Café com panqueca quente é Deus alimentando a gente.
Estava nas minhas caminhadas matinais sem nada na mente para escrever e de repente escutei uma canção que tem um verso que me sacudiu e me deu vontade de comentar aqui agora. O pedaço de canção é
"Por ser exato o amor não cabe em si, por ser encantado o amor revela-se, por ser amor invade e fim." (Djavan)
Este é um dos versos mais concisos e profundos da poesia musical brasileira — Djavan consegue, em poucas palavras, descrever a essência paradoxal e absoluta do amor. Vou desconstruir cada parte conforme eu sinto este poema canção:
1. "Por ser exato o amor não cabe em si"
Aqui está o primeiro paradoxo central: o amor é algo preciso, definido, verdadeiro — mas justamente por isso, ele não se limita, não fica contido dentro de si mesmo. Não é algo fechado, completo em si próprio; ele transborda. A sua exatidão não é uma caixa que o restringe, mas uma força que o faz ultrapassar qualquer fronteira. Amor que se guarda, que se confina, não é amor de verdade — ele precisa espalhar-se.
2. "Por ser encantado o amor revela-se"
"Encantado" aqui, para mim, não sou especialista em língua portuguesa, mas tem duplo sentido: é ao mesmo tempo maravilhoso/mágico e também tomado por encanto, sem poder esconder-se. Quem ama não consegue ocultar: o amor se mostra nos gestos, no olhar, na forma de falar. Ele não precisa ser anunciado — ele se revela por sua própria natureza, como luz que não pode ficar escondida. É uma manifestação espontânea, involuntária, inexplicável e ao mesmo tempo o poeta tenta materializar.
3. "Por ser amor invade e fim"
A última frase é o coração do pensamento — firme, sem rodeios. "Invade": o amor não pede licença, não se negocia, não se escolhe racionalmente. Chega e ocupa todo o espaço — no coração, na vida, no pensamento. Não há meio-termo, não há controle, tem a fúria do furacão.
E o "e fim" é o toque de mestre que só os gênios conseguem: simples, definitivo, sem mais delongas. Como se dissesse: é assim, ponto final. Não há argumento, não há por que discutir ou tentar compreender com a razão — é a sua natureza. Aceita-se ou não se aceita, mas isso não muda o fato: o amor é assim, e pronto.
L -:Fico maravilhado de ter nascido e me deliciado das obras desses gigantes como Djavan
Djavan trabalha com economia de palavras e riqueza de sentido: três frases curtas, mesma estrutura gramatical, ritmo suave — e cada uma carrega uma camada de profundidade. Ele não fala de amor como sentimento bonito e passageiro, mas como força da natureza: exato, transbordante, visível e irresistível.
- Não há idealização romântica exagerada
- Há reconhecimento de que o amor é maior que nós — não o dominamos, ele que nos toma
- A estrutura em paralelismo ("por ser… o amor…") dá a impressão de que está apenas declarando fatos, como se explicasse uma lei do universo. Deus é genial ao instalar esse sentimento em nós mortais.
É por isso que esse verso toca tantas pessoas: fala aquilo que sentimos mas não conseguimos nomear. Djavan nomeou — em 17 palavras.
Sinto falta dessas genialidades nas canções modernas, acho que estou ficando velho e acabado e...ultrapassado.
Saúde, sabedoria e equilíbrio para todos nós.
Força, grana, poesia e fé sempre.
Jorge Passinho


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