terça-feira, 17 de março de 2026

POESIA - ACALENTO SEM FIM - POR ABEL CARVALHO

 Mm



Acalanto sem fim


Respiro...

Abro os olhos mais uma vez 

Para acalantar o meu próprio pranto

E te vejo


Como das outras vezes

Distante

Ontem

Um dia que não vivemos

O futuro que não temos


Somos assim: misto de heresia e euforia

Euforia que nos condenou a vivermos

O que vivemos agora


Somos assim: amor verdadeiro, inteiro

Sem começo

Meio e fim


Somos assim: dor e sofrimento

Medo distante

Saudade constante do sonho

Que nem mesmo tivemos a coragem de viver


Somos assim: lua e calçada

verso e madrugada

canção e benquerer

somos assim: medo e fim.


Abel Carvalho


Eu mereço

 

Eu mereço toda dor que tenho

Todo sofrimento que é meu

Eu mereço morrer de saudade

Chorar prantos infindos por noites adentro

 

Eu mereço a vida que levo

A solidão e o isolamento em que vivo

Os castigos que me impus até hoje

A morte que não tenho coragem chamar

 

Eu mereço viver a farsa que plantei

Os males que reguei em solo fétido

Os odores que colhi fugindo de mim mesmo

O teu abandono que me corta e reprime

 

Eu mereço a vida que tenho

Eu quis assim...

 

Abel Carvalho 


O último poema


Sei que hei de ruminar a dor a cada hora

A cada dia

A cada noite de luar

Hei de espargi o fel da minha mágoa

E me acalantar nos braços da saudade

Sei que hei de ignorar cada olhar

Fugir de cada encontro

E fingir que nada existe

Tapar a última fresta

E fazer morrer a réstia da esperança

Hei de acordar do sono

E torná-lo pesadelo

Porque esqueci que o sonho se sonha

Não se toca nem se vive

Sei que hei de pagar com meu suor da madrugada a heresia

E viver a letargia do querer

Hei de cegar meus olhos para não ver

Tornar surdos os meus ouvidos para não ouvir

Calar a minha voz para não falar

Cortar fora as minhas mãos para não tocar

E tornar insensível o meu olfato

Para não sentir teu cheiro

Sei que hei de errar pelas noites

Beber qual um náufrago no deserto

Sentir o frio das calçadas

Mas, sei que hei de ruminar a minha dor

Para que ninguém perceba.


ABEL CARVALHO


Não peço o Teu perdão


Não sei quantas vezes eu transpirei os meus medos

Medo da morte

Da minha morte e da morte dos meus

Medo da vida

Da minha vida e de tantas que eu destruir

 

Medo da sorte

Da falta dela...

 

E por mais que eu tenha transpirado

Eles nunca me deixaram

Sempre voltam

Aqui

Ali

Uma hora ou outra

 

Eles são assim

Fazem parte de mim

Da minha vida

Vivem nos meus dias

São as grandes marcas dos meus pesadelos

Convivem com a minha infinda insônia

 

Mas o maior medo que eu sinto

Não é do meu próprio sofrimento

É dos sofrimentos que causei

Dos filhos que não gerei

Das vidas que não cuidei

 

Talvez por isso vague assim todas as noites

Mesmo sem nunca sair das minhas próprias entranhas

Mesmo me protegendo em um mundo só meu

 

Por tudo que fiz

Pelas dores que causo e causei

Tenho medo de perder a Fé

Pois sei que Deus já não está comigo

 

Não blasfemo

Sofro

Não me arrependo e nem peço perdão

Sei que Alguém morreu pela minha redenção

Isso me aflige mais ainda

Pois tenho o perdão que não mereço

Por não saber entregar a outra face

 

E tenho pouco tempo

A vida me escapa por entre os dedos a cada dia

Num revés sem fim

 

Não conto mais o tempo

Não quero enlouquecer

 

Não conto as perdas

Não choro mais

Mas sinto a tua falta

 

Talvez seja esse o maior de todos os meus medos

Te perder...

 

Abel Carvalho


Apenas um dia


Não te venderei colunas, nem muralhas

e nem mesmo sonhos.

Não te venderei as ilusões próprias dos amores.

Não te prometerei os melhores dias,

Nem mesmo os maiores dissabores.

Não verterei utopias e nem mesmo tentarei mudar teus valores.

