A Varanda
Nos esquadros da varanda
o corrimão escorria
na meia parede de taipa,
suja e gasta de abandono.
No parapeito das janelas,
nada além de um horizonte
nuvens cinzas.
Tudo desmoronara.
Ficou um quintal molhado.
Eram mangueiras e figos,
laranjeiras e limão.
Oitis perfumados, pés de jasmim e de estrela,
erva cidreira, murta e romã.
Chão aberto por sulcos escondidos
na malva braba,
caminhos das corredeiras
que das biqueiras caíam
serpenteando em desníveis
na fuga ligeira
das prisões que prendem as águas.
Olho o corrido da taipa
o ondulado do barro
descascado em manchas
a marca de minhas mãos
marcadas no brancocal.
Há figuras debruçadas:
avô, avó, Tomásia, Emília e
quantos
olhavam a chuva cair
desabando do telhado
nas calhas de zinco velho.
Os galhos balançavam
como pêndulos verdes
de relógios que dormiam.
O varandão das lembranças,
com o caixão negro-dia
do meu avô preparado.
Fraque, colete e botina
para uma festa de cinzas
onde se chega
e não volta.
Olhos fechados,
mãos cruzadas,
lábios cerrados.
E os cravos dos defuntos,
amarelos e sombrios
cores de sonho, choros
e gemidos gementes
para quem viaja
com as mãos sem poder
apertar um gesto de adeus.
De novo as biqueiras jorrando
no vazio do varandão.
Silêncio nesse cantar
feito de tempo e tristeza
da vida que já passou.
Jasmineiros apodrecidos,
roseiras, avencas, cravinhos
e as águas coloridas:
água branca, pingo azul,
água verde, água amarela,
que tem a cor dos meus olhos
presos na noite datarde.
Varandão, varanda, chuva,
verde alegria molhada.
Só o silêncio vazio
habita no varandão.
Águas conversam e murmuram,
falam de invernos passados,
contam contos de besouros,
pedem perdão das goteiras.
Remoem como moendas,
em voltas que não acabam
as chuvas dos verdes campos.
Enterrados vivem os olhos
que olhavam ventanias,
sacudindo os galhos verdes,
onde pousado cantava
o pássaro do meu destino.
José Sarney


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