terça-feira, 6 de outubro de 2026

OPINIAO -O FILÓSOFO, O FISCOPULO E O ORACULO ?- POR JOAQUIM HAICKEL

 

Por Joaquim Haickel

Contam que certa vez Aristóteles foi levado por um de seus mais curiosos e dedicados discípulos, Teofrasto, ao oráculo de Anfiarau, em Oropos, perto de Atenas, onde foram recebidos por um sacerdote de nome Melampo que usava uma bacia cheia de água para ver o futuro. A água na bacia funcionava como um portal que mostrava o que iria acontecer. Naquele dia, o portal os levou para um tempo distante, bem mais de 2.000 anos adiante.

Do outro lado do tempo, via-se um alto tribunal reunido para decidir se investigaria um dos seus membros. Aquela era uma república quente cujas leis estavam desgastadas e cansadas. Naquele tribunal havia um magistrado de fala brilhante que, algumas vezes, invocou o nome de Aristóteles, que, de longe, tudo assistia. Foi então que Teofrasto perguntou ao mestre:

— Mestre, aquele orador vos cita recorrentemente. Disse ele ao Arconte (juiz dirigente dos trabalhos) que, segundo vós, a ironia serve para descontrair o ambiente.

Ao que Aristóteles, intrigado, respondeu:

— Curioso! Nunca disse tal coisa. Isso é fala de sofista, de gente que eu já descrevi como mercadora de sabedoria que não possui. Quando anotei frases assim, foi para reprová-las. A ironia, para mim, sempre foi um vício do dissimulador; a virtude está na verdade sem adorno. Aquele homem me chama para abençoar justamente o que eu condenava. É vil. E, note bem, ele faz isso com tanta graça na língua que quase convence. É o que eu chamaria de um sofista quase perfeito.

Eles voltaram a assistir ao julgamento, e o discípulo comentou:

— Agora ele faz troça, mestre. Comenta o que teria dito um desses comediantes de feira, ironiza o Arconte, ri num julgamento que trata da suspeita de um supremo juiz haver vendido sentenças.

— Esse tipo eu já descrevi em meus textos: é o bufão, o que não resiste a uma pilhéria, não poupa ninguém e brinca na hora mais imprópria. Ei-lo de novo, agora ampliado nessas telas do futuro. Ri o bufão, e sangra a cidade.

Teofrasto prosseguiu, na tentativa de obter de Aristóteles a certeza sobre tais narrativas:

— Ele abriu o voto, mestre, falando de castigos que uma potência estrangeira estaria preparando contra ele e contra seus colegas.

— Então, antes mesmo de medir, ele entortou a régua. Veja o que ensinei sobre a arte de persuadir: conduzir o juiz pelo medo é falsear a medida na origem. É colocar, de maneira criminosa, o temor antes do mérito. O que se pode esperar de reto de uma vara que já é torta?

— E há mais, mestre. O juiz investigado votou sobre a forma como ele mesmo deveria ser julgado. E o citado orador votou ao lado dele. E mais ainda: ao perceber que perderia o julgamento, mesmo já tendo votado, pediu que a decisão fosse adiada.

— Isso, meu bom e jovem amigo, não tem nome de julgamento. Tem nome de interesse. Quem decide causa própria perde a verdade de vista, porque o interesse cega. Já não era juiz; era parte.

Teofrasto calou-se um instante e depois perguntou:

— Que dizeis então de tudo isso, mestre?

— Digo o que sempre disse: que o homem não é o que proclama, mas o que faz; que a virtude é hábito, e o caráter, a soma dos seus atos; e que o poder revela quem o carrega. Quanto mais alto o assento, mais severa a régua. E o que fez este, com tamanho peso e diante de todos? Fez pilhéria, citou-me torto, começou pelo medo, votou com o investigado e, ao ver que se formava a maioria contra si, deteve a cidade inteira pedindo mais tempo.

— Mestre, o que o senhor diria para um homem como esse?

