA ESPANCA

  


 


 Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,

A lúcida Verdade, o Sentimento!

- E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!...


Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

- E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento!...


São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto!


Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


O sujeito lírico em Tortura fala da dificuldade de gerir os próprios sentimentos e da grande aflição que carrega no peito.


O seu suplício é partilhado co


9. Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!

Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.

Ceguinha de te ver, sem ver a conta

Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...

E outro clarão, ao longe, já desponta!

Um engano que morre... e logo aponta

A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver

São precisos amores, pra morrer

E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso

Fazer do amor que parte o claro riso

Doutro amor impossível que há de vir!


Enquanto a maior parte dos poetas costuma dedicar os seus versos ao amor que está nascendo ou em crescimento, Florbela escolheu compor aqui um poema dedicado ao final de uma relação.


O eu-lírico trata do fim de uma relação a dois que terminou de forma inesperada, sem que o casal se desse conta. Mas a abordagem é conformada, o sujeito lírico reconhece que não há um único amor possível na vida e que o futuro aguarda um novo parceiro igualmente apaixonado.


10. Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido... e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!


E quando, manhã alta, o sol posponte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:


- Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!


O poema de Florbela Espanca tece uma homenagem à região do Alentejo, situada no centro/sul de Portugal.


Nos versos que levam o nome da zona o eu-lírico faz um elogio à paisagem rural, às árvores e a topologia campestre da região.


Há também uma alusão ao clima quente da planície alentejana e uma capacidade de identificação do sujeito poético com a paisagem que narra.


11. Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem

Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...

Sou um reflexo... um canto de paisagem

Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!

Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem

Dum doido que partiu numa romagem

E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...

Uma estátua truncada de alabastro...

Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,

Num mundo de vaidades e pecados,

Sou mais um mau, sou mais um pecador...


Com uma linguagem coloquial e um tom descontraído, vemos um eu-lírico perdido, mas desejoso de se encontrar.


Múltiplo e multifacetado, o sujeito poético aqui lembra os heterônimos do também poeta português Fernando Pessoa na sua busca por uma identidade não fragmentada.


De volta à Florbela, em Minha culpa testemunhamos um eu-lírico que é muitos, que está disperso, espalhado, e que se vê sobretudo a partir de uma ótica negativa.


12. Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...


Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei pra minha boca!...


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SEXTOU COM MUÇÃO

 


quinta-feira, 5 de novembro de 2026

COM A PALAVRA - DO TEJO AO DOURO - POR OTÁVIO PINHO FILHO

 


DO TEJO AO DOURO

Uma viagem de descobertas, histórias, vinhos, encantos e saudades.

Há viagens que fazemos para conhecer lugares. Outras, porém, parecem ter sido cuidadosamente escritas pelo destino para nos proporcionar algo muito maior: a alegria de viver, o prazer de descobrir novos horizontes e o privilégio de transformar momentos passageiros em lembranças eternas.

Nossa viagem por Portugal foi exatamente assim.

Foram dias de descobertas, encantamentos, emoções, conversas intermináveis, gargalhadas espontâneas, brindes generosos e, sobretudo, da deliciosa convivência com amigos queridos.

Percorremos cidades que parecem ter feito um pacto com o tempo para preservar suas histórias, seus monumentos, suas tradições e aquela maneira tão peculiar de transformar a saudade em poesia.

De Lisboa ao Porto, do Tejo ao Douro, encontramos um país onde o passado permanece vivo, a gastronomia é uma celebração cotidiana e a música parece conhecer os sentimentos que nem sempre conseguimos traduzir em palavras.

E que bela viagem!

LISBOA — ONDE A HISTÓRIA ENCONTRA O TEJO

Lisboa, nossa porta de entrada, recebeu-nos com sua elegância secular, suas ruas de pedra, seus tradicionais elétricos, suas ladeiras e seus monumentos que parecem guardar os segredos de tantas gerações.

Às margens do Tejo, contemplamos uma cidade que respira história, onde antigos navegadores deixaram suas marcas e poetas encontraram inspiração para cantar o amor, a distância e a saudade.

Belém, com sua torre emblemática e o imponente Mosteiro dos Jerónimos, recorda os tempos em que Portugal se lançou ao desconhecido, transformando a coragem dos navegadores numa das páginas mais extraordinárias de sua história.

Caminhar pelas ruas de Alfama, admirar a Praça do Comércio, contemplar a cidade dos seus miradouros e ouvir, ao longe, os acordes de uma guitarra portuguesa é perceber que Lisboa possui uma alma própria.

Uma alma que mistura grandeza e simplicidade, alegria e melancolia, tradição e modernidade.

Lisboa nos ensinou que algumas cidades não precisam ser inteiramente compreendidas.

Basta senti-las.

SINTRA — ONDE O ROMANTISMO GANHOU MORADA

Sintra surgiu como um cenário de sonhos.

