O RECOMEÇO DA ADVOCACIA: entre Heráclito e Platão
Há profissões que se repetem. A advocacia, porém, não se repete, ela se renova. Desde que iniciei minha trajetória profissional, em 1997, percebo um fenômeno curioso: todos os anos, especialmente por volta da metade de janeiro, sinto como se a minha advocacia estivesse começando novamente. Não se trata apenas de retorno do recesso forense. Trata-se de algo mais profundo: uma espécie de reinício existencial da profissão.
Às vezes chego a pensar que essa percepção encontra eco na antiga filosofia grega. O pré-socrático Heráclito de Éfeso afirmava que ninguém banha duas vezes no mesmo rio (Ost, 2005). A água corre continuamente, o mundo está em permanente transformação, e aquele que entra no rio também já não é o mesmo (Gaarder, 1991). O fluxo do tempo modifica tudo: as circunstâncias, os conflitos humanos, os amores e até mesmo aquele que observa e participa desses conflitos.
A advocacia parece obedecer exatamente a essa lógica heraclitiana. O advogado que
retorna ao fórum após o recesso não é exatamente o mesmo do ano anterior. As leis mudam, os tribunais mudam, os casos mudam, os clientes mudam, e o próprio advogado também muda. A experiência acumulada transforma sua percepção do direito e da vida.
Mas há também outro elemento filosófico presente nessa sensação de recomeço. O pensamento de Platão nos lembra que as aparências muitas vezes enganam. Aquilo que vemos na superfície, o processo, o conflito, a narrativa das partes, a verdade relativa, nem sempre corresponde à realidade mais profunda. No célebre mito da caverna, Platão demonstra que o ser humano frequentemente confunde sombras com verdade.
Na prática da advocacia, isso se manifesta diariamente. Um processo nunca é apenas aquilo que aparece nas páginas dos autos. Por trás de cada documento existem histórias humanas, emoções, equívocos e percepções distorcidas da realidade. O próprio inquérito é uma imagem de um quebra-cabeça incompleto. O advogado precisa, portanto, exercitar uma espécie de investigação filosófica para ultrapassar as aparências e aproximar-se da verdade possível.
Nesse ponto, surge, também, o espírito de Sócrates, mestre de Platão, cuja principal
ferramenta era a pergunta. Sócrates ensinava que o conhecimento nasce do questionamento. Na advocacia, especialmente na advocacia criminal, a pergunta bem formulada, muitas vezes vale mais que uma longa explicação. Perguntar é abrir caminhos para que a verdade se revele, acredite.
Assim, a cada início de ano, quando a advocacia parece recomeçar, talvez esteja ocorrendo algo muito próximo da experiência filosófica descrita pelos gregos. O mundo jurídico continua em movimento, como o rio de Heráclito. As aparências continuam a enganar, como advertia Platão. E o advogado continua a perguntar, como fazia Sócrates.
No fundo, a sensação de recomeço não é um sinal de fragilidade profissional. Pelo
contrário, é um lembrete de que a advocacia é uma atividade viva, dinâmica e profundamente humana. Cada novo ano não é repetição, é transformação.
Talvez, seja justamente por isso que, depois de tantos anos de profissão, ainda seja possível sentir que a advocacia está começando outra vez. Porque, assim como no rio de Heráclito, o direito continua correndo na nossa frente, e todos nós continuamos aprendendo a navegar em suas águas.
Amanhã, quando a geração vindoura estiver no ponto em que nos encontramos hoje, e nós estivermos nos mausoléus suntuosos ou no panteão comum dos soldados desconhecidos, os grandes processos darão aos nossos filhos a exata ideia de que tudo passa, mas a vida é um eterno recomeço (Lima, 1996).

Toda profissão exige um recomeço...
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