Mm
Acalanto sem fim
Respiro...
Abro os olhos mais uma vez
Para acalantar o meu próprio pranto
E te vejo
Como das outras vezes
Distante
Ontem
Um dia que não vivemos
O futuro que não temos
Somos assim: misto de heresia e euforia
Euforia que nos condenou a vivermos
O que vivemos agora
Somos assim: amor verdadeiro, inteiro
Sem começo
Meio e fim
Somos assim: dor e sofrimento
Medo distante
Saudade constante do sonho
Que nem mesmo tivemos a coragem de viver
Somos assim: lua e calçada
verso e madrugada
canção e benquerer
somos assim: medo e fim.
Abel Carvalho
Eu mereço
Eu mereço toda dor que tenho
Todo sofrimento que é meu
Eu mereço morrer de saudade
Chorar prantos infindos por noites adentro
Eu mereço a vida que levo
A solidão e o isolamento em que vivo
Os castigos que me impus até hoje
A morte que não tenho coragem chamar
Eu mereço viver a farsa que plantei
Os males que reguei em solo fétido
Os odores que colhi fugindo de mim mesmo
O teu abandono que me corta e reprime
Eu mereço a vida que tenho
Eu quis assim...
Abel Carvalho
O último poema
Sei que hei de ruminar a dor a cada hora
A cada dia
A cada noite de luar
Hei de espargi o fel da minha mágoa
E me acalantar nos braços da saudade
Sei que hei de ignorar cada olhar
Fugir de cada encontro
E fingir que nada existe
Tapar a última fresta
E fazer morrer a réstia da esperança
Hei de acordar do sono
E torná-lo pesadelo
Porque esqueci que o sonho se sonha
Não se toca nem se vive
Sei que hei de pagar com meu suor da madrugada a heresia
E viver a letargia do querer
Hei de cegar meus olhos para não ver
Tornar surdos os meus ouvidos para não ouvir
Calar a minha voz para não falar
Cortar fora as minhas mãos para não tocar
E tornar insensível o meu olfato
Para não sentir teu cheiro
Sei que hei de errar pelas noites
Beber qual um náufrago no deserto
Sentir o frio das calçadas
Mas, sei que hei de ruminar a minha dor
Para que ninguém perceba.
ABEL CARVALHO
Não peço o Teu perdão
Não sei quantas vezes eu transpirei os meus medos
Medo da morte
Da minha morte e da morte dos meus
Medo da vida
Da minha vida e de tantas que eu destruir
Medo da sorte
Da falta dela...
E por mais que eu tenha transpirado
Eles nunca me deixaram
Sempre voltam
Aqui
Ali
Uma hora ou outra
Eles são assim
Fazem parte de mim
Da minha vida
Vivem nos meus dias
São as grandes marcas dos meus pesadelos
Convivem com a minha infinda insônia
Mas o maior medo que eu sinto
Não é do meu próprio sofrimento
É dos sofrimentos que causei
Dos filhos que não gerei
Das vidas que não cuidei
Talvez por isso vague assim todas as noites
Mesmo sem nunca sair das minhas próprias entranhas
Mesmo me protegendo em um mundo só meu
Por tudo que fiz
Pelas dores que causo e causei
Tenho medo de perder a Fé
Pois sei que Deus já não está comigo
Não blasfemo
Sofro
Não me arrependo e nem peço perdão
Sei que Alguém morreu pela minha redenção
Isso me aflige mais ainda
Pois tenho o perdão que não mereço
Por não saber entregar a outra face
E tenho pouco tempo
A vida me escapa por entre os dedos a cada dia
Num revés sem fim
Não conto mais o tempo
Não quero enlouquecer
Não conto as perdas
Não choro mais
Mas sinto a tua falta
Talvez seja esse o maior de todos os meus medos
Te perder...
Abel Carvalho
Apenas um dia
Não te venderei colunas, nem muralhas
e nem mesmo sonhos.
Não te venderei as ilusões próprias dos amores.
Não te prometerei os melhores dias,
Nem mesmo os maiores dissabores.
Não verterei utopias e nem mesmo tentarei mudar teus valores.