Seus palácios, castelos, jardins e montanhas parecem ter sido retirados das páginas de um romance medieval.

A beleza exuberante do Palácio da Pena, o mistério da Quinta da Regaleira e o encanto de suas paisagens fazem daquela cidade um lugar onde a imaginação ganha asas e o romantismo encontra morada.


Há algo de misterioso em Sintra.

Talvez seja a neblina que frequentemente envolve suas montanhas. Talvez sejam os caminhos escondidos entre árvores centenárias ou a impressão de que, a qualquer momento, algum personagem de um antigo romance poderá surgir diante de nós.

Ali, até os menos sentimentais do grupo devem ter experimentado algum impulso poético.

Se não sentiram, certamente estavam distraídos procurando o próximo restaurante!

ÓBIDOS — UMA CIDADE ESCRITA EM LIVROS

Óbidos foi uma daquelas surpresas que nos fazem acreditar que algumas cidades foram construídas não apenas com pedras, mas também com poesia.

Cercada por muralhas medievais, com suas ruas estreitas, casas brancas adornadas de flores e detalhes coloridos, Óbidos parece conservar o privilégio de viver num tempo diferente do nosso.

Caminhar por suas vielas é como folhear um antigo livro de histórias, no qual cada esquina revela uma nova página e cada janela parece guardar um romance que ainda não terminou.

Mas Óbidos nos reservava uma particularidade extraordinária: sua relação apaixonada com os livros.

Reconhecida internacionalmente como Vila Literária, a pequena cidade abriga uma surpreendente concentração de livrarias e espaços dedicados à leitura.

E que descoberta fascinante encontrar, no interior da antiga Igreja de São Tiago, uma livraria!

Onde outrora predominavam os rituais religiosos, hoje repousam milhares de livros, numa convivência singular entre arquitetura sagrada, literatura e conhecimento.

Uma igreja transformada em templo dos livros!

Que bela maneira de preservar o passado, oferecendo-lhe uma nova missão cultural.

Para quem ama a literatura, Óbidos não é apenas uma cidade a visitar. É um lugar onde sentimos vontade de permanecer, abrir um livro e deixar que o tempo passe sem pedir licença.

E, naturalmente, não poderíamos deixar aquela vila sem conhecer sua famosa ginjinha, servida em pequenos copinhos de chocolate.

Uma combinação tão agradável que alguns dos nossos companheiros demonstraram imediato interesse em aprofundar os estudos sobre a bebida!

NAZARÉ — A GRANDEZA DO ATLÂNTICO

Nazaré nos apresentou a força e a grandiosidade do Atlântico.

Suas ondas gigantes, a tradição dos pescadores, as mulheres de sete saias e a beleza de suas praias revelam um Portugal profundamente ligado ao mar.

Do alto do Sítio, diante daquela imensidão azul, sentimos a extraordinária mistura de admiração e respeito que a natureza desperta.

É impressionante imaginar que aquelas águas, aparentemente tranquilas em determinados momentos, possam produzir algumas das maiores ondas já surfadas no mundo.

Nazaré possui essa peculiaridade: enquanto suas ondas desafiam os mais corajosos, suas tradições acolhem os visitantes com a simplicidade e a autenticidade de seu povo.

Ali compreendemos que o mar, assim como a vida, pode ser generoso e imprevisível, sereno e assustador, mas nunca deixa de despertar nossa admiração.

BATALHA — A HISTÓRIA ESCULPIDA EM PEDRA

Batalha apresentou-nos um Portugal monumental, solene e profundamente orgulhoso de sua história.

Ali encontramos o magnífico Mosteiro de Santa Maria da Vitória, conhecido como Mosteiro da Batalha, uma das mais extraordinárias expressões da arquitetura gótica portuguesa.

Erguido para celebrar a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota, aquele monumento impressiona pela imponência de suas estruturas, pela delicadeza dos detalhes esculpidos em pedra e pela capacidade de transformar um acontecimento histórico numa obra de arte que atravessa os séculos.

Suas capelas, seus claustros e as famosas Capelas Imperfeitas, que permanecem inacabadas, despertam uma reflexão curiosa:

Nem tudo o que é belo precisa estar concluído.

Há obras que, mesmo incompletas, alcançam a eternidade.

Diante daquela grandiosidade, pensei em quantas gerações passaram por ali, quantas mãos trabalharam naquelas pedras e quantos sonhos humanos sobreviveram graças à arte e à memória.

Batalha nos ensinou que a história não vive apenas nos livros.

Às vezes, ela se ergue diante de nós, silenciosa, majestosa e impossível de ignorar.

FÁTIMA — UMA PAUSA PARA A ALMA

Fátima nos proporcionou uma experiência diferente, marcada pelo silêncio, pela fé e pela espiritualidade.

