HISTORIETA DE MEU AGRADO XVI
(... o anjo bem e o anjo mal)
Há alguns dias, venho me consumindo com a mudança de comportamento, que venho testemunhando nesta minha jornada.
Desta feita, me deparei com uma cena de imprudência, para não dizer outra coisa, de um menino, de uns seis a sete anos, que desejava e destruiu alguns brinquedos, em uma lojinha. A rebeldia se somou a teima, em uma insistência sem medida.
O pai, impotente, não o demoveu da ideia. Ficou sem cor e sem ação, como se o filho fosse "o poderoso chefão". Ao redor, as caras de reprovação e o silêncio lhe foram o martírio. A molenga reação foi um fiasco. Perdido em sua fraqueza, tentou "meter medo", no filho, ameaçando-o com "o bicho papão". E a resposta veio mais do que certeira. "Pai, deixa ser bobão. Que bicho papão que nada. Isso não existe. Eu não sou bebezinho".
Aí, fui saindo de perto, por razões lógicas. E, saudoso, (re)vi a minha geração "tremer de medo de assombrações". Do boi da cara preta, do homem do saco, que carregava meninos, do currupira, da mãe d'água, da curacanga ...
Geração, em que pai algum aceitava ser chamado de bobão e ficava passivo.
Mas, deixemos a bobagem de lado, pois a intenção, aqui, não é gerar conflitos nem se desfazer de uma geração ou outra. Afinal, as gerações vêm estabelecendo marcas próprias, se impondo, se superando e alcançando conquistas, que muito e muito têm estabelecido conhecimentos, avanços tecnológicos, comodidade, conforto, facilidades.
E, aí, cada um defende o que viu, ouviu, viveu.
E, nessa perspectiva, falo da geração, que me abrigou. A geração, em que não só se brincou, como se viveu livre das amarras tecnológicas. Sem teclado, sem tela, sem óculos. Sem consultórios médicos, sem psicólogos, sem analistas. Sem shopping, sem EAD, sem Uber ...
Uma geração, que bem soube o que era respeito. E, ainda, pôde sair à rua, com a certeza de que a volta seria segura. Uma geração, que se sentiu livre e que soube viver com intensidade. Uma geração, que correu, que trepou em árvores, que banhou em poços e rios, que brincou e jogou bola na rua, que sentou no banco da praça, que jogou conversa fora, que paquerou, que fez serenata, que conversou olho no olho.
E, nessa saudosa atmosfera, resgato um pouquinho do que era corrente e impressionava, atado à menção do bicho papão. Éramos crentes em muitas crendices, que, sem sombra de dúvidas, nos rondavam as desconfianças e se faziam presentes. E, considerando só uma delas, vou viajar em um bom devaneio. As pessoas mais velhas diziam que éramos sempre acompanhados por dois guardiões. "Um chifrudinho", que aconselhava para o mal; e "um iluminado", dotado de asas brilhantes e "gente boa".
A verdade é que eu ficava impressionado, medroso, nervoso, só de imaginar os meus dois. O medo era tamanho que, algumas vezes, ficava pensando se valia a pena fazer a estripulia, ou não. E a indecisão e o medo, geralmente, me travavam; "e eu não fazia era nada".
E, com pavor tão arraigado, interessante era a minha mania de ficar olhando, ora para o ombro esquerdo, ora para o ombro direito, com um misto de esperança e medo, a fim de ver "o anjo mau ou o anjo bom".
A verdade é que, até hoje, ainda tenho arrepios ao dar uma espiadinha nos meus ombros. Mas, só quando não tem alguém por perto! Afinal, não quero dividir esse momento glorioso com mais alguém ...
Zé Carlos Gonçalves


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