quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

POESIA - PAPÉIS AMARELOS - JOSÉ SARNEY





 Papéis amarelos


Revisitando a Casa da Infância, no Outono

Na máquina em que escrevo

o teclado

de santa alucinação.


Sozinha brilha e aparece

entre tipos e aranhas

a amarga madrugada

do recordar.


Na terra em que meus olhos descobriram o mundo

abre-se

a flor da memória.

Verdes campos

em que me fiz igual a eles.

Surgem

nuvens, um pântano, uma cacimba.

Depois o velho poço.

O poço que amarga o relembrar

onde enchi de água o balde ralado

pedras pretas, musgos do tempo

plantas penduradas que teimavam em crescer

nos encaixes das juntas de fungos negros.

Sapos boiando,

o lancear da corda trazendo o balde.

O poço não é o poço

é um espelho

meu rosto copiado

nas águas guardadas

no fundo de mim.


Aparecem o pé de urucu

com as cachopas espocadas

a mangueira onde dormiam as galinhas

e a horta onde as mãos de minha avó

esmagavam folhas de vinagreiras

e onde o cavalo preto, Graúna,

relinchava com a descarga

das cargas de palmito.

Este remoer

acorda solidões esquecidas

junto aos pés de figo, no limoeiro,

no pé de romã, de grumos que

traziam a felicidade dos bons anos.


Encontro uma moça de cabelos longos

ajoelhada.

É minha mãe rezando.

Meu pai a falar das coisas de Deus

meus irmãos com as pequenas mãos

entrelaçadas nas cantigas de roda

na pureza de que tudo seriaeterno

e nada tombaria.


Os anos se escondem nas saudades

que desaparecem

deixando apenas encardidos ossos.

Onde estão? Esmagados no silêncio.

Só tu, alma minha, tens a ressurreição

que surge sem sol

cresce sem água, abre flores,

dá frutos e ilumina

esse travo do ter existido

na sombra da memória.


O padroeiro no altar.

A seus pés a oração

de implorantes perdões

por todos os pecados

que depois soubemos não eram.


Nas colunas pobres do templo

cobrindo as pedras carcomidas

as tintas imitavam o mármore

esperança do fausto dos grandes santuários.

A Basílica de São Pedro

não tem a beleza da cor de terra

da capela-morta da igreja

do Senhor São Bento.


Acorda, saudade do possível.

Abram meus olhos

para ver estas sombras

da alma que corre em busca

de agarrar-se ao que passou, para fugir.

Casa da minha infância.


As janelas pintadas de azul

bancos toscos, mesas gastas

os gostos dos pratos do angu

de todos.


Meu avô, minha avó, meu pai,

minha mãe, meus irmãos,

o riso de festa

na algazarra daqueles dias

em torno dessa mesa de alegrias e mangas.

Aos meus olhos, boiava a felicidade eterna.


Lágrimas chegaram. Flores murchas.

Um corpo velado: José Adriano.

Foi o primeiro.

E começou o mistério do vazio.

Os anos foram se amontoando no corredor

até serem tantos que não se pode ver.

A varanda é um só longo espaço morto.

Limpa a mesa, sem cadeiras e olhos.


Tudo é um instante

que sobrevive com lágrimas secas.

Não está morto. Vive eterno.

Volto à casa

Posso vê-la aberta, janelas e portas escancaradas

o vento derrubando as mangas-caianas, a chuva caindo

as biqueiras correndo

dos telhados envelhecidos

a água santa no sortilégio do amor passado.

Volto ao batente da despedida.

Olho para trás.

O que viveu vive e

está morto

e foge dos meus olhos

e de minhas mãos.


As candeias de azeite

não iluminam mais

porque o escuro clareia.

A luz não existe mais.

Toda memória está cega

na saudade morta.


Eu mesmo não estou em mim,

liberto para sempre da felicidade.


 


 


O Quarto de Tijolos

Era diferente.

O vermelho do barro cozido,

lugar das preces.

Irregulares quadrados no chão,

cheios de sombras sugeridas e fugazes.

Um leão, uma cobra,

um velho, um pênis, uma coxa.

As formas se misturavam em mudanças de cores e linhas.

Sempre voltava para revê-las.

Fugiam dentro dos meus olhos.

Outros contornos nasciam

no mistério desse quarto.


Ao fundo, o santuário polido de preto,

com folhas de palhinhas de Reis,

porta de vidro em arcotosco,

restos de presépios.

Santana, Santo Antônio, Santo Irineu

— com as mãos separando no peito o hábito jesuíta.

Os santinhos coloridos de papel, desbotados,

tintas velhas, caras desfeitas.

O oco Menino Jesus cheio

com os umbigos

de todos nascidos na casa:

meu pai, meu tio, meusirmãos

e minha irmã. De Pinheiro chegou,

seca relíquia amassada de pele,

o meu,

e ali ficou com os outros para sempre.


Amas, as velhas comadres,

tiradeiras de rezas e ladainhas,

o latim das vilas velhas.


O vermelho dos tijolos gastos

permanece pálido.

Os cantos fundos, as rezas altas.

Meu avô lendo o visionário Isaías

e Deus

presidindo a mesa da família

nas noites das ladainhas,

entoadas no latim

das velhas.


Nestas visões,

tudo desaparece e volta.

Vem a escuridão,

e as chuvas daqueles ermos,

no esconderijo do barro.


— Conta, Debum, a história de Santa Maria.

“Ela era mulher do Alegre e o Diabo veio atravessá-la

na malhada do Jenipapo.

Quando ela viu que era o Capeta,

jogou-se na lagoa e de repente

nasceram capins e canaranas tão altas

que ele não pôde encontrá-la.

Chegou molhada, tremendo de frio, na igreja

e Monsenhor Conduru mandou fazer

uma imagem de cedro cheiroso para guardar seu corpo.”


— Conta, Debum, outras histórias.

“Era uma vez um menino chamado José,

ele está aqui,

dentro de ti.

Dorme.”


Noites e visões de fantasmas,

monstros, curacangas e fogo-preto.

Passos lentos e escondidos

da falecida tia Zica

andavam no quarto de tijolo,

assombrado e guardado

por mil cavalos de vento,

mil bestas de bem-te-vis,

apelos e terços,

rosários e hortelãs,

cheiros daquele cômodo

que até hoje destroça

com seus gemidos do tempo,

um escravo daquele vermelho barro,

cozido por sete fornos,

no fogo dos campos cheios

que encheram minha infância

e não queimarão jamais.


José Sarney 

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