quinta-feira, 11 de junho de 2026

PIESIA ÉE HOJE, AGORA ! - ZÉ CARLOS GONÇALVES

 .


. E HOJE-AGORA!

      (as benditas lembranças)

... ainda-ontem, 

    gritei o meu primeiro grito, nas horas mansas da manhã; 

                 e, hoje-agora,

    ainda escuto os primeiros ecos

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    palmilhei o primeiro passo, a me firmar nas enfraquecidas e bambas pernas;

                 e, hoje-agora,

    já consigo reproduzir os meus primeiros vacilos

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    me empaturrei com o angu com isca, que vovó me dedou na faminta boca, a me sustentar a nascente carcaça;

                 e, hoje-agora,

    me nutro somente de vivaz e saborosa poesia 

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    pesquei piaba na garrafa e a comi assada com sal, limão e pimenta malagueta, à beira do Pericumã, na mais solene e divina refeição;

                 e, hoje-agora,

    ainda trago comigo o sabor infanto-bendito do manjá de todo o sempre

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    corri as minhas dúvidas, para me embrenhar nas coivaras do roçado faminto de arroz, feijão, maxixe e jerimum, a me fartar na fartura, que me saciou;

                 e, hoje-agora,

    trago as mãos sem calos, mas sedentas da bruta lida e da fome das labaredas, a alimentar a ressecada terra

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    lamentei a ausência das montanhas, que não aquarelaram as minhas retinas, até descobri que elas não se importariam com o meu pânico;

                 e, hoje-agora,

    vivo intensamente os meus planos e verdes campos verdes

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    no sacro domingo, ouvi o sino da matriz a me chamar à missa. Em frente ao glorioso altar, sussurrei, mais uma vez, novas promessas ao meu santinho Santo Inácio de Loiola;

                 e, hoje-agora,

    guardo as novenas de minhas preces e de minha contrição 

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    no batismo, gritei o santo nome; na comunhão, abracei Cristo Jesus; na crisma, me aliancei com o Espírito Santo;

               e, hoje-agora,

    no vasto e cativante mundo, vivo o sagrado e o profano, apegado à minha fé 

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    no meu recreio, mordi a ingá e o araticum, a me resinar os dentes, com as mais deliciosas bocadas;

                e, hoje-agora,

    sigo menino ditoso das delícias da terra

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... ainda-ontem,

                  fui criança;

                e hoje-agora, 

    ainda atado ao sagrado chão, voo às minhas saudades, a me lambuzar em minhas benditas lembranças!

          Zé Carlos Gonçalves

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