O ÚLTIMO INGRESSO
(canções à espera do cofre público)
O show particular vai desaparecendo como estrela ao amanhecer — não some de uma vez, apenas perde o brilho até que ninguém mais note sua ausência. A música continua ali, é verdade, mas agora sempre amparada por cofres oficiais, como se a arte tivesse desaprendido a caminhar com as próprias pernas.
Em São Luís, os palcos se erguem altos, iluminados, grandiosos. Nomes famosos ecoam pelos alto-falantes, e o povo chega em ondas, levado pela promessa do gratuito. Aplausos enchem a noite, mas ninguém se pergunta quem pagou pela canção. Criou-se a ilusão de que o som nasce do vento, que o artista canta por devoção, que o espetáculo brota do chão como milagre.
As coisas mudaram. O ingresso, antes dobrado no bolso com carinho, perdeu o valor simbólico. Pagar para ouvir música virou estranhamento. Esperar pelo patrocínio virou regra. O desejo agora depende de decreto.
No interior do Maranhão, o silêncio pesa mais. As praças aguardam datas oficiais como quem espera chuva. Fora disso, restam bancos vazios, fios desligados, vozes guardadas. A festa só existe quando o poder público autoriza o sonho.
E assim a cultura vai ficando cativa. Produtores independentes resistem em ruínas de esperança. Artistas cantam mesmo sem plateia, porque a música não sabe desistir — mas cansa. Cansa de ser gratuita, invisível, tomada como obrigação.
Talvez o maior empobrecimento não seja financeiro, mas sensível: esquecer que arte tem custo, tem suor, tem vida. Que cultura não é favor — é valor. E quando não é cuidada, definha em silêncio, como um último acorde perdido na madrugada.
Paul Getty S Nascimento
poeta, compositor, cronista, chargista e membro da APL - Academia Pedreirense de Letras


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