domingo, 9 de agosto de 2026

COLUNA DO DR. ERIVELTON LAGO - APRENDIZ DE RÁDIOTECNICO E O RATO INCENDIÁRIO -


 Aprendiz de Radiotécnico e o Rato Incendiário

Aos quinze anos de idade, eu fui ser aprendiz de radiotécnico na oficina do mestre Jurandir. Naquele tempo, consertar rádio era uma profissão quase tão respeitada quanto a de médico. O médico curava pessoas; o radiotécnico ressuscitava rádios.

A década de setenta era a era de ouro dos aparelhos ABC, Semp, Philips e Philco. Cada casa tinha um rádio, e quase toda família começava o dia ouvindo a voz inconfundível do locutor Jairzinho, que fez história na Rádio Difusora e, segundo muitos diziam, também passou pelas rádios Educadora e Timbira.

Meu trabalho era modesto, mas eu me sentia um engenheiro da eletrônica. Trocava cordão de sintonia, substituía a chave de ligar e desligar, lavava a chave de ondas com gasolina, limpava o aparelho por dentro e por fora e observava atentamente o mestre Jurandir fazer aquilo que, para mim, parecia pura magia.

Naquela oficina aprendi uma das primeiras lições da vida: o cliente nunca paga apenas pelo serviço; paga principalmente pelo conhecimento. Um transistor queimado podia representar quase um quarto do valor do rádio. Não era o tamanho da peça que custava caro; era descobrir que justamente aquela pecinha era a culpada. 

Uma simples ferrugem na mola da caixa de pilhas podia deixar o aparelho completamente mudo. Bastavam alguns minutos de lixa e limpeza para o rádio voltar a cantar. Quem olhava de fora pensava: “Só lixou uma molinha.” Quem entendia do assunto respondia: “Experimenta descobrir qual é a molinha.”

Diagnóstico sempre valeu mais do que força física. Mas o episódio mais inesquecível da oficina aconteceu quando um freguês apareceu com um rádio completamente silencioso.

Abrimos o aparelho. Lá dentro, um rato. Pequeno. Vivo. E muito à vontade. O bicho tinha transformado o rádio em restaurante particular. Roera o fio certo. Justamente o que ligava o transistor à chave de ondas. Silêncio total. A solução parecia simples demais para ser verdade. Eu tive uma ideia. Gasolina. Borrifei. O rato saiu num pulo.

Até aí, tudo sob controle. Foi quando eu decidi “resolver de vez”. Pausa  Olhei. Pensei. E fiz o que nenhum manual de eletrônica jamais recomendaria. Risquei um palito de fósforo. O resto aconteceu rápido demais para a lógica acompanhar. Um segundo de chama.

E nasceu o primeiro, provavelmente único  rato-foguete da história da radiotécnica maranhense.

Ele atravessou a oficina em combustão, em linha reta e desespero puro. Gritos. Ferramentas caindo. Jurandir sem saber se salvava o rádio ou a reputação da oficina.

E eu… congelado. Quando o fogo finalmente apagou, veio o silêncio. E, logo depois, a sentença: Eita, menino malvado! Naquele instante, eu deixei de ser aprendiz de radiotécnico. Virei, oficialmente, o vilão da fauna urbana. E o pior: sem direito a defesa.

Fiquei envergonhado. Muito. Naquela noite, o rato voltou nos meus sonhos. Mas agora ele não corria. Ele me perseguia. E corria mais rápido do que na oficina. Descobri ali que consciência pesada não precisa de pernas para alcançar alguém. Ela só precisa de memória.


Erivelton Lago - advogado criminalista, cantor, compositor, poeta e escritor 

Nenhum comentário:

Postar um comentário