
O BASQUETE FEMININO DO MARANHÃO: BRILHO NA ELITE, SOMBRA NA REALIDADE LOCAL
Apesar dos títulos do Sampaio Basquete, a desconexão com o desenvolvimento de atletas locais gera debate e preocupação
O professor Paulo Roberto Tinoco Silva, ex-presidente da Federação Maranhense de Basquetebol, publicou um artigo intitulado "Liga de Basquete Feminina – LBF: Missão (quase) impossível" no Jornal Pequeno, edição do dia 17/07/2026. O artigo aborda o basquete feminino do Maranhão que, na competição nacional deste ano, com o nome de fantasia Sampaio Basquete, tem sido descrito como sem o "DNA maranhense", mesmo possuindo o melhor plantel, o maior orçamento e inúmeros patrocinadores, inclusive com o apoio do Governo do Estado. Paulo Tinoco finaliza o texto criticando o regulamento que impacta negativamente o crescimento técnico das representações regionais e nacionais da modalidade, e descreve sua trajetória como técnico de basquete.
O mencionado artigo despertou minha curiosidade para entender o motivo do sucesso e as consequências desse esporte para o desenvolvimento dessa modalidade esportiva em nosso estado.
Fundação
O Sampaio Basquete foi fundado no ano de 2012 com a ajuda de Iziane Castro Marques, jogadora maranhense que estava sem contrato nesse período. O time estreou na Liga de Basquete Feminina (LBF) no mesmo ano. Na primeira temporada, ficou em sexto lugar; na segunda, em terceiro. Nos anos de 2013 e 2014, disputou as semifinais.
A partir de 2015 e 2016, o Sampaio Basquete passou a ser destaque, mantendo o Maranhão na elite do basquete feminino nacional. A partir desse período, Iziane não estava mais atuando como atleta da equipe.
No ano de 2015, o Sampaio Basquete começou a contratar técnicos, atletas da Seleção Brasileira e estrangeiras. O Sampaio Basquete conquistou os títulos das temporadas 2015/2016, 2019 e 2022.
Patrocínio
O Sampaio Basquete é mantido pela Lei de Incentivo ao Esporte do Maranhão (Lei nº 9.436/2011), que funciona por meio de isenção fiscal do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), e é patrocinado pela Equatorial. O Grupo Mirante atua como parceiro na cobertura dos jogos.
Escolinhas de base
O Sampaio Basquete possui escolinhas de base oficiais voltadas para a formação de jovens, que funcionam no formato de projetos sociais e de inclusão pelo esporte. O núcleo de basquete adota uma abordagem integrada ao desenvolvimento educacional e comunitário. O projeto conta com núcleos na capital maranhense, incluindo o polo expandido no bairro do Angelim, situado na sede da Renovação Carismática Católica (RCC).
A principal meta é utilizar o basquete como uma ferramenta de educação, saúde e inclusão social para crianças e adolescentes da região.
Nos períodos de inscrição promovidos pela diretoria, as famílias das crianças selecionadas costumam receber materiais esportivos completos e auxílio com cestas básicas.
As escolinhas são integralmente viabilizadas por meio do suporte do Governo do Estado do Maranhão, da Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (SEDEL) e do patrocínio da Equatorial Maranhão.
O clube também participa ativamente de clínicas temporárias e workshops do programa LBF nas Escolas, levando as atletas profissionais para treinar e inspirar os alunos da rede de ensino local.
O perfil dos torcedores do Sampaio Basquete que frequentam as quadras
O público que frequenta os jogos do Sampaio Basquete nos ginásios é formado por adeptos do esporte, famílias, jovens, crianças e fãs que participam de campanhas, como a troca de ingressos por alimentos.
Salário das atletas
Os salários das jogadoras do Sampaio Basquete não são divulgados. Entretanto, no cenário nacional da modalidade, a média salarial para atletas de basquete sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) gira em torno de R$ 4.800,00 e pode chegar a R$ 17.000,00 para atletas de alto nível. Os valores para jogadoras de elite internacional de clube podem ultrapassar esse teto por meio de contratos de imagem.
Será que o sucesso do Sampaio Basquete acaba tendo alguma influência nas categorias de base do esporte local?
Pelo que se sabe, neste período de quatorze anos da criação do time do Sampaio Basquete, não se tem notícias de que nenhuma atleta de base tenha se destacado até agora. Nenhuma atleta maranhense faz parte da equipe principal da temporada atual. É impossível imaginar quando uma atleta nativa fará parte da equipe principal do Sampaio Basquete; se essa tendência se mantiver, isso não acontecerá tão cedo.
Qual a contribuição do Sampaio Basquete para o Maranhão nesta modalidade esportiva?
A contribuição do Sampaio Basquete para o Maranhão é a colocação do estado como uma potência do basquete feminino no Norte e Nordeste, quebrando a hegemonia de clubes do Sudeste na Liga de Basquete Feminino (LBF).
No futuro, as escolinhas de base mantidas pelo Sampaio Basquete podem revelar atletas para integrar o time principal?
Como o foco atual das escolinhas é predominantemente a inclusão social e a cidadania, transformar jovens maranhenses em atletas da Liga de Basquete Feminino (LBF) requer investimentos específicos a longo prazo.
A manutenção dos patrocínios via Lei de Incentivo ao Esporte garante a continuidade dos treinos, permitindo que uma criança inicie na modalidade e evolua tecnicamente ao longo dos anos.
É recomendável investir nesse tipo de patrocínio para o Sampaio Basquete? Não seria também viável investir em clubes locais que têm atletas profissionais?
Investir no Sampaio Basquete é altamente recomendável para marcas que buscam visibilidade nacional e associação à elite esportiva, enquanto o aporte em clubes locais focados em atletas nativos atende melhor a objetivos de forte impacto social e desenvolvimento regional. Ambos os modelos de patrocínio são viáveis, mas entregam retornos financeiros e institucionais completamente diferentes.
Pelo que se constata, o basquete praticado pela equipe do Sampaio Basquete está totalmente desconectado da realidade esportiva local. Tirem suas conclusões.
Gilmar Pereira Santos é advogado poeta, compositor e escritor de livros infantis.