BENDITAS BIQUEIRAS
(... a gente vê cada uma!)
Lendo uma reportagem, por esses dias, me surpreendi com o emprego da palavra BIQUEIRA por um policial militar paulista. Não convencido, voltei mais de uma vez. E, de verdade, fiquei frustrado. A palavra, que muito significa para mim, "reduzida a uma boca de fumo". É muita tristeza, para quem a BIQUEIRA renovava a alma em banhos deliciosos e festivos, sempre acompanhados dos amigos de estripulias.
Debaixo de uma biqueira, se criavam fantasias, e heróis, em um viajar na mágica magia da imaginação.
Ali, se vivificava, de fato, a solidariedade. A biqueira era o mais valioso patrimônio de todos. Não havia espaço nem ocasião para o egoísmo. E, sim, um acordo, feito no mais puro silêncio. Um aceno de cabeça ou um olhar afirmativo, e fraterno, se traduzia em a mais perfeita confirmação. Aí, o tempo ia se distribuindo em um acordo não verbalizado. "Um tiquinho" de banho, para cada, que valia a deliciosa aventura. Com direito a repetições, em um mar de euforia. Não cabiam cobranças nem desânimo.
Só ficava guardada a vontade de chegar o mês de maio. Afinal, fomos criados com a certeza de que as chuvas de maio "não faziam mal". Ao contrário, eram benditas. "Eram remédios".
E, bem abençoados, também não temíamos as de janeiro, fevereiro, março ou ... Para nós, meninos, eram sagradas todas as chuvas. Até as que vinham acompanhadas com o sol, a comemorar "o casamento da viúva com um rouxinol". O certo é que corríamos, sadios e felizes, às biqueiras da casa de vovó, as da casa de seu Arias Marinho e as transformadas em verdadeiras cachoeiras. As do Grupo Escolar Odorico Mendes.
E é uma pena que, hoje, se invisibilizaram. Também, se escafeceu a saudável infância. E chuvas não há mais. Que dirá biqueiras. E, de tristeza, só nos resta a constatação de que as crianças já não sabem nem desfrutam de tamanha alegria. E, ironicamente, nem podem. Um banho em uma biqueira, mesmo fraca, fraca, fraca, certamente, é a certeza de uma internação e / ou uma ida a um analista.
E, de verdade, no meio do caminho, "nóis nus fumo si perdeno, cuando perdimo ais nossas biqueira!"
Zé Carlos Gonçalves


Nenhum comentário:
Postar um comentário