Diante do Santuário, encontramos um momento para agradecer a Deus pelo dom da vida, pela saúde, pela família, pelos amigos e por tantas bênçãos que, muitas vezes, a correria cotidiana não nos permite reconhecer.

Naquele ambiente de devoção, observando peregrinos de tantas nacionalidades, compreendemos como a fé consegue aproximar pessoas que não compartilham o mesmo idioma, mas carregam esperanças semelhantes.

Cada oração parecia guardar uma história.

Cada olhar traduzia um pedido, uma gratidão ou uma saudade.

Foi uma pausa para a alma.

Um daqueles lugares onde as palavras se tornam pequenas diante da grandeza dos sentimentos.

E saímos dali com uma certeza: viajar também é encontrar oportunidades para olhar para dentro de nós mesmos.

COIMBRA — ONDE A MÚSICA SE TRANSFORMA EM SAUDADE

Coimbra, ah, Coimbra!

Cidade dos estudantes, dos doutores, das capas negras e das serenatas que atravessam gerações.

Sua universidade secular, com a majestosa Biblioteca Joanina, é um verdadeiro templo do conhecimento, enquanto suas ruas antigas parecem guardar histórias de juventude, sonhos e paixões.

Às margens do Mondego, recordamos o amor de Pedro e Inês de Castro, uma das histórias mais comoventes da tradição portuguesa.

Um amor que desafiou convenções, enfrentou interesses políticos e terminou tragicamente com a morte de Inês.

A tradição conta que Pedro, inconformado com a perda da mulher amada, jamais permitiu que sua memória fosse esquecida.

A história e a lenda acabaram se entrelaçando, eternizando um sentimento que continua inspirando poetas e apaixonados.

Talvez por isso Coimbra pareça guardar, entre suas pedras e suas canções, uma compreensão muito particular do amor e da saudade.

Mas Coimbra me reservava uma experiência especialmente emocionante, que certamente ocupará um lugar privilegiado entre as lembranças desta viagem.

Tive a imensa alegria de assistir a um concerto de Fado de Coimbra.

E foi ali, ouvindo aquelas vozes carregadas de sentimento e o som inconfundível da guitarra portuguesa, que descobri algo que até então desconhecia profundamente: a diferença entre o fado de Coimbra e o tradicional fado de Lisboa.

O fado lisboeta nasce da alma popular, das vielas, das tabernas e dos bairros antigos.

É visceral, dramático, apaixonado.

Canta amores perdidos, destinos contrariados e saudades que parecem não encontrar consolo.

Já o Fado de Coimbra possui outra atmosfera.

Profundamente ligado à tradição universitária, é marcado pelas serenatas, pela poesia, pelo romantismo e por uma delicada melancolia.

Tradicionalmente interpretado por homens de capa negra, traz consigo a emoção das despedidas estudantis, dos amores juvenis e da saudade dos anos que não regressam.

Enquanto o fado de Lisboa parece frequentemente cantar as dores da vida, o de Coimbra muitas vezes canta a beleza daquilo que a vida nos deu e que o tempo levou.

E essa diferença me encantou profundamente.

Como músico, compositor e apaixonado pela poesia, senti naquele concerto uma emoção difícil de traduzir.

Não estava apenas ouvindo canções.

Estava conhecendo uma tradição na qual a música, a literatura e a memória se abraçam.

Houve momentos em que me pareceu que aquelas guitarras não tocavam apenas suas cordas, mas também algumas cordas escondidas dentro de nós.

Saí daquele concerto com a agradável sensação de ter descoberto um novo universo musical e com a certeza de que Coimbra não havia conquistado apenas minha admiração: havia conquistado também um pedaço do meu coração.

Coimbra possui essa beleza singular: é jovem pela alma universitária, antiga pela história e eternamente romântica pelas canções que ecoam em suas ruas.

AVEIRO — A DELICADEZA DOS CANAIS

Aveiro nos recebeu com a delicadeza de seus canais, seus moliceiros coloridos, suas construções elegantes e seus tradicionais ovos-moles.

Conhecida como a Veneza portuguesa, a cidade possui uma beleza própria, mais discreta, mas igualmente encantadora.

Seus barcos coloridos deslizam pelas águas, enquanto as fachadas revestidas de azulejos e os edifícios de inspiração Arte Nova conferem às ruas uma personalidade singular.

Uma cidade acolhedora, onde a água parece passear tranquilamente entre as casas e o tempo parece caminhar sem pressa.

Foi mais uma agradável descoberta nesse mosaico de encantos portugueses.

PORTO E VILA NOVA DE GAIA — DUAS CIDADES, UM MESMO RIO

E então chegamos ao Porto. Um

Uma cidade de personalidade marcante, onde a história se mistura aos sabores, às tradições e à beleza do majestoso Douro.

