domingo, 30 de agosto de 2026

COLUNA DO DR. ERIVELTON LAGO -DOM QUIXOTE, A VIDA REAL E O DIREITO DE INTERPRETAR: EM DEFESA DE HUMBERTO BOULHOSA

DOM QUIXOTE, A VIDA REAL E O DIREITO DE INTERPRETAR: EM DEFESA DE HUMBERTO BOULHOSA

Eu não li a obra de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha. Porém, no ensino médio tive que resumi-la para apresentar um trabalho de escola para nota de fim de ano. O meu professor de história, me passou essa tarefa para um trabalho de equipe. Confesso que gostei, mas não dei a mínima para o que li. Afinal eu queria apenas ir para o terceiro ano. Porém, daí em diante sempre gostei de rever trechos ou resumos sobre o aventureiro. Depois me chamou a atenção a versão em um filme de Peter Yates, em meados de 2005. Vi no filme muitas coisas que não batiam com o livro, mas, e daí, filme é filme! Na verdade, a obra literária de Cervantes não termina quando o escritor coloca o ponto final. Às vezes, é justamente ali que ela começa. O texto sai das mãos do autor, encontra leitores e passa a admitir interpretações, divergências e até controvérsias. Alguns leitores não interpretam nada. Contudo, recentemente, vem ocorrendo uma interessante discussão silenciosa entre dois amigos advogados criminalistas: Marco Mejia, do Rio Grande do Sul, e Humberto Boulhosa, do Pará.

No livro, O Cirineu Farol da Advocacia, Humberto Boulhosa, ao fazer referência ao personagem imortal de Miguel de Cervantes, escreve, na página 130, que Dom Quixote “lê tanto sobre esses heróis e suas aventuras ao ponto de perder a noção da realidade”.

Marco Mejia faz uma objeção. Segundo sua leitura, a afirmação não representaria adequadamente toda a complexidade da obra de Cervantes. Invoca, inclusive, determinada compreensão atribuída à tradição interpretativa italiana, segundo a qual Dom Quixote jamais teria verdadeiramente perdido a noção da realidade. A crítica é intelectualmente legítima. O problema está em transformá-la numa demonstração de que Boulhosa não conhece Dom Quixote. Aí me parece que se vai longe demais.

E por uma razão muito simples: o próprio texto de Cervantes oferece sustentação para a interpretação empregada por Boulhosa. Logo no início da obra, Cervantes associa expressamente as leituras excessivas dos romances de cavalaria à alteração do juízo de Alonso Quijano. Essa relação entre leitura, imaginação e perda do juízo não é uma invenção posterior dos leitores. É um dos mecanismos narrativos utilizados pelo próprio Cervantes. Estudos contemporâneos sobre a obra observam precisamente que o narrador apresenta o fidalgo como alguém que leu tantas histórias de cavalaria que passou a tomá-las como verdadeiras e a projetar sobre o mundo presente a realidade épica dos cavaleiros andantes. Nesse ponto, errou o meu querido amigo Mejia. A obra de Cervantes tem mais de 1.000 páginas. 

O advogado Boulhosa resumiu a obra, didaticamente, em 3 páginas, pois o seu livro, O Cirineu, é apenas um “farol da advocacia”, não é um tratado sobre metafísica. A própria narrativa de Cervantes oferece exemplos inequívocos de um mundo fantasioso. Dom Quixote acredita na realidade histórica dos cavaleiros de seus livros e procura reproduzir suas aventuras no mundo concreto. Em determinado diálogo, o cônego questiona como aquelas leituras puderam afetar de tal maneira seu juízo; Dom Quixote responde reafirmando sua crença nos cavaleiros andantes. Um homem que acredita em cavaleiro andante, é o mesmo que acredita em cavaleiro errante que sai pelo mundo sem eira e nem beira, sem rumo a combater injustiça. Claro, Dom Quixote “Quijano” realmente perdera o juízo. 

Portanto, dizer que ele “perde a noção da realidade” não constitui, por si só, erro literário. É claro que a questão é mais sofisticada. Dom Quixote não perde permanentemente toda e qualquer capacidade racional. Ele é capaz de conversar, argumentar, demonstrar inteligência, formular juízos e, em muitos momentos, revelar uma sabedoria extraordinária. Sua relação com a realidade é ambígua. Há estudos e até as películas do cinema ressaltam exatamente essa tensão entre razão e delírio: diante do mundo exterior, ele interpreta determinados fatos segundo o universo cavaleiresco que construiu para si.