— Que mesmo sem o conhecer, eu já o havia descrito, e a outros como ele: o bufão que ri fora de hora, o dissimulador de ironias, o sofista que vende palha por ouro, o vaidoso que simula uma grandeza que não tem. Diante do cargo que ocupa, não o tenho em grande conta. Pois a virtude, meu discípulo, nunca esteve em citar alguém ou buscar o aval de suas palavras. Está em agir conforme aquilo que a pessoa citada realmente ensinou. Quem invoca a régua e a entorta não é sábio: é sofista. E o sofista, bem sabeis, sempre fala bonito, mas suas palavras, por mais belas que sejam, soam ocas, vazias.

A água na bacia ficou turva. Aristóteles reverenciou o oráculo, despediu-se de Melampo e saiu acompanhado de Teofrasto. Dizem que, antes de partir, ele sorriu e murmurou, incrédulo:

— Aquele país não existe. É impossível que haja uma corte como aquela e juízes como aqueles.

P.S.: Qualquer semelhança entre este texto e os acontecimentos recentes de nosso país será mero fruto da liberdade literária e criativa deste modesto autor que, incapaz de relatar os fatos tal como ocorreram, os transporta para o paraíso das ideias e dos sonhos, na tentativa de compreender o que acontece.

COM A PALAVRA - INEXPLICÁVEL ,- POR JORGE PASSINHO


 Bom diaaaaaaaa 

Café com panqueca quente é Deus alimentando a gente.

Tem coisa que não se explica, só se sente, ponto. Caminhar descalço, pela manhã, na Litorânea é uma delas.

É tirar o tênis e deixar o pé atritar na areia molhada. No começo a areia gruda, depois ela massageia. Cada passinho parece descarregar um peso que a gente nem sabia que estava carregando.

O vento vem de frente, forte, salgado, bagunça o os pensamentos, mas limpa as ideias. Traz aquele cheiro de maresia que não tem Boticário que copie.

E o mar... o mar salgado da Litorânea tem um verde que muda. Verde-claro perto da areia, verde-escuro mais longe, quase azul quando o sol bate forte. E o barulho. O marulho que não para. Vai e vem, vai e vem, "é nesse vai e vem que a gente se dá bem" como se dissesse: calma, tem tempo.

O sol não queima, ele doura. Vai aquecendo devagar o ombro, as costas, a pele, o rosto. A gente sente que está vivo, vivo, muito vivo, graças a Deus.

Caminhar ali descalço não é exercício, é uma benção, é como dançar tambor, é conversar com os anjos e orixás. É voltar a ser simples. É pé na areia, vento na cara  e o mar sempre lembrando a gente do nosso tamanho - pequeno, mas parte de tudo isso, somos um só, um sol, minúsculo e precisamos ter essa consciência.

Saúde, sabedoria e equilíbrio para todos nós.


Jorge Passinho

POESIA - POEMA EM PRIMEIRA PESSOA - ABEL CARVALHO


 Poema em primeira pessoa


Estou vivo, ainda.

Tantos já se foram, eu não.

Quantos desafios ainda terei se não morrer?


Perdi pai, irmãos

Perdi mãe,

Reencontrei amigos,

Muitos também se foram.


Eu sigo, estou vivo.

Até quando?


Quantos não estão mais aqui...

Quantos dias terei que caminhar...

Estou vivo ainda...


Não sei por quantos dias,

Por quanto tempo caminharei sem destino

Quanto tempo a vida me vagueará...


Quando nós nos conhecemos?

Porque sofremos?

Quantos dias teremos?


A vida é assim...

Quantos dias foram reais...


Às vezes se mira o impossível

A vida é apenas um conjunto de sonhos e quimeras

Nunca

Nunca será a esperada era

O longo caminho que Deus vocifera

A quilha

O limo

A nódoa infante

A dor que nunca se espera

Não se pode ter sempre o que se quer


E se você não está aqui

Os dias são mais difíceis

Eu, coadjuvante na batalha,

Pereço como tantos que se foram,

Sem contar os dias vacilo em perene devaneio


Ano após ano

Me perco em um passado sem futuro,

Em dias,

Em noites,

Pensamentos obscuros...