Suas pontes imponentes, a encantadora Ribeira, suas igrejas revestidas de azulejos, suas ruas históricas e a generosidade de sua gastronomia fizeram do Porto um dos capítulos mais saborosos da nossa jornada.

O Porto não parece preocupado em seduzir o visitante.

Simplesmente se apresenta como é: autêntico, histórico, acolhedor e cheio de personalidade.

E, do outro lado do Douro, encontramos Vila Nova de Gaia, inseparável do Porto pela geografia, pela história e, sobretudo, pelo vinho.

Gaia nos encantou com sua orla movimentada, suas paisagens privilegiadas e suas tradicionais caves, onde repousam alguns dos vinhos mais famosos do mundo.

Dali, contemplar o Porto, com suas construções antigas descendo pelas encostas até encontrar o rio, é assistir a um espetáculo de rara beleza.

As duas cidades parecem conversar permanentemente através das águas do Douro, unidas por pontes que são muito mais do que obras de engenharia: são verdadeiros símbolos de uma história compartilhada.

E foi justamente em Gaia que compreendi um pouco melhor a importância do vinho para a cultura portuguesa.

Aquelas caves não guardam apenas barris.

Guardam tradições familiares, conhecimentos transmitidos por gerações e uma relação quase afetiva entre o homem, a terra e o tempo.

O DOURO — UMA PAISAGEM QUE PARECE PINTADA À MÃO

Mas Portugal ainda nos reservava um dos cenários mais extraordinários de toda a viagem: o Vale do Douro.

Ali, a natureza parece ter decidido reunir seus mais belos recursos para criar uma paisagem de rara poesia.

Montanhas cobertas de vinhedos, encostas cuidadosamente desenhadas pela mão humana e um rio que serpenteia serenamente entre elas compõem um espetáculo difícil de descrever.

E tivemos o privilégio de realizar um inesquecível passeio de barco pelas águas do Douro.

Enquanto nossa embarcação avançava, descortinavam-se paisagens de uma beleza quase inacreditável.

Nas encostas, inúmeras vinícolas e quintas tradicionais exibiam seus vinhedos cuidadosamente organizados em socalcos, formando desenhos harmoniosos que acompanhavam cada curva das montanhas.

Entre aquelas paisagens, surgiam antigas construções, pequenas povoações e vestígios de um passado que parecia observar silenciosamente a passagem do tempo.

E havia ainda os impressionantes desfiladeiros, com suas encostas abruptas, lembrando, em determinados trechos, aqueles fiordes majestosos que costumamos admirar em fotografias de países distantes.

Paisagens de cair o queixo!

O rio serpenteava entre as montanhas, revelando a cada curva um cenário ainda mais surpreendente.

Por alguns instantes, tive a sensação de que estávamos navegando dentro de uma pintura, daquelas que um artista levaria anos tentando reproduzir e que a natureza, generosamente, havia criado sem esforço aparente.

Mas o mais bonito daquele passeio não estava apenas nas paisagens.

Estava também na companhia, nos comentários de admiração, nas fotografias, nas brincadeiras e nos brindes que acompanhavam nossa contemplação.

Ali compreendi que algumas das maiores riquezas da vida não podem ser compradas nem guardadas.

Só podem ser vividas.

OS VINHOS — UMA DESCOBERTA INESPERADA

Preciso registrar uma descoberta pessoal.

Confesso que nunca fui um grande apreciador de vinhos.

Sempre admirei sua tradição, mas não havia desenvolvido a sensibilidade necessária para degustá-los com entusiasmo.

Entretanto, Portugal começou a modificar essa relação.

Entre tintos, brancos e o tradicional vinho do Porto, aprendi a observar aromas, apreciar sabores e compreender que degustar um vinho é também conhecer a história de uma terra, sua cultura e suas tradições.

Descobri, sobretudo, que o melhor vinho nem sempre é aquele de maior prestígio, mas aquele que compartilhamos com pessoas especiais, em momentos que gostaríamos de prolongar.

Não voltei propriamente um especialista, mas certamente um aprendiz mais interessado!

E seria uma injustiça histórica deixar de registrar o comportamento de alguns integrantes da nossa comitiva.

Havia entre nós determinados companheiros aparentemente comprometidos com a nobre e dificílima missão de acabar com os estoques de bebidas das terras lusitanas!

Era impressionante o espírito de sacrifício daqueles abnegados!

Enquanto alguns contemplavam monumentos, admiravam paisagens e estudavam a história portuguesa, outros demonstravam um interesse quase científico pelo patrimônio líquido nacional.

Não descansavam diante de uma adega, não recuavam perante uma garrafa e jamais abandonavam um brinde pela metade!

Suspeito, inclusive, que algumas vinícolas tenham precisado rever seus planejamentos de produção após a passagem da nossa expedição.