Apenas, se quiseres, te entregarei aquilo

Que me dissestes que querias,

Que sentes e que eu não sentia,

Mas que me veio calmo como um veio nasce,

Perene como correm as águas de um rio,

Constante com o entardecer de mais um dia que se vai,

Absoluto como o ardor do encandecer que o nascer do sol nos propicia.

Não te darei brotos, nem folhos, nem hipocrisia.

Se ainda quiseres, te darei apenas um dia,

Meio dia, uma hora ou meia hora, um ou meio minuto que seja, 

Para que enfim me vejas, não como me vias,

Mas como eu te vejo,

E nesse tempo te roubaria apenas um beijo,

Beijo fruto do desejo que tu mesmo tu, me ensinastes a ter em apenas um dia.


Abel Carvalho


Ontem


É claro que não vivo os teus sonhos

Seria heresia

É claro que não sonho contigo todas as noites

Só algumas

Ontem sonhei contigo

Mesmo sem querer...

És bela

És tempo

És fim...

Onde estavas ontem?

Sei! Longe se mim...

Onde estás agora?

Aqui...

Longe de mim.

Queria te ter toda hora

Assim...

Um dia

Dois

Uma hora

Um momento sem fim

Outrora?

Muito antigo!

Não és assim...

Um passo

Um conto

Um terço

Um dia sem fim.

Uma hora

Eu ébrio

Teus olhos em mim..

O que sou?

Um homem...

Um dia longo e sem fim.

És hora

És tempo

És tudo enfim

Hoje....

Dois dias...

Tu em mim.

Tão pouco tempo

Um dia assim.

És cor

Sabor

Fulgor

Manhã de mim...

O quanto eu quero?

Não te digo...

Tenta adivinhar.


Abel Carvalho


Não sabes! Não sentes!


Não sabes a dor que sinto!

Não verto prantos, apenas espero por minha morte.


Não sabes.

Não sabes!


Nunca soubestes, e eu nem mesmo sei fingir.


Vivo tudo do meu jeito e desafio quem quiser a me repetir.

Do meu jeito.


Ah amor!

Amor Rosa de Jericó.

Amor sem dó,

Atro que desafia o átrio,

Queima e germina, enfim.


Ah amor!

Rosa de Jericó.

Pulsa, pune, tange, resiste.

Carcome, eleva e bani.

Amor que provoca dor.


Não sentes a dor que sinto!

Não saio por aí sorrindo, não sei fingir.


Não sentes!

Não, não sentes.

Nunca sentistes, sabes sorrir.


Ah dor!               

Dor do porvir que não vem.

Dor do provecto que deixei passar.

Dor do amor que não vivi,

Dor de saber que desisti.


Abel Carvalho


Enquanto tu dormias


Um dia fiz da noite companheira Inspiração e poesia

Fiz da madrugada a sina E da sina inspiração

Corri bares em viagens sem fim E sem sentido

Fiz do álcool rotina calma e constante E da vida um simples e novo amanhecer qualquer


Aprendi a ser manso entre os cordeiros

E a disfarçar o medo entre os lobos E vivo estou até aqui

Não sinto culpas e nem sei pedir desculpas Perdão só clamo a Deus e Faço os dias um após o outro Sem sonhos Ou pesadelos tristes e cruéis Sem dores Amores ou querubins Apenas um dia de um vendaval sem fim


Galopo os ventos que fazem o meu destino

Venço cada ciclo um a um Devagar e sem lutas Batalhas ou guerras Sem furor ou desespero Afinal quem galopa sem domar...


Abel Carvalho


Salvo


E todas as vezes que a morte bate a tua porta tu te queixas

E te maldizes e duvidas

Recorres ao mais antigo dos arquivos

Escavacas lembranças e te culpas como se culpas tivesses

E temes


E todas as vezes que a morte bate a tua porta

Mesmo não sendo a porta tua

Mesmo sendo a tua porta marcada com o sangue do Cordeiro

Tu medras

Escavacas lembranças em devaneio como se os arquivos que abandonastes

Fossem a cura que não veio

E medeia por amor o subjugo ao submundo dos incautos ungidos pela Fé

Em busca da solução que não encontras no teu mundo cético e literal


E Todas as vezes que a morte te procuras foges

Mudas de endereço e falseias

Nem ao menos te consagras a lhe ouvir

A lhe contrapor em resposta

A trocar o Salvo que imaginavas está por tua parte que ela 

Quer levar


E todas a vezes que a morte bate em tua porta

Ages como os poetas agiriam

Sangras no papel em poesia

Singras entre remorsos e hipocrisia

E te julgas e culpas

E continuas a dizer não 


Abel Carvalho


Soneto do Bendizer


Antes de conhecer nem via,

Não era bela e nem guia, nem cria na cor da pele

Que vi na penumbra uma noite

Cálida em agonia que sibilou heresia.