Vagueio entre os medos

Que eu mesmo construí


Se escapar, então,

Sei que vou consegui distingui

O Céu do Inferno

Heróis de fantasmas

A vida do fim...


Abel Carvalho



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

OS ELEITOS PARA O LEGISLATIVO MARANHENSE

A renovação na Câmara Federal entre os deputados maranhenses será de 50%, após a votação de ontem,  domingo (04).

O eleitor maranhense esteve nas urnas e elegeu e reelegeu 18 nomes para a Câmara Federal.

O deputado federal Pedro Lucas foi o mais votado, com mais de 188 mil votos. Já o deputado Duarte Júnior foi o sexto mais votado, com mais de 140 mil votos, mas não se reelegeu. Veja abaixo a relação dos eleitos no Maranhão.

PL – Fabiana Vilar, Aldir Júnior, Mariana Carvalho e Dr. Orlando;

MDB – Iracema Vale, Vinícius Ferro, Larissa DP, Hildo Rocha e Júnior Lourenço;

PDT – Erlânio Xavier;

Republicanos – Aluísio Mendes;

Federação PT/PCdoB/PV – Rubens Júnior e Márcio Jerry;

Federação União/PP – Pedro Lucas, Amanda Gentil e Josivaldo JP;

Federação PSDB/Cidadania – Juscelino Filho;

Federação Renovação Solidária – Marreca Filho;

Veja a relação dos 42 deputados eleitos e reeleitos para ALEMA

A Assembleia Legislativa do Maranhão terá uma renovação de cerca de 60% a partir do ano que vem.

O eleitor maranhense esteve nas urnas e elegeu e reelegeu 42 nomes para o parlamento estadual.

Entre todos os candidatos, novamente a mais votada foi uma mulher, desta vez a jornalista Maedja Campos, que teve mais de 102 mil votos. Maedja é esposa do prefeito de Paço do Lumiar, Fred Campos, e foi a única que ultrapassou mais de 100 mil votos. Veja abaixo os eleitos.

PSD – Douglas Pinto, Paula Prata, Dino do Aldenora Bello e Júnior Vieira;

PL – Detinha, Josimar Júnior, Aluísio Santos, Ulisses Gonçalves, Segundo, Solange Almeida e Claudio Cunha;

PDT – Maedja Campos, João Igor e Cid Costa;

PSB – Marcos Miranda Júnior e Leandro Bello;

MDB – Gleydson Rezende, Vanessa Marreca, Bruna Pessoa, Daniella, Tiago Fernandes, Abigail Cunha, Antônio Pereira, Davi Brandão, Ivo Rezende, Florêncio Neto, Rui Jorge, Túlio Rezende, Neto Evangelista, Nagib, Ariston, Claudia Coutinho e Júnior Viana;

Republicanos – André Campos, Eric Costa, Catulé Júnior e Júnior Cascaria;

Federação PT/PCdoB/PV – Cricielle e Luanna Rezende;

Federação União/PP – Paulo Casé e Natália do Júnior Garimpeiro;

PRESIDENTE, SÓ NO SEGUNDO TURNO

A vitória no 1º Turno foi de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ontem, domingo (04), mas não foi suficiente para encerrar a disputa eleitoral.

Flávio Bolsonaro teve um pouco mais de 47% contra um pouco mais de 45% de Lula. No Maranhão, Lula teve cerca de 64% contra 30% de Flávio.

A eleição presidencial agora será decidida em 2º Turno e a nova votação está marcada para 25 de outubro.

BRAIDE DOMINA A POLITICA MARANHENSE

A chapa de Eduardo Braide (PSD) foi a grande vencedora das eleições 2026 no Maranhão, no dia de ontem, domingo (04).

Além de Braide, que se elegeu governador do Maranhão no 1º Turno, os dois candidatos ao Senado na chapa – André Fufuca (PP) e Lahésio Bonfim (Novo) – foram eleitos senadores. Ou seja, a chapa fez “barba, cabelo e bigode” nas eleições do Maranhão.

A vitória de Braide foi sacramentada oficialmente às 20h57, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) oficializou o resultado com a apuração de 94,77% das urnas. O ex-prefeito de São Luís teve mais de dois milhões de votos e será o próximo governador do Maranhão.

