CENAS DO COTIDIANO LIII
A Ilha vai se ressentindo da canhenguice de São Pedro. A chuva seletiva escolhe onde cair. Ora em sereno, ora em cachoeira. Sempre numa dança doida: um chuvisco ou um toró, secundado por um inclemente sol, que tenta furar a nossa castigada cachola
e, na nossa cachola, não entra a onda de agressão por militares, que deveriam estar zelando pela nossa segurança e vai se espalhando como rastilho de pólvora. Em todos os níveis. Mas o pior é quando se concretiza em feminicídios ou quando adentra o ambiente escolar, desnudando o indecente despreparo em lidar com a educação
e, por falar em despreparo, vou além. A situação exige um olhar crítico e complexo, já que envolve a falsa ilusão de tudo poder, do lado da força repressiva ; e o anseio de desbravar o mundo, do lado da afoita e viril juventude
e, nessa tensa e desigual relação, se apresenta a família, que tem muito a ver com isso. Não pode simplesmente jogar os seus filhos, à deriva, na escola. Afinal, a escola não é a cartola mágica para solucionar todos os desafios da formação cidadã
e, sem mágica, a família há de assumir "responsas" e dedicar tempo e (in)formação a seus rebentos. Tempo, invariavelmente, dispendido nos bares, nas praias, nas festas, nas telas, nos próprios umbigos, nas ausências
e, sem núcleo familiar forte e consciente, não haverá exemplo de civilidade. E se cria um exercício de jovens órfãos de pais vivos. Alguns perdidos em suas inseguranças. Outros perdidos na certeza de que tudo podem
e, nessa triste levada, vai se perdendo o rumo. Sem reserva moral, sem educação, sem lideranças, sem núcleos familiares sólidos, sem futuro promissor, sem luz no início, no meio ou no fim do túnel
e, se não encararmos com seriedade a nossa atual e crítica situação, nem céu aberto nem caverna nem túnel teremos mais
e, com muita tristeza, me vou ...
Inté maise!
Zé Carlos Gonçalves


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