domingo, 4 de julho de 2021

COLUNA DO DR. ERIVELTON LAGO

 

AS MULHERES PROFESSORAS DO FILÓSOFO SÓCRATES 


No dia 4 do mês 1 do ano 410 aC, o filósofo Aristócles de Atenas, apelidado de Platão, amanheceu o dia e foi para a casa de Sócrates levar três toalhas de mesa para serem usadas no aniversário de Alcebíades. Sócrates e Platão residiam em Atenas, a cidade mais intelectualizada da Grécia antiga. Ainda era cedo, havia chovido a noite inteira. Alcebíades fazia 36 anos de idade e pediu a Sócrates para ceder a sua casa para que ele comemorasse o seu aniversário lá. Perguntou Sócrates: por que tu queres fazer essa festa na minha casa, Alcebíades? Respondeu Alcebíades: porque se eu fizer na minha casa, Diógenes não vai lá, pois ele está brigado com meu pai Eurípedes. Pois bem, Sócrates aceitou o pedido e a festa foi preparada durante um dia chuvoso, todavia, durante a noite foi um temporal. Pois bem, Alcebíades preparou tudo durante o dia. Era uma sexta feira. Vários amigos foram ajudar nos preparativos da festa. Prodicus e seus irmãos mais jovens Andreas, Ajax e Dimos se candidataram para comandar a cozinha na companhia de 6 mulheres: Helena, Júlia, Lara, Sofia, Camila e Isadora. No início do Sec IV não havia cozinheiros, anfitriões ou escravos que preparavam os alimentos, o surgimento desse pessoal veio depois com o passar do tempo. Pois bem, Xenofonte enviou para a casa de Sócrates 4 ânforas de vinho que corresponde a 48 garravas nos dias de hoje. Lá pelas 11 horas da manhã, Hipócrates enviou para a casa de Sócrates 30 drácmas de peixe, 4 dracmas de queijo, 25 de carne de cabra já temperada, 15 de carne de porco e 5 bacias de azeitonas, uva, legumes frescos e farinha de cevada. Uma dracma era a unidade de medida que corresponde, nos dias de hoje, aproximadamente 1777 gramas. A festa começou exatamente 8 horas da noite de sexta feira. Estavam presentes por lá: Alcibiades, o aniversariante, Antisthenes, Isocrates, Xenofonte, Aristóteles, Platão, que chegou no local ainda pela manhã, e outros contemporâneos como Aristophanes, Górgias, Crítias, Eurípides, Sófocles, Diógenes, Prodicus, Polemarco, alunos e outros convidados. Presentes todos os convidados, Sócrates observou que Xenofonte discutia sobre a embriaguez provocada pelo vinho. Dizia Alcebíades: cuidado, não bebam além da conta, pois a embriaguez nos faz revelar os nossos segredos e os segredos dos outros. Então falou Sócrates: bebam à vontade, pois a embriaguez nos retira a timidez. Na ausência da timidez as palavras fluem. Ouvindo as palavras do mestre Sócrates, perguntou Platão: mas quem perde a timidez, não perde também a lucidez? Respondeu Sócrates: a embriaguez só consegue retirar a lucidez de um homem se ele for um fraco. Veja Xenofonte, ele já bebeu quase um quarto daquela ânfora, e veja o quanto está loquaz! Vejam como a sua timidez deu lugar à loquacidade. Continuou Sócrates: ‘o papel do vinho é fazer o homem perder a timidez sem perder a lucidez e demonstrar, com isso, a força do seu caráter e da sua personalidade. Górgias, parafraseando Protágoras e já no auge da felicidade provocada pelo vinho, afirmou aos presentes: o homem, ainda que embriagado, nunca deve perder a noção de que é ele a medida de todas as coisas do mundo. Tudo o quanto existe só existe porque o homem determina essa existência. A diversidade de perspectivas é uma característica inerente ao mundo humano. A vantagem do relativismo á a tolerância com a alteridade. Os discursos diferentes não são classificados como erro, mas aceitos como discursos da diferença. O homem são ou embriagado, continua sendo o homem, pois o que nos representa é a nossa capacidade de pensar. Portanto, tudo é relativo, pois nenhum pensamento parte da mesma fonte ou ideia. Em certo momento, Helena e Júlia entraram no salão com mais uma ânfora de vinho, nesse momento Alcebíades protestou: Ei, mulheres, vocês não podem circular além das fronteiras da cozinha. Sócrates, ouvindo o rompante do aniversariante, o contestou, dizendo: por acaso, Alcebíades, estás a discursar em tua casa? Por acaso esqueces que a tua festa se realiza na minha casa? Respondeu Alcebíades: Oh Sócrates, tu és o maior de todos nós nesse ambiente iluminado. Porém, o que te faz pensar que tais mulheres possam ter o privilégio da tua efusiva defesa? Respondeu Sócrates: se achas verdadeiramente que tenho tamanho valor, me obrigo a te informar que fui educado por uma mulher cujo nome é DIOTIMA DE MANTINEA. Ela me educou durante toda a minha juventude. Afirmo que não há no recinto nenhum homem capaz de se igualar à inteligência de outra ilustre mulher que orientou o meu modo de ver o mundo: ASPÁSIA. Sabes, por acaso, quem elabora todos os discursos de Péricles, o político e militar mais influente de Atenas? Respondeu Alcebíades: não sei. Respondeu, Sócrates: ASPÁSIA. Sabes quem fez a defesa de Aspásia quando foi acusada de desrespeito aos deuses? Respondeu Alcebíades: por Deus, não sei. Respondeu, Sócrates: foi Péricles, pois ele sabia da importância e do valor intelectual daquela sábia mulher. Seu discurso a favor de Aspásia foi tão efusivo e emocionante que chorou e fez chorar os membros o júri. Por isso ela foi absolvida por unanimidade. Então, Alcebíades, em nome de todas as mulheres que existem, vamos respeitar Helena e Júlia presentes nesse recinto, pois nesse momento elas representam DIOTIMA e ASPÁSIA, as deusas que me ensinaram a arte da eloquência e do autoconhecimento. Todos aplaudiram Sócrates de pé. Em seguida, o aniversariante convidou todas as mulheres a compartilharem do banquete em pé de igualdade com todos os homens ali presentes no humilde lar do grande pensador.



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