domingo, 7 de setembro de 2025

POESIA - POEMA PARA A QUEBRADEIRA DE CASTANHAS - POR ANTONIO AILTON

POEMA PARA A QUEBRADEIRA DE CASTANHAS


As quebradeiras de castanha do mercado livre

são alicates com garras brilhantes

Mas há a coisa, os metais duros

e há o humano

O humano se utiliza das coisas

Humanos sem brilho, de olhar cabisbaixo

não pertencem ao mercado livre

As meninas não pertencem ao mercado livre

não serão compradas

As meninas quebradeiras de castanha não têm alicate, têm unhas

rasgando o leite ácido sobre a pele

Suas pretas unhas são um fato

que não se transcende nem se transfigura

com meras promessas de um poema sorri/dente

O poema não pode negar a tisna sob as unhas corroídas

na quebradeira de castanhas

O poema não pode embelezar certos fatos, sob pena

de ser cego, cruel ou fútil. O poema não pode se dar ao luxo

de fingir a dor real

e conduzir como a um rebanho satisfeito

todas as almas à festa

sem perceber que alguém carrega sombras

nos escuros dedos das mãos

Há ali a velha dor abafada e sem luvas

do subjugo humano

que a menina gostaria de arrancar do seu corpo

ou de impregná-las com o vermelho-brilhante

da existência – mas não pode

Cretino destino

Poderia dizer liricamente que suas unhas são belas

– mas não são

Eu só posso dizer que a vida é devir

Que o poema que lhes dedico é aquele que há de vir

Embora parcamente dedicado apenas às suas unhas

não aos seus corpos

não às suas almas

E há coisas que são apenas berros, não poemas

Um poema não nasce do dia para a noite

Um poema cresce como digital

até que exploda, fogo brilhando em carmim



ANTONIO AÍLTON (Bacabal, 1968) é poeta, professor e crítico literário. Doutor em Letras (UFPE), com foco na poesia brasileira contemporânea. Publicou, entre outros livros: A Camiseta de Atlas (2023), Ménage – Antologia trilíngue de poesia (2020), em parceria com o poeta Sebastião Ribeiro; CERZIR (2019), MARTELO & FLOR: horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (2018), Compulsão agridoce (2015) e Os dias perambulados & outros tOrtos girassóis (Prêmio Cidade do Recife, 2008). É membro da Academia Ludovicense de Letras e editor do site de crítica e divulgação Sacada Literária (sacadaliteraria.com.br).

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