O sonho dobrado na bolsa
A chuva despencava sobre São Luís Gonzaga do Maranhão como se tentasse lavar as irregularidades do calçamento de pedra, mas lá embaixo, onde o asfalto se misturava à lama, a cidade apenas parecia se fechar em uma melancolia cinzenta. Dalva estava encostada na moldura da porta do bar "Esquina da Sorte", observando as gotas pesadas formarem cortinas translúcidas sobre o mundo. O cheiro de terra molhada se fundia ao aroma barato de cigarro e ao perfume adocicado que ela usava para tentar mascarar a rotina.
Seu reflexo na vidraça embaçada mostrava uma mulher que o espelho insistia em datar, mas que os olhos, ainda ávidos, se recusavam a aceitar. Dalva não era apenas o corpo que circulava entre os homens que buscavam esquecimento ou companhia barata. Dentro de sua cabeça, ela ainda guardava o caderno de caligrafia que um antigo professor, lá no tempo de menina, havia chamado de "o mais bonito da turma". Ela ainda era a menina que sonhava em ser costureira de vestidos de noiva, alguém que desenhava rendas nos cadernos como se pudesse, de fato, tecer um destino diferente.
Um carro passou devagar, as luzes dos faróis cortando a penumbra, e ela sentiu o calafrio que qualquer mulher na rua conhece bem: o misto de vulnerabilidade e a necessidade de não se deixar abater pelo medo. Ela ajeitou a franja com os dedos, um hábito nervoso que mantinha desde a adolescência em Carolina, antes de a vida tomar os rumos de espinho e poeira que a trouxeram até ali.
— Está vindo alguém, Dalva? — Perguntou Joca, o dono do bar, enquanto limpava o balcão com um pano encardido de tão usado.
Dalva não respondeu de imediato.
— Você podia ter outra vida. — Disse Joca.
— Escolha é palavra bonita quando a barriga já jantou.
Ela observou um grupo de rapazes rindo na mesa do canto, ignorantes quanto à existência dela, exceto pelas vezes em que precisavam de um olhar ou de um consolo passageiro. "Humanizar" era uma palavra que ela nunca usara, mas sentia na pele a falta que ela fazia. Para aqueles homens, ela não tinha biografia, não tinha infância, não tinha planos para além do próximo pôr-do-sol. Ela era a paisagem noturna, a funcionalidade da carne, um vulto que atravessava a calçada.
Pensou em sua mãe, na casa de taipa que ficara para trás. Pensou em como, se a vissem naquele momento, a julgariam pela régua da moralidade alheia, sem nunca perguntar quanto custou a ela manter a sanidade.
A prostituição, para Dalva, não era uma "escolha" feita em um escritório, mas uma deriva que foi acontecendo centímetro a centímetro, perna a perna, degrau a degrau, até que o solo embaixo dela já era outro. Ela se lembrava de ser amada, de ter sentido a pele ser tocada com respeito, algo que parecia ter ficado preso em algum ano anterior à virada do milênio.
A chuva aumentou, o som nas telhas de zinco tornando-se um rufar de tambores de guerra. Dalva sentiu um aperto no peito, uma vontade quase infantil de correr para debaixo de algum telhado seguro, mas não havia para onde ir. O seu "lugar" era ali, onde as esquinas de outrora se confundiam com a precariedade do agora. Ela olhou para a própria mão, enfeitada com um anel de bijuteria barata que soltava tinta verde nos dedos. Ainda havia ali a beleza das mãos que um dia desenharam rendas.
— A vida não é o que a gente faz quando não tem saída, Joca. — Ela disse, de repente, quebrando o silêncio do bar.
Joca parou a limpeza, confuso.
— Falou alguma coisa, Dalva?
Nada. — Ela forçou um sorriso, um daqueles que usava como armadura. — Só estava pensando que essa chuva vai estragar o movimento.
Mas não era pelo movimento que ela chorava por dentro. Era pelo reconhecimento de que, embora a rua estivesse cheia de homens, ela se sentia como se vivesse em um vácuo.
Foi então que a porta do bar se abriu outra vez. Um menino de não mais que oito anos entrou correndo, encharcado da cabeça aos pés. Apertava contra o peito um caderno protegido por um saco plástico já rasgado nas pontas.
Olhou para dentro do salão com a timidez de quem sabia que aquele não era um lugar para crianças.
— Moço... tem um copo d'água?
Joca apontou com o queixo para o balcão.:
— Dalva, pega uma água pra ele.
Ela encheu um copo de alumínio e o entregou. O menino bebeu depressa, respirou fundo e devolveu o copo com as duas mãos. Nesse instante, seus olhos encontraram os dela. Não havia curiosidade. Não havia malícia. Nem julgamento. Apenas gratidão.
— Obrigado, dona.
Dalva demorou um segundo para responder. Havia muito tempo ninguém lhe dirigia uma palavra tão simples. Sorriu sem perceber.
— Vai com cuidado. A chuva ainda não terminou.
O menino fez que sim com a cabeça, apertou novamente o caderno contra o peito e saiu correndo pela rua molhada. Dalva acompanhou seus passos até que desaparecessem atrás da cortina de chuva. Então olhou para as próprias mãos. As mesmas mãos que tantos conheciam sem jamais cumprimentar naquela noite, sentiram que ainda existia fora do papel que o mundo insistia em lhe dar.
Ao ver uma luz tremeluzir na poça de água à sua frente, Dalva se lembrou do vestido de noiva que nunca costurou nem vestiu.
Pouco depois, a chuva começou a perder força. As gotas grossas transformaram-se em pingos espaçados, até que restou apenas o som da água escorrendo pelas calhas enferrujadas.
Joca apagou uma das luzes do bar.
— Pode fechar, Dalva. Hoje a noite morreu mais cedo.
Ela apenas assentiu. Empurrou a cadeira para debaixo da mesa, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou devagar até a porta. Antes de sair, abriu a bolsa de couro já gasta pelo tempo.
Entre um batom sem tampa, um pente de dentes quebrados e algumas notas dobradas, retirou um pedaço de papel amarelado. Desdobrou-o com o cuidado de quem toca uma fotografia antiga. Era um desenho. Um vestido de noiva. A renda havia sido desenhada a lápis, com linhas delicadas que o tempo quase apagara. Dalva passou a ponta dos dedos sobre o papel.
Sorriu. Não um sorriso de felicidade. Mas de reconhecimento. Dobrou novamente o desenho, alisando cada vinco com paciência, e guardou-o de volta na bolsa. Então saiu. A rua ainda brilhava sob a água da chuva na terra do cuxá. Ela caminhou sem pressa entre as poças que refletiam as luzes dos postes. Naquela noite, ninguém a chamou. Ninguém a assobiou. Ninguém lhe pediu nada. Era apenas uma mulher atravessando a cidade. E, por alguns quarteirões, isso lhe pareceu suficiente.
José Casanova