Essa foi à noite que marcou um dia,

A noite que não sabia, noite que não queria,

Que inspira sonetos e versos,

A noite que nunca viria.


E veio e nunca mais foi,

Doída, suada, indolente, desarmada

Em brasas de langor e fulgor.


Lembrança perene no tempo

Saudade, doce sentimento

Bendizer que nunca vingou.


Abel Carvalho


Às vezes


Às vezes você tem que manter vivas fantasias

Mentir duas vezes

Criar situações que não existem


Às vezes é melhor mentir assim

E te manter longe de mim


Às vezes é melhor inventar sonhos

E fazê- los vivos em cada noite de insônia sem fim

E te manter longe de mim


Às vezes tem que ser assim

Rabiscar um texto

Fingir que vivo no cabresto

Dizer que o telefone é ruim


Às vezes é melhor assim

Fazer doer para mim

Para não morrer para ti


Às vezes é melhor ouvir música sozinho

Beber cinco os seis golinhos

E fingir que entediou


Às vezes é melhor dá a cara a tapa

Fazer do mundo desgraça

E esconder que o amor incendiou


Às vezes o mundo é assim:

Eu-tu sem mim.


Abel Carvalho


A história da canção que eu fiz pra ti


A canção que eu fiz pra ti não fiz com letra

Nem com os acordes de uma bela melodia

A canção que fiz pra ti eu fiz a cada dia

Entre idas e vindas

Altos e baixos

Noites de sono e de insônia

Noites de calor e de abandono

A canção que eu fiz pra ti é minha

É sina e poesia

Um momento de furor

A ilusão do prazer passageiro

O sonho fugaz do fim do sono

A canção que fiz pra ti é pesadelo

É medo

É ilusão

É devaneio

Algo em meu passado

Em meu presente

E num futuro que não posso evitar

A canção que eu fiz pra ti é o sonho

Fruto dos milhares de noites insones

Regada como suor de tantas madrugadas

E com a frieza solitária das tantas noites enluaradas

Onde teimava em fugir de ti

A canção que eu fiz pra ti é fruto do meu medo

Sobejo das minhas dores que não pude te contar

A canção que eu fiz para ti é o sumo das tuas grandes decepções

Alimento da minha covardia que tu nunca quis perceber

Mas a canção que eu fiz pra ti ainda é esperança

Pois traz pra mim de volta um sonho

Uma lembrança

Um tempo perdido

Um grito solto no vazio

Na imensidão de um tempo sem fim

A canção que fiz pra ti é contar uma história

Que teima em ir e vir na minha memória

Lembranças em um abáster

 

Abel Carvalho


7

Ao longo da vida


Ao longo da vida ruminei metade das minhas ideias.

Ao longo da vida abortei, pelo menos, metade dos filhos que fiz.

Sem arrependimentos.

Posso construir novas ideias.

Sem arrependimentos.

Posso gerar novos filhos.

Mas ainda há tempo?

O tempo me escorrega entre os dedos como água...

É vã a tentativa de segurá-lo.

Ao longo da vida plantei sementes,

Umas brotaram outras não.

Não separarei o joio do trigo,

Não quis ir além.

Ao longo da vida colecionei sustos,

Algum justos outros não.

Ao longo da vida fui justo,

Passageiro da paixão.

Ao longo da vida fiz versos,

Alguns certos outros não.

Ao longo da vida desisti, insisti,

Disse não.

Hoje acredito em poucas coisas,

Menos ainda no amor.

Ao longo da vida escondi tudo que um pai tem que esconder e contei tudo que um irmão tem que contar.

Ao longo da vida fui assim...

Ao longo da vida amei duas vezes

E esqueci de mim.

Ao longo da vida usei como  armas o lápis, o papel, a canção e a poesia.

Em algum tempo fiz da minha vida um hino...

