sexta-feira, 28 de agosto de 2026

POESIA - O FATO - TORQUATO NETO


O fato


Na água em que me lavo,

o teu escarro. No prato em que almoço,

a tua moléstia.

Nas coisas que eu me afirmo,

a tua ideia. Na minha voz

que fala e chora e cala,

a tua mentira.

Atrás de mim passeias livremente

e não te barro

não me volto e não te enxergo.

Te sinto apenas a repetição de minha angústia

vezes dois

e te imagino torto

e te sei um fato ereto em minhas costas,

caminhando.


Assustam-me os meus dedos: são os teus,

magros, inúteis.

Reparo à toa num espelho: a minha face

não é mais a minha, mas a tua

e teu desdém.

Na rua, amigos me perguntam como vou.

Digo: vai mal, vai mal…

e deixo que teus passos me insinuem na ida

e me obstruam a vinda.

Sempre estou lá. Não saio

do arcabouço do meu corpo.

Calabouço?


Digo: balanço — mas por detrás sussurras:

masmorra indissolúvel na qual te encontras.

E eu fico.


Torquato Neto 

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