quinta-feira, 23 de outubro de 2025

COM A PALAVRA - O VALIOSO ZERO - POR ZÉ CARLOS GONÇALVES

 



O VALIOSO ZERO 


    Há poucos dias, testemunhei a ignorância em seu mais alto grau. Um pretenso adulto "se trocar", como dizia vovó, por uma criança. Ouvi, com tanta revolta, um bucéfalo e indesejado indivíduo chamá-la de "um zero à esquerda", por não ter feito com pressa a sua conexão em um certo aplicativo. Ironicamente, "o ignorante internético" depreciando "o internético menininho", que já nasceu com os dedos grudados num teclado.

    E a minha revolta veio, primeiro, por não admitir que se maltrate o próximo. Ainda mais uma criança. O que só mostra que não estamos aptos a conviver com os nossos. E que nos embrutecemos, quando nos perdemos em nossas impotências. Segundo, por sempre acharem que o zero é vazio de significados. Um ledo e vil engano. E não importa se está à esquerda ou à direita. O zero vale, e como. 

    No Colégio Pinheirense, bem se pôde entender o valor do zero, que muito e muito fez muitos alunos se descabelerem e, até, "cair no choro". E quem foi aluno do padre Nicolau bem sabe do que falo. Afinal, com ele, tirar um zero não era motivo de tristeza. Acreditem! Às vezes, era até comemorado. E com razão. Ele atribuía, como nota, menos de um zero. Quando estava "ispritado", entregava a prova com um zero cortado. Meio zero. O que não era nenhum absurdo para tamanha inteligência, de quem me disse uma vez que estava lendo um livro "de trás pra frente", porque a leitura normal não mais o satisfazia. Verdadeiramente, um gênio! Algo que o mantém muito distante de mim. Essa proeza, eu não consigo. Já não entendo nem lendo "da frente pra trás. Quanto mais ..."

    Mas, deixando o padre Nicolau e sua prodigiosa mente, não podemos perder de vista o zero. Nem o grande valor, que carrega consigo. E não duvidem. De verdade, o zero pode só aumentar. Se estão incrédulos, imaginem o número 2, sozinho. Solitário, pidichão e mirradinho; mas frente ao acréscimo de um zero, já fica de bom tamanho. 20. E se forem dois. Nem se fala. 200.

     E, para não encher mais linguiça nem encher as suas paciências nem encher o texto de zero, vou parar por aqui. Mas, antes, vou atribuir "um quarto de zero" ao "marginal",  citado no início desta narração! E, de verdade, não desprezemos os nossos semelhantes com metáfora tão chula; e cultivemos o valioso zero, com o mesmo valor que lhe atribuía "padre Nicola".


         Zé Carlos Gonçalves

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