28 DE JULHO: A DATA QUE O MARANHÃO ESQUECE DE SI MESMO
O Maranhão chega a mais um 28 de julho sem fanfarra, sem aula pública, sem desfile, sem nada. E não é de hoje.
Enquanto a Bahia transforma o 2 de julho numa tomada de cidade — com trios, escolas, autoridades, povo na rua e transmissão ao vivo — aqui em São Luís a adesão do Maranhão à Independência do Brasil passa quase em branco. O máximo que temos é o feriado estadual no calendário. E só. Lamentável.
É preciso dizer em voz alta: isso é omissão das autoridades do campo da educação, da cultura e do governo. Se a escola não conta, se a Secretaria não programa, se os veículos públicos não pautam, a memória morre. E quando a memória morre, morre também a identidade.
Vamos lembrar os fatos, porque esquecer custa caro.
Em 7 de setembro de 1822, o Brasil gritou “Independência ou Morte” às margens do Ipiranga. O Maranhão não gritou junto. Pelo contrário. Resistiu.
Nossas elites agrícolas e pecuaristas eram profundamente ligadas a Lisboa. O tráfego marítimo com Portugal era mais intenso e mais fácil do que com o Rio de Janeiro. Os filhos dos comerciantes ricos estudavam em Coimbra. A Junta Governativa de São Luís chegou a reprimir o movimento de independência no Piauí. O Maranhão era rico, conservador e achava que podia ficar fora.
Só em 28 de julho de 1823, quase um ano depois, é que São Luís foi obrigada a aderir, bloqueada por mar e ameaçada de bombardeio pela esquadra de Lord Cochrane. Fomos o penúltimo estado a reconhecer a independência. O último foi o Pará.
O termo oficial só viria a ser assinado em 7 de agosto de 1823, em Caxias, a 368 km da capital, depois que o Major Fidié capitulou. Ele seria levado preso para Portugal e recebido lá como herói. Nós ficamos aqui, com a conta.
E a conta veio. Os anos imperiais foram vingativos. O abandono e o descaso com essa rica região nos jogaram num empobrecimento secular que, diga-se, ainda não foi rompido.
Pois bem. Uma data que marca ruptura, conflito, negociação e sobrevivência política merecia ser tratada como patrimônio. Não é?
Na Bahia, o 2 de julho virou festa cívica, aula viva, economia, turismo, orgulho. Aqui, o 28 de julho virou ponto facultativo que muita gente nem sabe por que existe.
Essa ausência programada é um problema de comunicação e de educação. Comunicação porque não se conta a história. Educação porque não se ensina o valor dela. O resultado é uma geração que cresce sem saber que o Maranhão negociou, resistiu e aderiu tardiamente à nação. Uma geração que perde referências e, sem referências, aceita qualquer narrativa.
Não faltam personagens, cenários e documentos. Temos Caxias, temos a Batalha do Jenipapo que pressionou Fidié, temos São Luís sitiada, temos a disputa entre comércio e poder central. Temos matéria-prima de sobra para debates nas escolas, exposições, caminhadas históricas, saraus, mostras de cinema, programas de rádio e TV.
O que falta é vontade política.
É cômodo tratar o 28 de julho como “feriado e pronto”. Mas feriado sem significado vira apenas um dia a menos no trabalho. Povo sem passado vira consumidor de datas dos outros.
O desdém, o esquecimento e a omissão custam caro. Custam identidade. Custam autoestima. Custam futuro.
O Maranhão precisa parar de pedir licença para lembrar de si. O 28 de julho não pode continuar sendo uma nota de rodapé no próprio estado que protagonizou essa adesão.
Se a Bahia faz carnaval cívico no 2 de julho, que o Maranhão faça história viva no 28 de julho. Com escola aberta, com museu lotado, com debate na praça, com a imprensa pautando, com o poder público liderando.
Do contrário, estaremos apenas repetindo o erro de 1822: virar as costas para o Brasil e depois pagar o preço de chegar atrasado.
E dessa vez, não teremos Lord Cochrane para nos obrigar a lembrar quem somos.
Por Euclides Moreira Neto - Ph.D em Comunicação, Linguagem e Cultura/UNAMA e Prof. de Jornalismo/UFMA_


Nenhum comentário:
Postar um comentário