terça-feira, 20 de outubro de 2026

POESIA - O CORPO - ABEL CARVALHO

 

O corpo


Visto lembranças com a dura capa da saudade.

Encarno em mim mesmo o tempo véu de sofrimentos.

O corpo treme de desejos sem esperanças.


Rompo o lacre do passado, vejo a tênue imagem do teu corpo e ouço o sibilar dos teus pedidos, mistura de prazer e dor sem sentido, escárnio do desejo incontido do coito interrompido e sem final, sem fim...


Ainda sinto o cheiro do gozo que não veio e que eu queria

Tanto queria, mas nunca cheguei a ter e nem chegarei

Apenas sonho de olhos abertos, vez que não durmo

Como se tudo hoje fosse; o suor, teus olhos cerrados,

Teu choro ensandecendo meu coração vorazmente,

Tuas pupilas mortas e quebrantadas,

Meu corpo inerte a de dar repouso em um tempo e final que nunca foi meu.


Abel Carvalho



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