63, E agora José?
Nasci rm 23 de outubro de 1963. Hoje, portanto, completo 63 anos. Não posso dizer que, bem vividos, mas, vividos. Desregradamente, vividos. Carrego no peso de todo esse tempo, muitas glórias, inglórias, ilusões, desilusões, amores, desamores, altos, baixos, prós contras, e todos os antagonismos inerentes a uma pessoa, ou, qualquer pessoa que, por dádiva divina, se destaque no que faz.
Nasci com o dom da música, da poesia, das letras, das palavras e isso me deu tudo, o pouco que tenho, sem precisar de nada ilícito. Isso me conforta, e até hoje o meu dom me dá o pão de cada dia, o que agradeço a todos que me ajudam a comprar.
Logo cedo, vem a dor da agulhada diária, abro a bolsa com caixas com medicamentos e sigo a engolir comprimidos, em um ato já automático. No espelho, o óculos na cara, muitos cabelos brancos, e a tinta me socorre. O dia a dia sempre me traz uma noite embaraçada e se rola um clima, sempre tenho uma pílula azul para tinturar o amor.
Não sou diferente de ninguém, já tive todos os sentimentos, bons e ruins, sou meio explosivo, mas não sei o que é o ódio, o rancor, sei a força de perdoar e de pedir perdão. Me arrependo sim, de muitas coisas que não fiz, mas, me arrependo mais, de muitas coisas que fiz.
Deixei de fazer muitas coisas, fui vítima de tantas coisas, ouvi muitas coisas sem poder responder e até falei muitas coisas, úteis ou inúteis, coisas são só coisas, mesmo assim, alimentam.
Envelheci como a árvore que plantei na infancia, , meu tronco cresceu, sofri metamorfose, botei flores, dei frutos e hoje sem folhas, meus galhos quebradiços, caem e sujam todo o chão, onde um dia, varrido pelo vento, vê gora os meus pedaços apodrecerem e se misturarem à frialdade inorgânica da terra. Um bom estrume.
Fui menino, cresci na solidão dos quintais, lavei meu corpo na água barrenta do rio, perdi a alma no silêncio calórico da noite, prendi na gaiola das horas, o passarinho que me despertava com seu canto, todas as manhãs que cismavam em chover.
Aprendi a fazer do amor uma bela canção e da morte, uma triste poesia. Misturei as cores, as dores, o grito e o medo, e pintei a tela da minha existência e assinei com um pseudônimo ilegivel.
Fiz muitos projetos, realizei alguns, outros não. Tenho uma biografia obscura, inexpressiva, incompreensível, registrada em pergaminhos, recheada de Diáspora e dialetos.
Como escritor, tenho três livros lançados- Bacabal, cenas de um capítulo passado (Cronicas), Confesso que vi, vivi e até ouvi (cronicas) e o recém lançado, Repente Urbano (poesias) e trabalhos literários em coletâneas e antologias.
Como cantor, tenho 09 Cs e um EP gravados. Bourbon, Festa, Sobre todas as coisas que aprendi por aí, Aos Brincantes, Todos os junhos, Decalque, Concerto para Sao Luis, Um Carnaval no teu sorriso, Um Salão para Nós dois e o EP Noir. Participei de muitas coletâneas, a exemplo de Nossa voz, Nossa VozII, Nós, Toadas, Festiveiros, Bacabal 90 anos, o canto da Ema...
Como compositor, tenho mais de mil músicas gravadas, e o meu trabalho além de fazer parte do Cancioneiro junino e carnavalesco maranhense, também é ouvido em todo o Brasil.
Essas conquistas não fazem de mim maior do que eu sou e nem maior do que ninguém, apenas consegui algumas coisas que corri atrás.
Hoje completo 63 anos, e acho que estou completo, o homem e o poeta. Sobrevivi ao caos, travo uma guerra diária com meus invencíveis demônios e meu sono, sempre aos pedaços, me impedem de sonhar.
Uma taça de vinho suja de batom, a cerveja esquentando no copo e o cigarro apagado no cinzeiro. É o fim da festa, e o que restou de mim, perambula na morbidez do quarto, onde a morte me espreita e por várias vezes tentou me levar, mas o Deus poeta condicionou essa aventura - se você morresse, mas você não morre- e a poesia se eternizou e sussurrou no meu ouvido, - Você é duro, José. E lá se vão 63 primaveras, ainda que as flores não sejam assim tão belas.
ZeLopes.


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