Felizmente, Portugal possui uma tradição vinícola suficientemente robusta para resistir a tamanho entusiasmo.

Caso contrário, poderíamos ter provocado uma crise de abastecimento e, quem sabe, até um incidente diplomático entre as duas nações!

Mas foram justamente essas brincadeiras, os brindes e as gargalhadas que deram à viagem um sabor tão especial.

Porque a amizade também se alimenta dessas pequenas irreverências que, com o passar dos anos, transformam-se nas histórias mais divertidas de recordar.

A GASTRONOMIA — PORTUGAL TAMBÉM SE CONHECE À MESA

Ah, a culinária portuguesa!

Uma deliciosa combinação de tradição, simplicidade, generosidade e sabores que parecem ter sido aperfeiçoados ao longo de séculos.

E, naturalmente, o bacalhau ocupou lugar de honra em nossas mesas.

Descobrimos que os portugueses conseguiram transformar esse peixe numa verdadeira instituição nacional.

Assado, à Brás, com natas, à lagareiro ou preparado de tantas outras maneiras, o bacalhau parecia apresentar-se a cada refeição com uma nova personalidade.

E o mais curioso é que, por mais que o repetíssemos, sempre havia uma nova receita capaz de despertar nossa curiosidade.

Mas preciso fazer justiça a outro protagonista das nossas experiências gastronômicas:

O robalo!

Que peixe extraordinário!

Preparado com aquela simplicidade elegante que caracteriza a boa cozinha portuguesa, frequentemente grelhado, acompanhado de azeite, batatas e legumes, o robalo revelou sabores delicados, textura admirável e um frescor que dispensava qualquer sofisticação exagerada.

Às vezes, a grandeza de uma refeição está justamente na capacidade de respeitar o sabor natural dos seus ingredientes.

E entre bacalhaus, robalos, azeites generosos, doces conventuais, pastéis de nata e tantos outros encantos, fomos descobrindo que Portugal também sabe conquistar seus visitantes pelo paladar.

Aliás, nossas refeições mereceriam um capítulo à parte.

Mesas fartas, conversas demoradas, histórias repetidas com novos detalhes e aquela agradável sensação de que ninguém tinha pressa de levantar.

Porque, entre amigos, uma boa refeição nunca termina quando acaba a comida.

Termina quando se esgotam os assuntos, o que, convenhamos, raramente aconteceu com nosso grupo!

A AMIZADE — O MELHOR DESTINO DE QUALQUER VIAGEM

Ao longo daqueles dias, fui percebendo algo que talvez seja uma das grandes verdades da vida.

Por mais deslumbrantes que sejam as cidades, por mais imponentes que sejam os monumentos e por mais encantadoras que sejam as paisagens, nenhuma viagem alcança sua plenitude sem a alegria de uma boa companhia.

Foram os amigos que deram vida aos passeios, alegria às refeições, descontração aos jantares e significado aos brindes.

Foram eles que transformaram pequenos imprevistos em episódios engraçados, longos trajetos em conversas agradáveis e momentos aparentemente simples em lembranças preciosas.

Quantas risadas!

Quantas histórias!

Quantas conversas que começaram sem compromisso e terminaram deixando a sensação de que ainda havia tanto a dizer!

Quantos brindes à vida, à amizade e, em alguns casos, provavelmente à simples existência de mais uma garrafa disponível!

A verdade é que fomos felizes.

Felizes de uma maneira simples, espontânea, sem grandes exigências ou preocupações.

Felizes porque estávamos juntos.

E talvez seja essa uma das mais belas conquistas da maturidade: compreender que a verdadeira riqueza da vida não está na quantidade de lugares que conhecemos, mas na qualidade dos afetos que cultivamos pelo caminho.

Afinal, monumentos podem ser fotografados, paisagens podem ser revisitadas e restaurantes podem ser recomendados.

Mas a alegria de uma boa companhia não se reproduz por encomenda.

Ela simplesmente acontece.

E, quando acontece, transforma uma viagem em algo muito maior do que um deslocamento geográfico.

Transforma-a numa experiência humana.

A SAUDADE — AQUILO QUE O TEMPO NÃO NOS DEIXA TRAZER

Agora, quando nossa jornada chegou ao fim, surgiu inevitavelmente aquele sentimento que os portugueses souberam traduzir numa palavra tão pequena e, ao mesmo tempo, tão imensa:

SAUDADE!

Saudade das manhãs em que acordávamos curiosos para descobrir o próximo destino.

Saudade das paisagens, das ruas antigas, dos monumentos, das refeições demoradas e das mesas onde a conversa parecia nunca terminar.

Saudade das brincadeiras, das gargalhadas, dos brindes e até das discussões sobre qual seria o próximo passeio ou restaurante.

Saudade daquela agradável certeza de que, no dia seguinte, estaríamos novamente juntos, compartilhando novas experiências.