Apenas, se quiseres, te entregarei aquilo
Que me dissestes que querias,
Que sentes e que eu não sentia,
Mas que me veio calmo como um veio nasce,
Perene como correm as águas de um rio,
Constante com o entardecer de mais um dia que se vai,
Absoluto como o ardor do encandecer que o nascer do sol nos propicia.
Não te darei brotos, nem folhos, nem hipocrisia.
Se ainda quiseres, te darei apenas um dia,
Meio dia, uma hora ou meia hora, um ou meio minuto que seja,
Para que enfim me vejas, não como me vias,
Mas como eu te vejo,
E nesse tempo te roubaria apenas um beijo,
Beijo fruto do desejo que tu mesmo tu, me ensinastes a ter em apenas um dia.
Abel Carvalho
Ontem
É claro que não vivo os teus sonhos
Seria heresia
É claro que não sonho contigo todas as noites
Só algumas
Ontem sonhei contigo
Mesmo sem querer...
És bela
És tempo
És fim...
Onde estavas ontem?
Sei! Longe se mim...
Onde estás agora?
Aqui...
Longe de mim.
Queria te ter toda hora
Assim...
Um dia
Dois
Uma hora
Um momento sem fim
Outrora?
Muito antigo!
Não és assim...
Um passo
Um conto
Um terço
Um dia sem fim.
Uma hora
Eu ébrio
Teus olhos em mim..
O que sou?
Um homem...
Um dia longo e sem fim.
És hora
És tempo
És tudo enfim
Hoje....
Dois dias...
Tu em mim.
Tão pouco tempo
Um dia assim.
És cor
Sabor
Fulgor
Manhã de mim...
O quanto eu quero?
Não te digo...
Tenta adivinhar.
Abel Carvalho
Não sabes! Não sentes!
Não sabes a dor que sinto!
Não verto prantos, apenas espero por minha morte.
Não sabes.
Não sabes!
Nunca soubestes, e eu nem mesmo sei fingir.
Vivo tudo do meu jeito e desafio quem quiser a me repetir.
Do meu jeito.
Ah amor!
Amor Rosa de Jericó.
Amor sem dó,
Atro que desafia o átrio,
Queima e germina, enfim.
Ah amor!
Rosa de Jericó.
Pulsa, pune, tange, resiste.
Carcome, eleva e bani.
Amor que provoca dor.
Não sentes a dor que sinto!
Não saio por aí sorrindo, não sei fingir.
Não sentes!
Não, não sentes.
Nunca sentistes, sabes sorrir.
Ah dor!
Dor do porvir que não vem.
Dor do provecto que deixei passar.
Dor do amor que não vivi,
Dor de saber que desisti.
Abel Carvalho
Enquanto tu dormias
Um dia fiz da noite companheira Inspiração e poesia
Fiz da madrugada a sina E da sina inspiração
Corri bares em viagens sem fim E sem sentido
Fiz do álcool rotina calma e constante E da vida um simples e novo amanhecer qualquer
Aprendi a ser manso entre os cordeiros
E a disfarçar o medo entre os lobos E vivo estou até aqui
Não sinto culpas e nem sei pedir desculpas Perdão só clamo a Deus e Faço os dias um após o outro Sem sonhos Ou pesadelos tristes e cruéis Sem dores Amores ou querubins Apenas um dia de um vendaval sem fim
Galopo os ventos que fazem o meu destino
Venço cada ciclo um a um Devagar e sem lutas Batalhas ou guerras Sem furor ou desespero Afinal quem galopa sem domar...
Abel Carvalho
Salvo
E todas as vezes que a morte bate a tua porta tu te queixas
E te maldizes e duvidas
Recorres ao mais antigo dos arquivos
Escavacas lembranças e te culpas como se culpas tivesses
E temes
E todas as vezes que a morte bate a tua porta
Mesmo não sendo a porta tua
Mesmo sendo a tua porta marcada com o sangue do Cordeiro
Tu medras
Escavacas lembranças em devaneio como se os arquivos que abandonastes
Fossem a cura que não veio
E medeia por amor o subjugo ao submundo dos incautos ungidos pela Fé
Em busca da solução que não encontras no teu mundo cético e literal
E Todas as vezes que a morte te procuras foges
Mudas de endereço e falseias
Nem ao menos te consagras a lhe ouvir
A lhe contrapor em resposta
A trocar o Salvo que imaginavas está por tua parte que ela
Quer levar
E todas a vezes que a morte bate em tua porta
Ages como os poetas agiriam
Sangras no papel em poesia
Singras entre remorsos e hipocrisia
E te julgas e culpas
E continuas a dizer não
Abel Carvalho
Soneto do Bendizer
Antes de conhecer nem via,
Não era bela e nem guia, nem cria na cor da pele
Que vi na penumbra uma noite
Cálida em agonia que sibilou heresia.
