*A cidade de São Paulo não dorme, mas para Helena, ela também nunca acorda de um pesadelo que já dura quatro mil e duzentos dias. Quando ela desembarca na Estação da Luz, considerada como patrimônio histórico por refletir o momento em que foi construida, mostrando o poder do café no crecimento da cidade. O fluxo humano parece um rio caudaloso de rostos anônimos, cada um mergulhado em sua própria urgência, seus fones de ouvido e suas pequenas tragédias cotidianas. Para quem observa de fora, Helena é apenas mais uma mulher simples na multidão, carregando uma bolsa de plástico desgastada e um olhar que parece focar em algo além do horizonte visível. Mas, dentro daquela bolsa, protegidos por um envelope pardo, estão os rastros de sua existência: centenas de panfletos com a foto de um menino de dez anos, olhos amendoados e um sorriso levemente desalinhado que o tempo se recusa a envelhecer.


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