sexta-feira, 11 de setembro de 2026

POESIA - CIRROSE AZUL ,- CUNHA SANTOS FILHO


Cirrose Azul


São os testículos de Deus que agora arranco 

na marcha em que não marcho pois sou manco 

na mesa em que me esfumo no vinho do mal 

rolo-me por mim, que sou barranco 

choro de beber, choro e me tranco 

que nem o olho aceita o choro do chacal


Porque quis eu dar outro murro em Cristo 

com toda alma danada de um Buda misto 

e ser punido, hoje, por não ter pais 

se nem sequer é minha roupa e eu nem visto 

quero ser homem — sou apenas quisto 

quero ser carne — sou só cicatriz


Não tive a vez do azul quando do gozo 

a mim foi dada a queda, nunca o pouso 

e outros retesaram-me no chão 

assim, ó vil cantiga que eu nem ouso 

nesta cama de gato é que eu repouso 

ferreado da violenta compulsão


Não irei longe. É certo, me esfarinho 

o séquito do demo é o eu sozinho 

o eu, ou 10, milhões mamando a paz 

— por tantas vezes destruí meu ninho 

sou como inseto que alagado em vinho 

afoga, arqueja, sofre e bebe mais


Tridente, fogo, rastro de cometa

o mundo onde estou é uma maleta 

trancada aos ais das mães e aos ais dos pais 

vivo de espirros — gripe de escopeta 

entregador de horror, eu estafeta 

que desde que se foi, não foi jamais


Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —

tantos se juntam pra eu ser vazio 

tantos se aninham pra me reverter 

eu, que de um só, após, me fiz um trio 

durmo em mim mesmo e choro enquanto rio 

de ver meu próprio riso apodrecer 

.................................................

Mas há um cão distante que poreja 

há uma lombriga d'ouro que me beija 

e alguém que ri falido de tormento 

há uma carne sem sal, que de sal seja 

que eu me mudei pra um balde de cerveja 

e fiz de um copo meu apartamento.


Cunha Santos Filho 

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