O TORCEDOR E A BUSCA DA FELICIDADE
Todo torcedor sonha com a vitória do seu time. É uma busca permanente pela alegria, pela euforia do gol, pelo abraço no desconhecido da arquibancada, pelo direito de dizer: "Nós vencemos”. Mas a vitória é uma das coisas mais incertas da vida. O nascer do sol e o seu ocaso obedecem a uma ordem da natureza. Amanhã haverá uma nova aurora. O futebol, porém, não conhece essa certeza. Nele, a alegria pode durar apenas alguns segundos. Um gol marcado é anulado pelo VAR. Um pênalti decisivo é desperdiçado. O favorito é derrotado pelo azarão. O melhor jogador do mundo erra o chute mais simples. O campeão cai diante de um time que poucos conheciam.
O riso transforma-se em lágrimas numa velocidade impressionante. Então surge uma pergunta inevitável: afinal, o que procura o torcedor? Será apenas a vitória? Ou ele busca algo muito maior do que isso? Talvez procure elevar a autoestima. Talvez queira reafirmar sua própria existência ao sentir-se parte de uma comunidade. Talvez necessite experimentar a sensação de pertencimento que tantas vezes lhe falta na vida cotidiana. Durante noventa minutos, ele deixa de ser apenas um indivíduo e passa a ser parte de um "nós". A vitória do clube parece também ser a sua vitória. Entretanto, existe um paradoxo.
A felicidade do torcedor depende de acontecimentos sobre os quais ele não possui qualquer controle. Ele não escolhe a escalação. Não bate o pênalti. Não impede o erro do árbitro. Não evita um gol contra. Não decide se a bola tocará na trave e entrará ou sairá. Sua alegria está entregue às circunstâncias, ao talento alheio e, muitas vezes, ao imprevisível. E, mesmo sabendo disso, continua acreditando. Quando o jogo termina e a derrota chega, ele repete, quase inconscientemente: Meu time perdeu... E agora, o que é que eu faço? Talvez essa pergunta esconda outra, muito mais profunda: Por que coloquei minha felicidade nas mãos de algo que nunca dependeu de mim? Essa não é apenas uma questão esportiva. É uma questão existencial.
Fazemos isso no futebol, mas também na política, nos negócios, nos relacionamentos e em tantos outros aspectos da vida. Entregamos nossa paz a fatores externos e sofremos quando eles não correspondem às nossas expectativas. Talvez o esporte cumpra uma função ainda mais complexa. Ele nos oferece uma pausa diante das angústias da existência. Durante algumas horas esquecemos as contas, as perdas, as frustrações, os medos e as incertezas. O estádio transforma-se num palco onde projetamos nossos desejos e nossas esperanças. Mas, terminado o jogo, a vida continua. Se a felicidade dependia apenas do resultado da partida, ela desaparece com o apito final.
O futebol, então, nos ensina uma lição silenciosa: tudo aquilo que depende exclusivamente do acaso, das decisões dos outros ou das circunstâncias jamais poderá sustentar uma felicidade duradoura. Talvez o verdadeiro desafio não seja torcer menos, mas aprender a distinguir a alegria passageira da felicidade verdadeira. Porque a primeira pode ser decidida por um gol aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. A segunda depende apenas daquilo que somos capazes de construir dentro de nós. Continuarei torcendo pelo meu time e pela minha seleção. Gritarei seus gols e lamentarei suas derrotas. O futebol faz parte da vida e seria triste viver sem essa paixão. Mas, terminado o jogo, resta uma pergunta que talvez valha mais do que qualquer campeonato: Se a minha felicidade depende daquilo que não posso controlar, será que ela algum dia foi realmente minha?
Erivelton Lago
Advogado criminalista, cantor, compositor poeta e escritor

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