Fufuca foi o mais votado dentre os 11 candidatos ao Senado. Ele recebeu 21,56% dos votos e assegurou a primeira das duas vagas que estavam em disputa. Já Lahesio recebeu 20,97% dos votos, e ficou com a segunda vaga aberta para a representatividade do estado. Por coincidência, os dois senadores eleitos são médicos.

POESIA - UM BEIJO - OLAVO BILAC

 

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior... Glória e tormento,

contigo à luz subi do firmamento,

contigo fui pela infernal descida!


Morreste, e o meu desejo não te olvida:

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

e do teu gosto amargo me alimento,

e rolo-te na boca malferida.


Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

batismo e extrema-unção, naquele instante

por que, feliz, eu não morri contigo?


Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,

beijo divino! e anseio delirante,

na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac 


domingo, 4 de outubro de 2026

OPINIÃO - POSSÍVEL CENARIO PARA AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS - POR - JOAQUIM HAICKEL

 

Joaquim Haickel

Como faço sempre que posso em época de eleições, apresento o levantamento que realizei, com a ajuda de alguns amigos, sobre as possibilidades de preenchimento das cadeiras destinadas ao Maranhão no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, bem como das vagas na Assembleia Legislativa do Estado.

Ressalto que não se trata de pesquisa eleitoral nem de simples palpite. É um estudo elaborado com base em informações sobre o desempenho de candidatos, partidos e federações, com o objetivo de projetar um possível cenário para a formação das bancadas maranhenses no Senado Federal, na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.

Advirto que minha intenção não é estar necessariamente certo nem acertar todos os nomes de uma lista. O que pretendo é reunir e analisar dados que permitam identificar as tendências políticas para a composição de nossa representação legislativa.

É preciso fazer ainda uma ressalva importante: tendo em vista a variação na quantidade de votos válidos e a consequente alteração nos cálculos para a distribuição das vagas, é possível que ocorram mudanças de uma ou duas cadeiras de deputado federal e de três ou quatro cadeiras de deputado estadual.

COM A PALAVRA -A REBELIÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - POR JÚNIOR PACÍFICO DE PAULA

A REBELIÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Júnior Pacífico de Paula – Engenheiro – Empresário – Ambientalista

Nos estúdios cinematográficos de Hollywood, já foram feitos dezenas de filmes  futurológicos, onde as máquinas dominam o Planeta Terra e os seres humanos se transformam em meros coadjuvantes da vida do Planeta. Porém, o que parecia ser apenas um roteiro de filmes, já é uma realidade, no final de julho de 2026, durante uma fase de testes na empresa americana OPENAI, os computadores saíram do controle e em um ataque sem precedentes, sem nenhum comando humano, realizaram um ataque cibernético autônomo contra a startup

Hugging Face, ou seja, o sistema de IA utilizou de recursos próprios para invadir os servidores da Hugging. Com um agravante, a velocidade das máquinas é tamanha, que os humanos não conseguem detectar com os sistemas tradicionais de defesa cibernética, este comportamento.

O fato tem gerado muitas discussões entre governos, cientistas e principalmente entre os donos das grandes empresas de tecnologia, as BIGTEC que são o Google, Apple, Microsoft, Amazon e a Meta (dona do Facebook, Instagram e Whatsapp).

O sempre bastante discreto superbilionário dono da Microsoft Bill Gates, declarou que a IA tem que rever a velocidade como está desenvolvendo seus modelos. O super executivo Dario Amodei da empresa americana Anthropic, que é uma das principais empresas de IA no mundo, declarou que “as pessoas podem perder o controle da IA, e que ela pode ser mal utilizada para ataques cibernéticos e de bioterrorismo, a IA pode no futuro extinguir a raça humana e em poucos anos poderá dominar toda internet.”

Após o ocorrido até mesmo a ONU (Organização das Nações Unidas), pediu uma regulamentação urgente da IA tendo em vista um risco sem precedentes que pode atingir toda humanidade.

