Papéis amarelos
Revisitando a Casa da Infância, no Outono
Na máquina em que escrevo
o teclado
de santa alucinação.
Sozinha brilha e aparece
entre tipos e aranhas
a amarga madrugada
do recordar.
Na terra em que meus olhos descobriram o mundo
abre-se
a flor da memória.
Verdes campos
em que me fiz igual a eles.
Surgem
nuvens, um pântano, uma cacimba.
Depois o velho poço.
O poço que amarga o relembrar
onde enchi de água o balde ralado
pedras pretas, musgos do tempo
plantas penduradas que teimavam em crescer
nos encaixes das juntas de fungos negros.
Sapos boiando,
o lancear da corda trazendo o balde.
O poço não é o poço
é um espelho
meu rosto copiado
nas águas guardadas
no fundo de mim.
Aparecem o pé de urucu
com as cachopas espocadas
a mangueira onde dormiam as galinhas
e a horta onde as mãos de minha avó
esmagavam folhas de vinagreiras
e onde o cavalo preto, Graúna,
relinchava com a descarga
das cargas de palmito.
Este remoer
acorda solidões esquecidas
junto aos pés de figo, no limoeiro,
no pé de romã, de grumos que
traziam a felicidade dos bons anos.
Encontro uma moça de cabelos longos
ajoelhada.
É minha mãe rezando.
Meu pai a falar das coisas de Deus
meus irmãos com as pequenas mãos
entrelaçadas nas cantigas de roda
na pureza de que tudo seriaeterno
e nada tombaria.
Os anos se escondem nas saudades
que desaparecem
deixando apenas encardidos ossos.
Onde estão? Esmagados no silêncio.
Só tu, alma minha, tens a ressurreição
que surge sem sol
cresce sem água, abre flores,
dá frutos e ilumina
esse travo do ter existido
na sombra da memória.
O padroeiro no altar.
A seus pés a oração
de implorantes perdões
por todos os pecados
que depois soubemos não eram.
Nas colunas pobres do templo
cobrindo as pedras carcomidas
as tintas imitavam o mármore
esperança do fausto dos grandes santuários.
A Basílica de São Pedro
não tem a beleza da cor de terra
da capela-morta da igreja
do Senhor São Bento.
Acorda, saudade do possível.
Abram meus olhos
para ver estas sombras
da alma que corre em busca
de agarrar-se ao que passou, para fugir.
Casa da minha infância.
As janelas pintadas de azul
bancos toscos, mesas gastas
os gostos dos pratos do angu
de todos.
Meu avô, minha avó, meu pai,
minha mãe, meus irmãos,
o riso de festa
na algazarra daqueles dias
em torno dessa mesa de alegrias e mangas.
Aos meus olhos, boiava a felicidade eterna.
Lágrimas chegaram. Flores murchas.
Um corpo velado: José Adriano.
Foi o primeiro.
E começou o mistério do vazio.
Os anos foram se amontoando no corredor
até serem tantos que não se pode ver.
A varanda é um só longo espaço morto.
Limpa a mesa, sem cadeiras e olhos.
Tudo é um instante
que sobrevive com lágrimas secas.
Não está morto. Vive eterno.
Volto à casa
Posso vê-la aberta, janelas e portas escancaradas
o vento derrubando as mangas-caianas, a chuva caindo
as biqueiras correndo
dos telhados envelhecidos
a água santa no sortilégio do amor passado.
Volto ao batente da despedida.
Olho para trás.
O que viveu vive e
está morto
e foge dos meus olhos
e de minhas mãos.
As candeias de azeite
não iluminam mais
porque o escuro clareia.
A luz não existe mais.
Toda memória está cega
na saudade morta.
Eu mesmo não estou em mim,
liberto para sempre da felicidade.
O Quarto de Tijolos
Era diferente.
O vermelho do barro cozido,
lugar das preces.
Irregulares quadrados no chão,
cheios de sombras sugeridas e fugazes.
Um leão, uma cobra,
um velho, um pênis, uma coxa.
As formas se misturavam em mudanças de cores e linhas.
Sempre voltava para revê-las.
Fugiam dentro dos meus olhos.
Outros contornos nasciam
no mistério desse quarto.
Ao fundo, o santuário polido de preto,
com folhas de palhinhas de Reis,
porta de vidro em arcotosco,
restos de presépios.
Santana, Santo Antônio, Santo Irineu
— com as mãos separando no peito o hábito jesuíta.
Os santinhos coloridos de papel, desbotados,
tintas velhas, caras desfeitas.
O oco Menino Jesus cheio
com os umbigos
de todos nascidos na casa:
meu pai, meu tio, meusirmãos
e minha irmã. De Pinheiro chegou,
seca relíquia amassada de pele,
o meu,
e ali ficou com os outros para sempre.
Amas, as velhas comadres,
tiradeiras de rezas e ladainhas,
o latim das vilas velhas.
O vermelho dos tijolos gastos
permanece pálido.
Os cantos fundos, as rezas altas.
Meu avô lendo o visionário Isaías
e Deus
presidindo a mesa da família
nas noites das ladainhas,
entoadas no latim
das velhas.
Nestas visões,
tudo desaparece e volta.
Vem a escuridão,
e as chuvas daqueles ermos,
no esconderijo do barro.
— Conta, Debum, a história de Santa Maria.
“Ela era mulher do Alegre e o Diabo veio atravessá-la
na malhada do Jenipapo.
Quando ela viu que era o Capeta,
jogou-se na lagoa e de repente
nasceram capins e canaranas tão altas
que ele não pôde encontrá-la.
Chegou molhada, tremendo de frio, na igreja
e Monsenhor Conduru mandou fazer
uma imagem de cedro cheiroso para guardar seu corpo.”
— Conta, Debum, outras histórias.
“Era uma vez um menino chamado José,
ele está aqui,
dentro de ti.
Dorme.”
Noites e visões de fantasmas,
monstros, curacangas e fogo-preto.
Passos lentos e escondidos
da falecida tia Zica
andavam no quarto de tijolo,
assombrado e guardado
por mil cavalos de vento,
mil bestas de bem-te-vis,
apelos e terços,
rosários e hortelãs,
cheiros daquele cômodo
que até hoje destroça
com seus gemidos do tempo,
um escravo daquele vermelho barro,
cozido por sete fornos,
no fogo dos campos cheios
que encheram minha infância
e não queimarão jamais.
José Sarney


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