Bom dia a Todos.
A vida é uma bebida sem gelo, engolida às pressas na véspera da sede — como canta Humberto Gessinger — e talvez seja exatamente aí que mora o seu maior paradoxo: consumimos o tempo antes mesmo de compreendermos o seu valor.
Vivemos como se a urgência fosse regra, antecipando goles, atropelando instantes, tentando saciar uma sede que ainda nem chegou.
E, nessa pressa, perdemos o sabor.
Porque o que dá sentido à bebida não é apenas matar a sede, mas sentir o frescor, o tempo do gole, o intervalo entre um suspiro e outro.
A metáfora nos confronta: será que estamos vivendo ou apenas consumindo a vida?
Ao engoli-la às pressas, negamos a nós mesmos o direito de degustar os pequenos detalhes — o encontro inesperado, a palavra dita com afeto, o silêncio que também fala.
Talvez a sabedoria esteja em inverter o gesto: não beber antes da sede, mas reconhecer quando ela chega.
Não correr contra o tempo, mas caminhar com ele. Porque, no fim, a vida não é sobre a quantidade de goles que damos, mas sobre a consciência com que os saboreamos.
E quem aprende a beber devagar descobre que, mesmo sem gelo, a vida pode ser intensamente refrescante.
Otávio Pinho Filho



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