
Ladislau Miranda. Você o conheceu??
Gostaria de relatar aqui a hi(e)stória de um personagem que em Bacabal muito marcou a infância e adolescência de muita gente da minha geração e que ficou praticamente esquecido pelo tempo; devido ao advento do celular e acontecimentos midiáticos que praticamente sepultaram pessoas e fatos das longíguas décadas de 70 a 90 na linda, doce e inocente cidade/princesa do Mearim.
Trata-se do cidadão Ladislau - da tradicional família Miranda; considerado em todas pesquisas e opiniões pública como o homem mais feio e assustador da região, quiçá do estado, em todos os tempos; apesar de ter sido um DOCE de pessoa e nunca ter feito mal a ninguém!
Oriundo dos vilarejos de S. Benedito dos Pretos e Piratininga, ele chegou a Bacabal com tenra idade ( aos 5 anos) em companhia dos país e demais familiares. Logo chamou a atenção devido a imensa feiúra e dificuldades no aprendizado na escola. Era motivo de chacotas e pilhérias por parte dos colegas, gerando com isso brigas e intrigas que culminaram com sua transferência ou expulsão das incontáveis escolas por onde perambulou. Ele sofria com o hoje conhecido bullying e era incompreendido e taxado de ALUNO- PROBLEMA. Era muito revoltado e arredio. Foi a famosa professora Conceição Miranda ( tia dele) que com muita paciência e dureza, conseguiu fazer ele aprender a soletrar, escrever o nome e contar até cem. Parou por aí .
Logo começou a trabalhar, ganhar um dinheiro e não quis saber de escola. Fazia de tudo um pouco: braçal, coveiro, ajudante de pedreiro do seu Nonatão, carroceiro, exímio batedor de tambor de crioula ( requisitado por grandes donos de Salões de Umbanda como Bainha de Talo, Gerson, Argemiro e Chico Baiano) até ingressar na ESTIVA - Sindicato dos Arrumadores. Lá permaneceu por um bom tempo fazendo parte da
"elite" dos arrumadores juntamente com Xavante, Bené, Amancio, dentre outros! Era frequentador assíduo do puteiro da 28 de Julho, onde aproximou-se de figurões da noite como Zé dos Reis, Tambaló, Tarrino, Lauro Gama & Cia Ltda. Devido seus dotes de feiúra ele sempre era a piada e por conta disso chegou a brigar com muita gente. Mesmo assim conseguiu vários relacionamentos e não gerou nenhum filho.
Na adolescência e juventude, praticou futebol. Era zagueiro e causava temor aos atacantes devido a aparência e rudeza nas jogadas. Negro, quase 2 metros de altura, forte, olhos bem grandes, saltados e vesgos, emitiam chispas quando estava enraivecido (o que era quase uma constante). Como atleta de futebol aleijou muita gente com suas entradas ríspidas. Foi seu Milton fotógrafo quem me contou uma situação que ficou registrada na história/memória do futebol Bacabalense: Aconteceu no campo do Operário.Ladislau fez um gol ( o único da carreira) no segundo tempo e saiu correndo, enlouquecido e pulou o alambrado (apenas um metro de altura naquele tempo) e foi abraçar o porteiro Nonatão - seu mestre, a quem tinha prometido o gol - o impacto daquele abraço de gigantes foi assustador e inesquecível! Nonatão ( 2 metros de altura) pego de surpresa, foi erguido e arremessado ao chão - diante daquele impactante abraço ( em velocidade ) ensurdecedor de músculos e ossos - pra a alegria da garotada que aguardavam " a hora dos miseráveis" para entrar. Quem presenciou a cena; garante que foi um dos raros momentos em que viram o Nonatão sorrir e aparentemente ficar feliz; apesar de ralhar: olha o que você fez!...em relação aos 'invasores' .... Fazer o quê?! Levantou - se e foi assistir o resto do jogo!...
Assim era a vida de Ladislau, até que no final dos anos 70 um AVC, associado ao Mal de Parkinson, abateu o 'negão' e ironicamente a partir daí, ficou FAMOSO e tornou-se o nosso Corcunda de Notre Dame; uma verdadeira lenda na cidade e referência no quesito TERROR. Depois da doença, ele ficava eternamente tremendo e com a boca aberta, babando. Tinha um desvio na coluna, o que fazia com que um dos braços ficasse mais comprido que o outro ( quase tocava o chão quando andava). Diziam que era devido a arte de bater tambor, outros afirmavam que era por conta da posição de sentar-se na carroça, de lado ou pelo manuseio da pá, durante longos anos, enterrando gente no cemitério. O fato é que andando ou sentado ele tremia todo, boca aberta, olhos vesgos e esbugalhados; dava a impressão que IA SALTAR a qualquer momento: Uma verdadeira imagem assustadora e de assombração. Não tinha uma criança que não tivesse medo daquela visão. Quando estavam com teimosia em casa, bastava os pais falarem: Vou chamar o Ladislau pra te pegar - aquilo era um santo remédio! Os adultos que não o conheciam, quando o viam, a primeira reação era correr! Espalhou -se o boato - depois confirmado por Juarez Professor - que toda donzela quando estava com suspeita de gravidez, bastava a levarem de olhos vendados bem próximo de Ladislau e dizer - abra os olhos! Diante do susto imenso, o aborto era inevitável! Foi justamente nessa época ÁUREA que eu o conheci! Ele passava a maior parte dos dias sentado na esquina das ruas Maranhão Sobrinho com Antônio Lobo ( calçada do Zé Chicão), devido a aparência - apesar de inofensivo - assustava ou chamava a atenção de quem passava. Com o tempo fui- me aproximando e tornei-me, digamos, seu amigo! Eu contava-lhe histórias, só prá vê-lo sorrir! A gargalhada dele era algo estupendo e assustador. Vi muitas vezes, pessoas, cachorros, gatos e outros animais saírem em disparada, correndo, quando a ouviam.
Contam, que certa vez, os "Bate-Paus"( policiais de fachada) Toim e Eurico iam no temível Jeep, pela madrugada, fazendo RONDAS e deram de "Cara" com Ladislau, no escuro, parado na esquina. O susto foi imenso que atolaram o veículo na areial existente da época. O próprio Ladislau os ajudou a empurrar o carro...
Naquela época, a rua Maranhão Sobrinho, só tinha casas até a Serraria do Amorim e o resto era um matagal - terreno dos Padres - onde os adolescentes iam com gaiolas pegar passarinhos. Frei Heriberto, um ferrenho opositor a esta prática ( quebrava as gaiolas); soube do Ladislau e o contratou, com um pagamento semanal, pra não deixar um menino passar por ali com gaiola. Pronto! Resolvido o problema.
O tempo passou e fui embora. Ao retornar, soube de seu falecimento. Não sei se alguém tem uma foto sua como recordação. O professor de Biologia Mendes, um defensor da teoria de Darwin, era fã de Ladislau e sempre o visitava, pra conversar e levava alguma coisa para agradá-lo. Chegou a contratar o fotógrafo Demóstenes Braga para tirar uma foto de ambos juntos. Todos já morreram e ninguém sabe por onde a foto foi parar!
Mais Ladislau, pelos seus FEITOS e presença física marcante, reside carinhosamente eternizado em nossas memórias!...
Valeu meu amigo! Você fez a diferença!
Walmiro Silva