É aí que encontro mérito na observação de Mejia. Se alguém interpretar a frase de Boulhosa em sentido clínico, absoluto e permanente, como se Dom Quixote tivesse perdido completamente qualquer contato com a realidade durante toda a narrativa, a afirmação realmente exigiria ressalvas. Mas não me parece que seja isso que Boulhosa esteja dizendo. Boulhosa escreve literatura. E a literatura trabalha também com metáforas, sínteses e imagens. “Perder a noção da realidade”, naquele contexto, pode perfeitamente significar que o personagem permitiu que o universo imaginário das leituras se sobrepusesse ao mundo sensível. E é exatamente isso que acontece quando um moinho deixa de ser apenas um moinho porque, aos olhos de Dom Quixote, tornou-se um gigante.

O moinho continua existindo. A realidade objetiva não mudou. Quem mudou foi o olhar de Dom Quixote sobre ela. E talvez esteja justamente aí uma das maiores genialidades de Cervantes. Dom Quixote não vive simplesmente fora da realidade. Ele reinterpreta a realidade a partir da fantasia que passou a habitar dentro dele. Por isso, a fronteira entre loucura, imaginação, idealismo e realidade constitui uma das riquezas inesgotáveis do personagem. Há inclusive crítica cervantina que identifica dois níveis nessa “loucura”: a crença de que os romances de cavalaria relatavam fatos verdadeiros e a convicção de que ele próprio poderia restaurar aquele universo cavaleiresco no mundo em que vivia.

Por essa razão, fico, nessa pequena controvérsia literária, mais próximo da formulação de Humberto Boulhosa, sem considerar equivocada a provocação de Marco Mejia que é um homem inquieto, mas a inquietude não pode se transformar em uma crítica que beira a deslealdade. Mejia, assim percebo, chama nossa atenção para a complexidade filosófica de Dom Quixote. Boulhosa utiliza uma síntese literária de Dom Quixote. As duas coisas não são incompatíveis. Talvez o equívoco esteja apenas em exigir de uma frase metafórica aquilo que exigiríamos de uma tese acadêmica sobre Cervantes. Imagino que uma metáfora não precisa carregar nas costas quatro séculos de crítica literária para ser legítima. 

Aliás, há uma ironia deliciosamente cervantina nessa discussão: estamos debatendo se Dom Quixote perdeu ou não a noção da realidade justamente porque Cervantes conseguiu criar um personagem no qual realidade e imaginação nunca permanecem inteiramente separadas. “Dom Quixote vê aquilo que os outros não veem”. Acho que um dia ouvi isso do professor de história, o maranhense Teixeira. Onde há hospedaria, encontra castelo. Onde existe uma mulher comum, encontra Dulcineia. Onde existem moinhos, aparecem gigantes. E onde a realidade lhe oferece uma vida ordinária, ele encontra a possibilidade extraordinária da aventura.

Por isso, quando Humberto Boulhosa escreve que Dom Quixote leu tanto sobre heróis e aventuras “ao ponto de perder a noção da realidade”, não vejo desconhecimento da obra. Vejo uma metáfora perfeitamente defensável, amparada, inclusive, pelo ponto de partida narrativo escolhido pelo próprio Cervantes. Marco Mejia tem razão ao advertir que Dom Quixote é maior e mais complexo do que a simples figura de um homem desconectado da realidade. Mas Humberto Boulhosa também tem razão ao perceber que alguma ruptura com a realidade precisava acontecer para que Alonso Quijano pudesse transformar-se em Dom Quixote. Porque, se ele enxergasse apenas aquilo que todos enxergavam, o moinho continuaria sendo moinho, a hospedaria continuaria sendo hospedaria e Alonso Quijano jamais teria se tornado Dom Quixote de La Mancha.

E talvez seja essa a beleza definitiva do personagem: Dom Quixote não perdeu simplesmente a realidade. Ele ganhou outra. Uma realidade impossível para os outros, mas suficientemente verdadeira para fazê-lo montar em Rocinante e sair pelo mundo em busca de novas aventuras em companhia de Boulhosa e Mejia.

Erivelton Lago  - Advogado Criminalista. 

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