Essa foi à noite que marcou um dia,
A noite que não sabia, noite que não queria,
Que inspira sonetos e versos,
A noite que nunca viria.
E veio e nunca mais foi,
Doída, suada, indolente, desarmada
Em brasas de langor e fulgor.
Lembrança perene no tempo
Saudade, doce sentimento
Bendizer que nunca vingou.
Abel Carvalho
Às vezes
Às vezes você tem que manter vivas fantasias
Mentir duas vezes
Criar situações que não existem
Às vezes é melhor mentir assim
E te manter longe de mim
Às vezes é melhor inventar sonhos
E fazê- los vivos em cada noite de insônia sem fim
E te manter longe de mim
Às vezes tem que ser assim
Rabiscar um texto
Fingir que vivo no cabresto
Dizer que o telefone é ruim
Às vezes é melhor assim
Fazer doer para mim
Para não morrer para ti
Às vezes é melhor ouvir música sozinho
Beber cinco os seis golinhos
E fingir que entediou
Às vezes é melhor dá a cara a tapa
Fazer do mundo desgraça
E esconder que o amor incendiou
Às vezes o mundo é assim:
Eu-tu sem mim.
Abel Carvalho
A história da canção que eu fiz pra ti
A canção que eu fiz pra ti não fiz com letra
Nem com os acordes de uma bela melodia
A canção que fiz pra ti eu fiz a cada dia
Entre idas e vindas
Altos e baixos
Noites de sono e de insônia
Noites de calor e de abandono
A canção que eu fiz pra ti é minha
É sina e poesia
Um momento de furor
A ilusão do prazer passageiro
O sonho fugaz do fim do sono
A canção que fiz pra ti é pesadelo
É medo
É ilusão
É devaneio
Algo em meu passado
Em meu presente
E num futuro que não posso evitar
A canção que eu fiz pra ti é o sonho
Fruto dos milhares de noites insones
Regada como suor de tantas madrugadas
E com a frieza solitária das tantas noites enluaradas
Onde teimava em fugir de ti
A canção que eu fiz pra ti é fruto do meu medo
Sobejo das minhas dores que não pude te contar
A canção que eu fiz para ti é o sumo das tuas grandes decepções
Alimento da minha covardia que tu nunca quis perceber
Mas a canção que eu fiz pra ti ainda é esperança
Pois traz pra mim de volta um sonho
Uma lembrança
Um tempo perdido
Um grito solto no vazio
Na imensidão de um tempo sem fim
A canção que fiz pra ti é contar uma história
Que teima em ir e vir na minha memória
Lembranças em um abáster
Abel Carvalho
7
Ao longo da vida
Ao longo da vida ruminei metade das minhas ideias.
Ao longo da vida abortei, pelo menos, metade dos filhos que fiz.
Sem arrependimentos.
Posso construir novas ideias.
Sem arrependimentos.
Posso gerar novos filhos.
Mas ainda há tempo?
O tempo me escorrega entre os dedos como água...
É vã a tentativa de segurá-lo.
Ao longo da vida plantei sementes,
Umas brotaram outras não.
Não separarei o joio do trigo,
Não quis ir além.
Ao longo da vida colecionei sustos,
Algum justos outros não.
Ao longo da vida fui justo,
Passageiro da paixão.
Ao longo da vida fiz versos,
Alguns certos outros não.
Ao longo da vida desisti, insisti,
Disse não.
Hoje acredito em poucas coisas,
Menos ainda no amor.
Ao longo da vida escondi tudo que um pai tem que esconder e contei tudo que um irmão tem que contar.
Ao longo da vida fui assim...
Ao longo da vida amei duas vezes
E esqueci de mim.
Ao longo da vida usei como armas o lápis, o papel, a canção e a poesia.
Em algum tempo fiz da minha vida um hino...
Outrora fui menino.
