SONETO PARA A QUE CHEGA
Quem canta esta canção, canção que embala
dentro em meu peito, uma ilusão menina?
Quem foi que assim me arrebatou a fala
para um silêncio que não se imagina?
E esta mão que me vem tão cor de opala,
que me atormenta a uma carícia fina,
Por que se tento, lúbrico, tocá-la,
esta mão se dilui, se faz neblina?
Quem, por ventura, me supõe criança,
me inocenta do mundo e não se cansa
de trazer para mim cantiga e afago?
Quem chega às vezes tão fugaz, tão pura,
que só ouvil-a pela noite escura,
faço-me luz e como luz me apago?
José Chagas


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