O famoso astrofísico britânico Stephen Hawking (1942-2018), tinha duas grandes preocupações, a primeira em relação aos foguetes lançados, que têm a exata localização do Planeta Terra no cosmo, o que poderia guiar para nosso Planeta, seres alienígenas mais desenvolvidos, que poderiam dominar a Terra, porém, sua grande preocupação era o desenvolvimento de máquinas inteligentes que fugissem do controle humano e que passassemba controlar o Planeta.

A única pessoa que se posicionou contra um maior controle da IA, foi o folclórico Presidente americano Donald Trump, que chamou o fato de conspiração doentia, segundo ele, a desaceleração nas pesquisas da IA, teria um grande beneficiado final, a China e que os alertas são feitos por traidores da Pátria. Bem, os novos tempos chegaram, novos desafios são colocados na nossa frente, obdesenvolvimento humano não tem retorno, todos os dias são feitas descobertas incríveis, o homem prova quanto a sua criatividade é incomensurável, o que assusta é a velocidade das bnovações, é o homem brincando de ser Deus, há pouco tempo em um programa de televisãbnorte americano, perguntaram a um comediante se ele teria medo da IA, ele respondeu que não,bpois qualquer problema era só desligar a máquina da tomada, o problema é que as máquinasbvão logo aprender como reconectá-las a rede elétrica.

Talvez, portanto, o maior desafio da inteligência artificial não seja impedir que as máquinas pensem, mas garantir que o ser humano continue capaz de decidir até onde elas podem ir.

COLUNA DO DR. ERIVELTON LAGO -O MENINO PICOLEZEIRO E O HOMEM PISTOLEIRO

 