Outrora fui menino.

No fim da vida te encontrei e te perdi.

Fiz do meu jeito.

Eu mereço...

Nem me pergunte:

Eu sou feliz.


Abel Carvalho


Pelo menos 5 horas


Queria passar pelo menos 5 horas sem pensar em ti,

mas só durmo 4, e sonho contigo mesmo assim,

Nesse sono torpe.

Queria ter te dado os meus melhores dias,

Como queria, mas o tempo que me resta preciso

Viver para ti, preciso de ti.

Talvez por castigo faça deste estranho amor, longevo.

Dizem que, para os que tem vida longa,

Lhes sobra o peso da solidão,

A dor de vê partir todos os amigos

E amores.

Ah! Veja quantas dores...

Falam que os velhos vivem de favores,

Vivem dissabores, desamores, desconforto

E ingratidão.

Qual triste fim, se vier a viver tanto,

Eu que já verti tantos prantos,

Vivi tantos desencantos, sinas,

Desencontros, enfim te encontro no

Fim em que me encontro.

Então, me resta aceitar o desafio,

Seguir e seguir mais uma vez o coração,

Voltar a viver de emoção,

Como um garoto dizer sim

Sabendo que devo dizer não.

Deixar, de novo, para trás,

O que construí

Como o sonho que não vivi.

Filho insone da eternidade

Queria passar pelo menos 5 horas sem

Pensar em ti...


Abel Carvalho


Se tu não estás aqui


Não sei até aonde ainda posso ter esperanças

Eu nem mesmo confio mais em mim

Tentei me apegar ao amor que sinto por Te

Mas nem mesmo isso consegue me arrancar da

Infinda letargia que eu vivo desde que tive a certeza

De que tu não és mais minha

Brinquei com os meus próprios sonhos

Destruir a minha vida de forma vil e sorrateira

Cavei meu próprio precipício e esculpi a minha tumba

Perdi-me como um anjo destronado e não consigo mais

Encontrar um novo caminho

Tenho os olhos cegos

A boca muda

As mãos e pés atados na minha própria sordidez

Não sou e nem mesmo quero mais ser nada

Não tenho futuro nenhum

Não sou arrimo

Apenas tenho culpa e me culpo milhões de vezes

Por infinitas noites insones

Queria ter a coragem dos suicidas

E a força dos miseráveis

A fé dos incautos e a sutileza dos enganadores

Mas sou apenas um homem fraco como todos os homens comuns

Não planejo mais apenas sigo o meu destino

Como se nisso eu ainda acreditasse

Quero apenas que o tempo corra e a vida siga

Mesmo que tenha que fazer sangrar mil vezes a minha consciência

A cada vez que eu pensar em ti


Abel Carvalho


O tempo e os sonhos


Durante anos sonhamos com o tempo

Que há de vir

Contamos os dias

Projetamos o futuro


Durante anos fazemos planos

Na maioria das vezes o presente

Pouco nos importa

Projetamos o futuro


Durante anos trabalhamos no presente

Um tempo distante

Sonhamos com novos dias

Pois afinal o tempo é findo


Ao longo desse tempo pouco se percebe

Mas o tempo encolhe

Se estreita

O sonhado a longo prazo se comprime a médio

O que era médio te desnuda num presente

Que arranca das mãos o tempo que veio

E nunca mais volta


E a vida segue sem que se possa alongar

O tempo

Projetar um futuro que não mais existe 

E nunca existiu ou existirá 

Então nos sobra só o presente

Para compensar o tempo findo

Que não mais virá e ser feliz

Enquanto é tempo.


Abel Carvalho

...Amo


Amo tão perdidamente que esqueço

Que um dia vou morrer

Amo

Amo como amo o campo que nunca vi

A poesia que ainda não fiz

O futuro que sei não ter para ti


Amo

Amo assim sem medo

Amor sem tema e sem enredo

Heresia em agonia

Milhares de horas do sem-fim


Amo

Amo teu amor irascível

Prisca de um amor profundo

Sem rumo

Profano e moribundo


Amo

Amo sem direito a óbolo

Sem sonho

Sem tempo

Sem destino

Amo

Assim

Sozinho


Amo

Amo como amo o silogismo

Que vivo

Amo sem hipocrisia

Amo sem nenhuma garantia...


Abel Carvalho

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