E é curioso perceber como o tempo se comporta.

Nos momentos difíceis, parece caminhar lentamente.

Mas, quando estamos felizes, adquire uma pressa quase cruel.

Não nos pergunta se queremos prolongar um abraço, repetir uma conversa, contemplar mais um pôr do sol ou brindar mais uma vez.

Simplesmente passa.

E, quando percebemos, aquilo que ontem era expectativa já se transformou em lembrança.

Regressamos com as malas cheias, os celulares repletos de fotografias, algumas calorias extras e o coração transbordando gratidão.

Mas trouxemos também algo que não pesa na bagagem e, paradoxalmente, é o que mais sentimos:

A saudade.

A saudade de um tempo que gostaríamos de guardar inteiro, mas que só podemos conservar em fragmentos de memória.

Talvez um dia regressemos a Portugal.

Talvez voltemos a contemplar o Tejo, caminhar pelas ruas de Lisboa, admirar os palácios de Sintra, percorrer as muralhas de Óbidos, rever o mar de Nazaré, contemplar a grandiosidade do Mosteiro da Batalha, rezar em Fátima, ouvir novamente o fado de Coimbra, passear pelos canais de Aveiro, admirar o Porto a partir de Gaia e navegar outra vez pelas águas do Douro.

Talvez possamos saborear novamente um bom bacalhau, um delicioso robalo e aqueles vinhos que aprendemos a apreciar com mais entusiasmo.

Talvez os nossos incansáveis apreciadores de vinho retornem para concluir aquela missão que, felizmente para a economia portuguesa, ficou inacabada!

Mas existe uma certeza que nenhuma viagem consegue modificar.

Podemos voltar aos mesmos lugares, reencontrar as mesmas pessoas e repetir os mesmos caminhos.

O que jamais conseguiremos é regressar ao tempo exato em que fomos tão felizes.

Porque a vida não nos permite guardar os instantes.

Permite-nos apenas vivê-los intensamente e, depois, transformá-los em lembranças.

E talvez seja essa a beleza mais profunda de tudo o que experimentamos.

A consciência de que fomos felizes enquanto o tempo passava, mesmo sem percebermos que aqueles dias, tão comuns enquanto aconteciam, um dia nos fariam tanta falta.

Hoje, ao recordar nossa passagem pelas terras lusitanas, percebo que Portugal nos ofereceu muito mais do que belas paisagens.

Ofereceu-nos história, cultura, música, sabores, espiritualidade e a oportunidade de refletir sobre aquilo que verdadeiramente importa.

Lisboa mostrou-nos a grandeza do passado.

Sintra, a beleza dos sonhos.

Óbidos, o encanto dos livros.

Nazaré, a força da natureza.

Batalha, a permanência da história.

Fátima, a serenidade da fé.

Coimbra, a poesia da música.

Aveiro, a delicadeza das coisas simples.

Porto e Gaia, a harmonia entre tradição e modernidade.

E o Douro, com suas águas e vinhedos, mostrou-nos que a natureza também sabe escrever poemas.

Cada cidade deixou uma lembrança.

Cada paisagem despertou uma emoção.

Cada encontro acrescentou uma página à nossa história.

E, para concluir, deixo uma reflexão que talvez traduza melhor tudo aquilo que essa experiência me ensinou:

Viajar é descobrir que o mundo é grande demais para conhecermos por inteiro, mas generoso o suficiente para nos oferecer momentos que cabem eternamente no coração.

Do Tejo ao Douro, percorremos caminhos, conhecemos histórias e contemplamos paisagens que certamente permanecerão em nossa memória.

Trouxemos fotografias, sorrisos, experiências e lembranças.

Mas ficou pelo caminho aquilo que mais gostaríamos de trazer: o tempo em que vivemos tudo isso.

E a saudade, essa companheira inevitável das grandes alegrias, talvez seja apenas o coração tentando regressar aonde o tempo já não nos permite voltar.

Porque há viagens que terminam quando chegamos em casa.

E há outras que nunca terminam, porque continuam viajando dentro de nós.

Esta certamente será uma delas.

E que a vida ainda nos reserve muitos caminhos para percorrer, livros para ler, músicas para ouvir, amigos para abraçar, sonhos para realizar e histórias para contar.

Afinal, não são os anos que dão grandeza à nossa existência, mas a intensidade, o amor e a beleza dos momentos que conseguimos viver.

E, se a vida é uma viagem sem passagem de volta, que nunca nos faltem coragem para partir, sensibilidade para contemplar e um coração suficientemente jovem para continuar se encantando.

Com carinho, gratidão, uma pontinha de irreverência e uma imensa saudade.


