POEMA PARA A QUEBRADEIRA DE CASTANHAS
As quebradeiras de castanha do mercado livre
são alicates com garras brilhantes
Mas há a coisa, os metais duros
e há o humano
O humano se utiliza das coisas
Humanos sem brilho, de olhar cabisbaixo
não pertencem ao mercado livre
As meninas não pertencem ao mercado livre
não serão compradas
As meninas quebradeiras de castanha não têm alicate, têm unhas
rasgando o leite ácido sobre a pele
Suas pretas unhas são um fato
que não se transcende nem se transfigura
com meras promessas de um poema sorri/dente
O poema não pode negar a tisna sob as unhas corroídas
na quebradeira de castanhas
O poema não pode embelezar certos fatos, sob pena
de ser cego, cruel ou fútil. O poema não pode se dar ao luxo
de fingir a dor real
e conduzir como a um rebanho satisfeito
todas as almas à festa
sem perceber que alguém carrega sombras
nos escuros dedos das mãos
Há ali a velha dor abafada e sem luvas
do subjugo humano
que a menina gostaria de arrancar do seu corpo
ou de impregná-las com o vermelho-brilhante
da existência – mas não pode
Cretino destino
Poderia dizer liricamente que suas unhas são belas
– mas não são
Eu só posso dizer que a vida é devir
Que o poema que lhes dedico é aquele que há de vir
Embora parcamente dedicado apenas às suas unhas
não aos seus corpos
não às suas almas
E há coisas que são apenas berros, não poemas
Um poema não nasce do dia para a noite
Um poema cresce como digital
até que exploda, fogo brilhando em carmim
ANTONIO AÍLTON (Bacabal, 1968) é poeta, professor e crítico literário. Doutor em Letras (UFPE), com foco na poesia brasileira contemporânea. Publicou, entre outros livros: A Camiseta de Atlas (2023), Ménage – Antologia trilíngue de poesia (2020), em parceria com o poeta Sebastião Ribeiro; CERZIR (2019), MARTELO & FLOR: horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (2018), Compulsão agridoce (2015) e Os dias perambulados & outros tOrtos girassóis (Prêmio Cidade do Recife, 2008). É membro da Academia Ludovicense de Letras e editor do site de crítica e divulgação Sacada Literária (sacadaliteraria.com.br).


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