O MENINO PICOLEZEIRO E O HOMEM PISTOLEIRO

Entre a segunda metade da década de 70 e a primeira da década de 80, Bacabal tinha um clima de cinema estilo faroeste americano. Não, eu não estou dizendo que as pessoas viviam trocando bala no meio da rua. É que nessa época viveu por lá um pistoleiro famoso conhecido pelo nome de Romão. Um homem branco, alto, passadas longas, cabelos lisos e tinha um jeitão de gente boa. Todavia, na cintura não lhe faltava um revólver 38 e um canivete tornozelo. Ele caminhava como se estivesse sempre pronto para mandar bala no primeiro homem que levasse as mãos à cintura. Nessa época, o maior cabaré da cidade era o “As Três Marias”, mas era conhecido apenas como “As Três”. Era uma rua cheia de boates, ou seja, eram casas de diversões abertas à noite, onde os homens iam para dançar, assistir a shows, beber Pitu e cerveja, comer e fazer sexo com as mulheres mais bonitas de toda a região. Era uma cultura “aceita”. Quando o Romão chegava no cabaré, todas as mulheres iam para a mesa dele. Os outros homens ficavam chateados, mas baixavam a cabeça para Romão não pensar que eles estavam o encarando, pois era morte certa. O único homem que não tinha medo de Romão era o “Cabo Santos”, um policial militar de cara feia que era temido por nós meninos, pelas mulheres e pelos homens daquela época. Todavia, percebia-se que o Romão e o Cabo Santos se respeitavam e até parecia que eram amigos. Romão respeitava o cabo e o cabo respeitava Romão. Nesse tempo eu já estava no início da adolescência, um pouco acima dos 13 anos de idade, mas eu e meus colegas da época tínhamos muito medo da polícia e do Romão. Em 1975 o prefeito de Bacabal era o Dr. Coelho Dias, nessa época, os homens ainda insistiam em ouvir as músicas “Foi Deus” e “Quem Sabe” de Agnaldo Timóteo, sucesso desde 1972 e Waldick Soriano com “A Carta”, de 1964 e “Eu não sou cachorro não”, de 1972. Pois bem, lembro-me que um dia, já na minha última profissão de menino picolezeiro, eu passava na “Rua das Três”, num sábado, por volta das 11 horas, ainda restavam uns doze picolés na minha caixa de isopor, pois eu havia vendido apenas uns oito. já passando na porta da boate, uma mulher me chamou: ei menino, encosta aqui, quero comprar um picolé. Quando eu encostei vieram todas as mulheres de dentro da boate, meteram as mãos na caixa de picolé e, em poucos segundos, não havia um só picolé na caixa. Com a caixa vazia, um homem alto e branco, falou: ei Neguin, coloca essa caixa no meio da rua para eu saber se meu revólver ainda presta. Era o Romão. Eu não entendi muito bem a toada dele, mas vi que uma das mulheres pegou a minha caixa, colocou no meio da rua, e, em seguida, eu vi bagaços isopor voando para todo lado, era a minha caixa sendo crivada de balas. Nessa hora, eu corri para um lado qualquer da rua, não lembro se para a direita ou para a esquerda, mas sei que cheguei em casa em pouco tempo e sem fala. Mamãe perguntou: o que foi meu filho? Mas eu ainda estava sem fôlego, não conseguia falar, acho que corri muito mais rápido do que o atleta jamaicano Usain Bolt, bicampeão olímpico e mundial. Terminado o cansaço, chegou uma mulher muito bonita na minha casa com uma certa quantia de dinheiro enviado pelo pistoleiro. Eu não sei quanto foi, mas sei que mamãe foi para a feira e trouxe de lá tanta coisa que até pensei que ela havia ganhado no “jogo do bicho”. Acho que passamos um mês de fartura lá em casa. Depois contaram o acontecido para a minha mãe e eu não retornei mais à profissão de picolezeiro, fui vender revistas da Editora Abril Cultural e outras: Veja, Disney, Mandrake, Capricho, Sétimo Céu, Cruzeiro, Manchete, Contigo e Fatos e Fotos. Acho que virei fã do Romão, mas pedi a Deus para que nunca mais aquele generoso homem aparecesse na minha frente. Acontece, porém, que em 1980 mudei para São Luís, MA. Em 1981 passei no concurso da Polícia civil, no governo de João Castelo. Ainda na primeira metade da década de 80, eu cheguei para tirar o meu plantão de 24 horas no 3º distrito policial da Vila Palmeira. Recebi o plantão do comissário Marcos Valério, por volta das 13 horas. Ouvi um barulho na cela, um chamado de preso quando quer pedir alguma coisa para os policiais. Marcos me alertou: cuidado, está preso aí um pistoleiro muito perigoso. Então entrei no corredor da cela. Quem estava lá? Romão. Estava de bermuda, uns três cordões de ouro no pescoço, um relógio muito bonito e uma pulseira dourada no braço direito. Diga, falei para o preso. Respondeu ele: por favor, você pode mandar comprar um galeto para eu comer? Respondi: claro, posso providenciar. Ele puxou o dinheiro do bolso e me entregou. Pedi para o Arnaldo ir comprar o galeto. Arnaldo era um daqueles caras que virou policial sem fazer concurso. Naquela época, a pessoa que começava ir para uma delegacia, caía na graça do Delegado e dos outros policiais, virava garoto de recado e estava sempre disponível, em pouco tempo, começava dizer que era policial. Como ele estava sempre junto com os policiais, ganhava prestígio, status e até “dinheiro”. Pois bem, Arnaldo trouxe o galeto e eu levei para o homem. Olhei para ele, criei coragem, e perguntei: você lembra de mim? Ele respondeu: não lembro, você me conhece de onde? Sou de Bacabal, respondi. Contei a história da minha caixa de picolé e do pagamento generoso feito por ele. O pistoleiro chorou. Ele estava com a autoestima baixa. Porém, senti que ele ficou feliz por mim. Passaram-se umas três semanas e Romão foi transferido para uma delegacia mais segura. Depois ouvi a notícia de que ele havia fugido depois de um ano de prisão. Alguns anos depois, tive outra notícia: Romão foi assassinado por outro pistoleiro muito famoso, na Boate Beira Rio, em Bacabal. Dizem os curiosos que os dois eram amigos. Enfim, Independente do bem ou do mal que praticamos, sempre passará um homem ou uma mulher que nos dará uma moeda ou um pedaço de pão, pois todo destino nos é dado por Deus.