Otávio Pinho

Médico, poeta, músico e compositor

Membro da Academia Bacabalense de Letras — Cadeira nº 25, cujo patrono é o músico e compositor Papete.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ROBERTO COSTA, UM EXEMPLO DE GESTÃO

 

A Prefeitura de Bacabal realizou, na manhã de ontem, terça-feira (3), uma fiscalização no residencial Santa Marina para notificar os responsáveis por construções irregulares que estavam comprometendo a circulação nas vias públicas do bairro.

A fiscalização foi determinada pelo prefeito Roberto Costa, que esteve no bairro na segunda-feira (2) e constatou pessoalmente irregularidades em obras particulares. Indignado com a situação, o prefeito publicou um vídeo em suas redes sociais informando as medidas para garantir a desobstrução das ruas.

“Pessoal, leis e regras existem para ser cumpridas, e não vamos aceitar o desrespeito que vem acontecendo aqui no Santa Marina. Já determinei à Secretaria de Obras que notifique os responsáveis para que retirem os materiais e desobstruam imediatamente as ruas”, afirmou o prefeito.

Durante a visita, Roberto Costa identificou areia, tijolos e outros materiais de construção ocupando parte das ruas, dificultando e, em alguns pontos, até impedindo a passagem de carros, motos, bicicletas e pedestres. Em um dos imóveis, foi identificada, inclusive, uma calçada construída sobre o asfalto.

Em cumprimento à determinação do prefeito, equipes da Secretaria Municipal de Obras estiveram no bairro, na manhã desta terça-feira, para notificar os responsáveis pelas irregularidades. A ação contou com o apoio da Guarda Municipal e do Departamento Municipal de Trânsito.

A fiscalização abrange todo o residencial Santa Marina e seguirá até que todas as ruas sejam desobstruídas.

“Somos a favor do desenvolvimento e vamos continuar apoiando os investimentos que ajudam nossa cidade a crescer. Mas tudo precisa ser feito dentro da lei, respeitando o direito de ir e vir e a segurança da população”, finalizou Roberto Costa

MARANHENSES VOTAM A FAVOR E A PEC DA SEGURANÇA PUBLICA É APROVADA

Depois de alguns anos de debate, o Senado, na noite de ontem, terça-feira (03), aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que estabelece novas regras para o combate ao crime organizado no Brasil.

A PEC já havia sido aprovada na Câmara Federal, mas precisava do aval do Senado. O principal entrave para a aprovação era a questão da redução da maioridade penal, já que governistas queriam debater o assunto fora da PEC, enquanto que oposicionistas queriam incluir a pauta na votação.

Por votação, os senadores rejeitaram uma emenda da oposição que permitia votar, em conjunto, a redução da maioridade penal. Por apenas um voto de diferença, ficou estabelecido que a votação da redução da maioridade penal acontecerá em outro momento.

Suprimido o debate de incluir a redução da maioridade penal na PEC, a aprovação foi tranquila e por unanimidade. No primeiro turno, o placar ficou em 73 a favor, e nenhum contra. No segundo turno, o placar foi de 75 a 0. Os três senadores maranhenses – Ana Paula Lobado (PSB), Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PT) – votaram a favor da PEC nos dois turnos.

A PEC prevê maior integração entre as forças de segurança, mudanças no sistema prisional e medidas mais rigorosas contra integrantes de facções criminosas e milícias

COM A PALAVRA - O BASQUETE FEMININO DO MARANHÃO: BRILHO NA ELITE, SOMBRA NA REALIDADE LOCAL - POR DR. GILMAR PEREIRA

   

O BASQUETE FEMININO DO MARANHÃO: BRILHO NA ELITE, SOMBRA NA REALIDADE LOCAL 

Apesar dos títulos do Sampaio Basquete, a desconexão com o desenvolvimento de atletas locais gera debate e preocupação

O professor Paulo Roberto Tinoco Silva, ex-presidente da Federação Maranhense de Basquetebol, publicou um artigo intitulado "Liga de Basquete Feminina – LBF: Missão (quase) impossível" no Jornal Pequeno, edição do dia 17/07/2026. O artigo aborda o basquete feminino do Maranhão que, na competição nacional deste ano, com o nome de fantasia Sampaio Basquete, tem sido descrito como sem o "DNA maranhense", mesmo possuindo o melhor plantel, o maior orçamento e inúmeros patrocinadores, inclusive com o apoio do Governo do Estado. Paulo Tinoco finaliza o texto criticando o regulamento que impacta negativamente o crescimento técnico das representações regionais e nacionais da modalidade, e descreve sua trajetória como técnico de basquete.

O mencionado artigo despertou minha curiosidade para entender o motivo do sucesso e as consequências desse esporte para o desenvolvimento dessa modalidade esportiva em nosso estado.

