HISTORIETA DE MEU AGRADO XIV
("... a mente prega cada peça, que até parece duas")
Um dia desses, estava na rua, absorto "em minhas demências", quando fui despertado pelos sussurros das pessoas, que ali estavam. A verdade é que passou uma adolescente, a chamar a atenção de todos. E ela, embora bem jovem, era senhora de si e sabia que "estava causando!"
Mas, não quero falar da chamativa garota. Quero falar do que me assaltou naquele momento. De repente, me veio a palavra a defini-la, sem erro. "Reboculosa". Palavra, que fazia parte do meu cotidiano. Porém, há um bom tempo não falava, não ouvia, não lembrava.
O certo é que, com essa lembrança, um turbilhão de emoções me invadiu. Que palavra tão familiar e tão com cheiro de infância! Aí, fiquei a buscar palavras e expressões, que me sustentaram nos meus bons tempos infanto juvenis.
E, aí, "a jato", vieram surgindo "sabanoteira, gamela, púlcaro, cibuí", que hoje ninguém fala nem conhece. E o rosário vocabular só foi se estendo, a se revelar pródigo.
E, nessa efusão linguística, me sorriu "cucuruto, péréba, dispirôcô, incapetado". E, "pra compretá", vieram me invadindo "muitas e muitas pérolas", tão familiares e tão adormecidas, a me amaciarem os ouvidos, tão órfãos das mesmas.
E, não vou me fazendo de rogado, compartilho e homenageio o inigualável baixadês. E espero alcançar "o cabôco da gema", que "não se perde no mundo" nem se desliga da amada terrinha. Então, vamos lá!
Só quem muito brincou na rua, e "apenas se basugava água no côro", sabe o que significa o recado, sêco e direto. "Vô iscová êssi piquino". E pretensa escova, geralmente, era um caco de telha ou uma bucha, resgatada da velha e segura cerca, prenhe de "tantos penduricalhos".
E, até, poderia parar aqui e seguir em frente, sem maior preocupação. Só que a inquietação foi tanta que muitas outras expressões foram se materializando em minha mente, como a me empurrar à minha linguagem materna. E, de verdade, matei a saudade, ao me deparar com a dura realidade "di tentá ingabelá" alguém mais velho. A farsa caía fácil, fácil. "Êssi piqueno tá di cara limbida" ou "tá di miôlo móli" ou "vévi im ôto mundo!"
E, nessa perspectiva, o repertório foi se engrossando. "Vesti uma rôpa melhózinha" não era nada mais do que "tomô um banho de loja" ou "paréci qui vaca lembeo êssa muleca".
E pecado mortal era aparecer em uma festa com roupa igual a alguém, que a sentença era certeira. "Tá di pá di jarro". E, "pra num perdê a viági", se houvesse "arguma paricença", a sentença se fazia plena. "Cara d'um fucinho dôto". O que não invalidava o antagonismo etário, que incomodava muita gente. "Tá na frô da idade", a enfrentar "ficô pra titia". Nem a hiperbólica irracionalidade foi esquecida. "Tá cum dhabo nu côro!"
Só para bem ilustrar o riquíssimo repertório, em certa ocasião, fui ser padrinho em uma desobriga. Quando "foi servida a mesa", na casa do meu novo compadre, um dos irmãos do meu afilhado caiu na besteira de dizer que não comia galinha "dêssi jeito". Era ao molho pardo, acompanhada por um delicioso pirão de parida. Só pra fazer inveja! O certo é que a reprimenda veio sêca e com uma pitada de humor. O meu compadre olhou para "o estômago sensível" e mandou. "Qui cunversa é êssa?! Intonce, agora, tu iscólhi isculhão?!"
Ali, a cena, que era para ser constrangedora, se tornou em uma uníssona gargalhada, que "ecoou lá longe", no olho da palmeira de babaçu. E, o cúmulo da ironia, "u piqueno si sentô nu canto da mesa i cumeo tudinho, diritinho!" Aí, "butei foi fé nu meo cumpádi!"
E não posso terminar por aqui, depois de um mergulho profundo e verdadeiro. Então, "vô inveredá pulos apilido", que foram presentes em minha trajetória e me trazem boas lembranças. Com a maioria, tive convivência fraterna. Alguns habitam o imaginário popular.
E o que importa, nesse universo linguístico fantástico, é que desfrutei do privilégio de conviver com tais pessoas, especiais e inesquecíveis. "Zé Barata, Farinha Barata, Pato Cozido, Chico Cu de Televisão, Bateria, Mandi, Buchudo ..."
E "um ispecial" - não falo o nome, para não criar intriga - de um colega, de colégio, que trocou a moiçola pela avó. Daí, foi um pulo para José .. ..... se incorporar em "Zé das Velhas"; o que suscitou inúmeras desavenças e brigas de fato.
E, como não poderia fechar este texto sem resgatar "lorota, gastura, paparicá e só quê sê", vou me despedindo saudoso ...
Zé Carlos Gonçalves


Nenhum comentário:
Postar um comentário