HEI
Hei de afundar no tempo como um vício virtuoso.
Hei de moldar a cabeça ao travesseiro, caso passem as tantas dores que aconchego,
E sentir de novo sãos os dedos que teu corpo percorreram.
Hei de dormir mesmo insone e sonhar com teus sonhos,
Odisseia inacabada de mil noites de desvelo.
Hei de singrar qual quilha e sangrar em devaneio, sorrir quando o dia me chegar,
Deixar inerte na vigília o corpo desafeto, quedante e pouco ereto,
Fingir, fazer calar, tapar com os olhos o pesadelo,
Fazer crescer, merecer a inquietude avassaladora que atormenta
A mente sedenta de amor, de dor, langor e saudade.
Hei de amar mais mil vezes a ti perdidamente,
Viver mais mil noites de insônia e fazer, outra vez,
A dor em mil poesias frias, reticentes, quebrantadas e perenes,
Fortes, fieis e perturbadoras, apenas poesias tradutoras
De um amor achado e perdido, indevido, benvindo e banido,
Amor, apenas amor como a dor serena da poesia que nunca deixará de nascer.
Abel Carvalho


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