Fundação

O Sampaio Basquete foi fundado no ano de 2012 com a ajuda de Iziane Castro Marques, jogadora maranhense que estava sem contrato nesse período. O time estreou na Liga de Basquete Feminina (LBF) no mesmo ano. Na primeira temporada, ficou em sexto lugar; na segunda, em terceiro. Nos anos de 2013 e 2014, disputou as semifinais.

A partir de 2015 e 2016, o Sampaio Basquete passou a ser destaque, mantendo o Maranhão na elite do basquete feminino nacional. A partir desse período, Iziane não estava mais atuando como atleta da equipe.

No ano de 2015, o Sampaio Basquete começou a contratar técnicos, atletas da Seleção Brasileira e estrangeiras. O Sampaio Basquete conquistou os títulos das temporadas 2015/2016, 2019 e 2022.

Patrocínio

O Sampaio Basquete é mantido pela Lei de Incentivo ao Esporte do Maranhão (Lei nº 9.436/2011), que funciona por meio de isenção fiscal do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), e é patrocinado pela Equatorial. O Grupo Mirante atua como parceiro na cobertura dos jogos.

Escolinhas de base

O Sampaio Basquete possui escolinhas de base oficiais voltadas para a formação de jovens, que funcionam no formato de projetos sociais e de inclusão pelo esporte. O núcleo de basquete adota uma abordagem integrada ao desenvolvimento educacional e comunitário. O projeto conta com núcleos na capital maranhense, incluindo o polo expandido no bairro do Angelim, situado na sede da Renovação Carismática Católica (RCC).

A principal meta é utilizar o basquete como uma ferramenta de educação, saúde e inclusão social para crianças e adolescentes da região.

Nos períodos de inscrição promovidos pela diretoria, as famílias das crianças selecionadas costumam receber materiais esportivos completos e auxílio com cestas básicas.

As escolinhas são integralmente viabilizadas por meio do suporte do Governo do Estado do Maranhão, da Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (SEDEL) e do patrocínio da Equatorial Maranhão.

O clube também participa ativamente de clínicas temporárias e workshops do programa LBF nas Escolas, levando as atletas profissionais para treinar e inspirar os alunos da rede de ensino local.

O perfil dos torcedores do Sampaio Basquete que frequentam as quadras

O público que frequenta os jogos do Sampaio Basquete nos ginásios é formado por adeptos do esporte, famílias, jovens, crianças e fãs que participam de campanhas, como a troca de ingressos por alimentos.

Salário das atletas

Os salários das jogadoras do Sampaio Basquete não são divulgados. Entretanto, no cenário nacional da modalidade, a média salarial para atletas de basquete sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) gira em torno de R$ 4.800,00 e pode chegar a R$ 17.000,00 para atletas de alto nível. Os valores para jogadoras de elite internacional de clube podem ultrapassar esse teto por meio de contratos de imagem.

Será que o sucesso do Sampaio Basquete acaba tendo alguma influência nas categorias de base do esporte local?

Pelo que se sabe, neste período de quatorze anos da criação do time do Sampaio Basquete, não se tem notícias de que nenhuma atleta de base tenha se destacado até agora. Nenhuma atleta maranhense faz parte da equipe principal da temporada atual. É impossível imaginar quando uma atleta nativa fará parte da equipe principal do Sampaio Basquete; se essa tendência se mantiver, isso não acontecerá tão cedo.

Qual a contribuição do Sampaio Basquete para o Maranhão nesta modalidade esportiva?

A contribuição do Sampaio Basquete para o Maranhão é a colocação do estado como uma potência do basquete feminino no Norte e Nordeste, quebrando a hegemonia de clubes do Sudeste na Liga de Basquete Feminino (LBF).

No futuro, as escolinhas de base mantidas pelo Sampaio Basquete podem revelar atletas para integrar o time principal?

Como o foco atual das escolinhas é predominantemente a inclusão social e a cidadania, transformar jovens maranhenses em atletas da Liga de Basquete Feminino (LBF) requer investimentos específicos a longo prazo.

A manutenção dos patrocínios via Lei de Incentivo ao Esporte garante a continuidade dos treinos, permitindo que uma criança inicie na modalidade e evolua tecnicamente ao longo dos anos.

É recomendável investir nesse tipo de patrocínio para o Sampaio Basquete? Não seria também viável investir em clubes locais que têm atletas profissionais?

Investir no Sampaio Basquete é altamente recomendável para marcas que buscam visibilidade nacional e associação à elite esportiva, enquanto o aporte em clubes locais focados em atletas nativos atende melhor a objetivos de forte impacto social e desenvolvimento regional. Ambos os modelos de patrocínio são viáveis, mas entregam retornos financeiros e institucionais completamente diferentes.

Pelo que se constata, o basquete praticado pela equipe do Sampaio Basquete está totalmente desconectado da realidade esportiva local. Tirem suas conclusões.

                                          

 Gilmar Pereira Santos é advogado poeta, compositor e escritor de livros infantis.