sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

COM A PALAVRA _ QUANDO O "MENINO" VIROU O DONO DA CASA- POR PAUL GETTY

 

Título: QUANDO O "MENINO" VIROU O DONO DA CASA


Na minha época, MENINO não mandava nem no vento da janela. A gente era tipo figurante da própria infância. Servia pra pastorar cabra, correr atrás de galinha fujona, tirar carrapato do bucho de jumento e ainda agradecer se o bicho não resolvesse revidar com um coice pedagógico.


Comprar fiado na quitanda? Só se fosse com a recomendação de mamãe ecoando no ouvido:

— “Diga a seu ZÉ que eu pago sábado!”

E ai de mim se esquecesse o recado. Apanhava em casa e ainda ficava sem a merenda.


Hoje não. Hoje o MENINO é CEO da residência. Vai viajar? Quem escolhe a música é o MENINO. Se tocar outra coisa, ele decreta greve geral no banco de trás. O celular? Entregue imediatamente à autoridade mirim, sob pena de escândalo público com direito a se estribuchar no chão do aeroporto como se estivesse concorrendo ao Oscar de Melhor Drama Infantil.


Na televisão, então, nem se fala. A casa pode até ser dos pais, mas o controle remoto pertence ao MENINO por direito constitucional. Não existe mais jornal, novela ou futebol. Existe o canal do YouTube do MENINO. O algoritmo trabalha para ele. O Wi-Fi respeita ele. A senha da internet parece até ter sido registrada em cartório no nome dele.


E quando juntava MENINO lá em casa?


Era um coral de pedidos: — “Quero refrigerante”

— “Quero biscoito!”

— “Quero o copo grande!”

A solução estratégica? Mamãe botava o Baré Cola numa xicrinha pequena e ficava assoprando: — “Cuidado que tá quente!”


Porque MENINO pede que só o cão. Mas, no fundo, a verdade é uma só: muda o tempo, muda a tecnologia, muda o tamanho do controle remoto… mas MENINO continua sendo MENINO. A diferença é que antes a gente obedecia. Hoje a gente negocia tratado internacional com um ser de três palmos de altura e voz de comando.


Paul Getty S Nascimento 

poeta, compositor, cronista, chargista e membro da APL - Academia Pedreirense de Letras

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