terça-feira, 31 de março de 2026

POESIA - O ÚLTIMO POEMA - POR ABEL CARVALHO

 


O último poema


Sei que hei de ruminar a dor a cada hora

A cada dia

A cada noite de luar

Hei de espargi o fel da minha mágoa

E me acalantar nos braços da saudade

Sei que hei de ignorar cada olhar

Fugir de cada encontro

E fingir que nada existe

Tapar a última fresta

E fazer morrer a réstia da esperança

Hei de acordar do sono

E torná-lo pesadelo

Porque esqueci que o sonho se sonha

Não se toca nem se vive

Sei que hei de pagar com meu suor da madrugada a heresia

E viver a letargia do querer

Hei de cegar meus olhos para não ver

Tornar surdos os meus ouvidos para não ouvir

Calar a minha voz para não falar

Cortar fora as minhas mãos para não tocar

E tornar insensível o meu olfato

Para não sentir teu cheiro

Sei que hei de errar pelas noites

Beber qual um náufrago no deserto

Sentir o frio das calçadas

Mas, sei que hei de ruminar a minha dor

Para que ninguém perceba.

Abel Carvalho 



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