Estamos atravessando páginas já um pouco amareladas da vida. Mas quanta história guardam essas páginas!
A infância de alegrias simples, os sonhos da juventude, a responsabilidade do trabalho, as famílias que construímos e os netos que chegaram para dar novos nomes à felicidade.
Nossa bagagem tem o peso e a beleza de uma vida inteira. Carregamos nela os ensinamentos dos nossos pais, o trabalho honesto, as renúncias silenciosas e a satisfação de termos sido úteis.
Há também saudades que apertam e lembranças que ainda nos fazem sorrir.
Ao longo do caminho, testemunhamos mudanças que nos inquietam: a palavra empenhada perdendo valor, o respeito sendo confundido com fraqueza, a honestidade recebida com espanto.
Como médico, pai e avô, preocupa-me também a dificuldade crescente de conversar sem transformar divergências em rompimentos.
Na medicina e na vida, aprendemos que algumas dores não aparecem nos exames.
Moram no silêncio de uma casa, numa conversa interrompida, na distância entre pessoas que se amam e na pergunta aflita de quem se dedicou tanto: “Que futuro espera os nossos?”
Deus, Pátria e Família são os alicerces da minha vida.
Deus me sustenta quando minhas forças vacilam.
A Pátria é o chão da minha história, das minhas raízes e das esperanças que ainda cultivo.
A família é a parte mais sensível do meu coração; tudo o que a alcança repercute dentro de mim.
Foi com esses sentimentos que fiz minha escolha.
Levei comigo a memória dos meus pais, os valores que recebi e os rostos daqueles que ainda têm tanto a caminhar. Pensei nas minhas filhas e nos meus netos, na segurança, nas oportunidades e na dignidade que desejo para eles.
Na nossa idade, o futuro tem o nome de quem amamos.
Minha participação foi além do voto. Conversei, expus minhas razões e procurei conquistar outros votos para a mudança em que acreditava.
Fiz isso com convicção e com a responsabilidade de quem sabe que as decisões políticas chegam à mesa das famílias, às salas de aula e aos consultórios, onde recebemos diariamente as dores do povo.
Ainda encontro esperança nos jovens que cultivam a fé, estudam com seriedade, trabalham e cuidam do próximo. A presença deles na igreja me comove; suas atitudes fora dela também me animam.
Há muita juventude que merece nossa confiança, nossa escuta e nosso apoio.
Respeito a escolha das urnas, mas esse respeito não apaga minha decepção. Preocupa-me o caminho do país onde vivem as pessoas que mais amo e ao qual dediquei tantos anos de trabalho.
E confesso: fiquei profundamente triste e chorei.
Chorei pensando nos meus netos, na esperança que depositei nesta mudança e no desejo de lhes deixar um Brasil melhor. Envelhecer também traz essa aflição: perceber que os braços com que acolhemos os nossos não conseguem protegê-los de tudo.
Não dormi nada naquela noite.
O corpo pedia descanso, mas o pensamento continuava de pé, andando pela casa por dentro de mim.
Foi assim que descobri uma ressaca que ainda não conhecia: a ressaca política. Depois de tantos anos de vida e de medicina, fui conhecer essa agora… Sem uma gota de álcool, ela me tirou o sono e me fez amanhecer tentando digerir aquilo que o coração ainda custa a aceitar.
Que Deus nos dê serenidade e saúde para continuarmos presentes na vida dos nossos, oferecendo o que aprendemos pelo caminho e preservando a esperança de dias melhores.
Amanheci com os olhos cansados e o peito apertado, mas com a consciência em paz.
Fiz minha parte, defendi minhas convicções e votei pensando no bem da minha família e do Brasil.
Continuarei cumprindo minha responsabilidade, mas não posso assumir como minha uma escolha que não fiz.
Otavio Pinho Filho
#ESSACULPAEUNÃOCARREGO 🇧🇷


Nenhum comentário:
Postar um comentário