sexta-feira, 6 de novembro de 2026

POESIA - TORTURA - FLORBELA ESPANCA

  


 


 Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,

A lúcida Verdade, o Sentimento!

- E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!...


Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

- E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento!...


São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto!


Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


O sujeito lírico em Tortura fala da dificuldade de gerir os próprios sentimentos e da grande aflição que carrega no peito.


O seu suplício é partilhado co


9. Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!

Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.

Ceguinha de te ver, sem ver a conta

Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...

E outro clarão, ao longe, já desponta!

Um engano que morre... e logo aponta

A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver

São precisos amores, pra morrer

E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso

Fazer do amor que parte o claro riso

Doutro amor impossível que há de vir!


Enquanto a maior parte dos poetas costuma dedicar os seus versos ao amor que está nascendo ou em crescimento, Florbela escolheu compor aqui um poema dedicado ao final de uma relação.


O eu-lírico trata do fim de uma relação a dois que terminou de forma inesperada, sem que o casal se desse conta. Mas a abordagem é conformada, o sujeito lírico reconhece que não há um único amor possível na vida e que o futuro aguarda um novo parceiro igualmente apaixonado.


10. Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido... e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção duma fonte!


E quando, manhã alta, o sol posponte

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:


- Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!


O poema de Florbela Espanca tece uma homenagem à região do Alentejo, situada no centro/sul de Portugal.


Nos versos que levam o nome da zona o eu-lírico faz um elogio à paisagem rural, às árvores e a topologia campestre da região.


Há também uma alusão ao clima quente da planície alentejana e uma capacidade de identificação do sujeito poético com a paisagem que narra.


11. Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem

Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...

Sou um reflexo... um canto de paisagem

Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!

Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem

Dum doido que partiu numa romagem

E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...

Uma estátua truncada de alabastro...

Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,

Num mundo de vaidades e pecados,

Sou mais um mau, sou mais um pecador...


Com uma linguagem coloquial e um tom descontraído, vemos um eu-lírico perdido, mas desejoso de se encontrar.


Múltiplo e multifacetado, o sujeito poético aqui lembra os heterônimos do também poeta português Fernando Pessoa na sua busca por uma identidade não fragmentada.


De volta à Florbela, em Minha culpa testemunhamos um eu-lírico que é muitos, que está disperso, espalhado, e que se vê sobretudo a partir de uma ótica negativa.


12. Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor;

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...


Beija-mas bem!... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei pra minha boca!...


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