No fim da vida te encontrei e te perdi.
Fiz do meu jeito.
Eu mereço...
Nem me pergunte:
Eu sou feliz.
Abel Carvalho
Pelo menos 5 horas
Queria passar pelo menos 5 horas sem pensar em ti,
mas só durmo 4, e sonho contigo mesmo assim,
Nesse sono torpe.
Queria ter te dado os meus melhores dias,
Como queria, mas o tempo que me resta preciso
Viver para ti, preciso de ti.
Talvez por castigo faça deste estranho amor, longevo.
Dizem que, para os que tem vida longa,
Lhes sobra o peso da solidão,
A dor de vê partir todos os amigos
E amores.
Ah! Veja quantas dores...
Falam que os velhos vivem de favores,
Vivem dissabores, desamores, desconforto
E ingratidão.
Qual triste fim, se vier a viver tanto,
Eu que já verti tantos prantos,
Vivi tantos desencantos, sinas,
Desencontros, enfim te encontro no
Fim em que me encontro.
Então, me resta aceitar o desafio,
Seguir e seguir mais uma vez o coração,
Voltar a viver de emoção,
Como um garoto dizer sim
Sabendo que devo dizer não.
Deixar, de novo, para trás,
O que construí
Como o sonho que não vivi.
Filho insone da eternidade
Queria passar pelo menos 5 horas sem
Pensar em ti...
Abel Carvalho
Se tu não estás aqui
Não sei até aonde ainda posso ter esperanças
Eu nem mesmo confio mais em mim
Tentei me apegar ao amor que sinto por Te
Mas nem mesmo isso consegue me arrancar da
Infinda letargia que eu vivo desde que tive a certeza
De que tu não és mais minha
Brinquei com os meus próprios sonhos
Destruir a minha vida de forma vil e sorrateira
Cavei meu próprio precipício e esculpi a minha tumba
Perdi-me como um anjo destronado e não consigo mais
Encontrar um novo caminho
Tenho os olhos cegos
A boca muda
As mãos e pés atados na minha própria sordidez
Não sou e nem mesmo quero mais ser nada
Não tenho futuro nenhum
Não sou arrimo
Apenas tenho culpa e me culpo milhões de vezes
Por infinitas noites insones
Queria ter a coragem dos suicidas
E a força dos miseráveis
A fé dos incautos e a sutileza dos enganadores
Mas sou apenas um homem fraco como todos os homens comuns
Não planejo mais apenas sigo o meu destino
Como se nisso eu ainda acreditasse
Quero apenas que o tempo corra e a vida siga
Mesmo que tenha que fazer sangrar mil vezes a minha consciência
A cada vez que eu pensar em ti
Abel Carvalho
O tempo e os sonhos
Durante anos sonhamos com o tempo
Que há de vir
Contamos os dias
Projetamos o futuro
Durante anos fazemos planos
Na maioria das vezes o presente
Pouco nos importa
Projetamos o futuro
Durante anos trabalhamos no presente
Um tempo distante
Sonhamos com novos dias
Pois afinal o tempo é findo
Ao longo desse tempo pouco se percebe
Mas o tempo encolhe
Se estreita
O sonhado a longo prazo se comprime a médio
O que era médio te desnuda num presente
Que arranca das mãos o tempo que veio
E nunca mais volta
E a vida segue sem que se possa alongar
O tempo
Projetar um futuro que não mais existe
E nunca existiu ou existirá
Então nos sobra só o presente
Para compensar o tempo findo
Que não mais virá e ser feliz
Enquanto é tempo.
Abel Carvalho
...Amo
Amo tão perdidamente que esqueço
Que um dia vou morrer
Amo
Amo como amo o campo que nunca vi
A poesia que ainda não fiz
O futuro que sei não ter para ti
Amo
Amo assim sem medo
Amor sem tema e sem enredo
Heresia em agonia
Milhares de horas do sem-fim
Amo
Amo teu amor irascível
Prisca de um amor profundo
Sem rumo
Profano e moribundo
Amo
Amo sem direito a óbolo
Sem sonho
Sem tempo
Sem destino
Amo
Assim
Sozinho
Amo
Amo como amo o silogismo
Que vivo
Amo sem hipocrisia
Amo sem nenhuma garantia...
Abel Carvalho