terça-feira, 27 de janeiro de 2026

COM A PALAVRA - ENTRE TANTAS COISAS - POR RLOY MELONIO

 

ENTRE TANTAS COISAS" 

A primeira crônica de 2026 do escritor, poeta e compositor Eloy Melonio é uma reflexão sobre a arte de coisar. Aprecie mais esta obra de arte do estimado colaborador do Blog do Ed Wilson

Depois de escrever sobre tanta coisa, chegou a hora de eu direcionar meu holofote para esta “coisinha” charmosa, alegre, irreverente e multifacetada.

Em cena, a nossa estrela lexical: coisa.

Ante tal “coisastação”, sigo a sabedoria popular: uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Ou seja, é tudo uma questão “coisada” naquilo que se vê ou naquilo que se quer ver. E aí, percebe-se que nem sempre uma coisa e outra coisa são a mesma coisa.

De coisa em coisa, a gente vai se apropriando de algumas das muitas possibilidades de que essa palavrinha se reveste. Porque ela se apresenta em toda parte quando tudo é muita coisa e até quando nada é coisa nenhuma. Coisa de louco, não acha?

O senso comum diz que “cada um diz o que pensa”. Concordo. Desde que não fira sensibilidades ou direitos adquiridos. Neste cenário político-social, não se pode mais sair dizendo qualquer coisa a qualquer hora ou em qualquer lugar. Passeando na rua da “livre opinião”, um pessimista, diria: “A coisa tá preta”. Do outro lado, o grito é de um otimista: “Agora a coisa vai”. Entre um e outro, o cético apenas acha que os dois não estão dizendo coisa com coisa.

Se você pensa que “coisinha” é pouca coisa, engana-se coisadamente. Esse diminutivo pode ser um baita elogio: “Sua cadela é uma coisinha tão fofa que dá vontade de apertar”. Ou seja, cai direitinho para se referir a algo que é delicado, sensível. E foi Beth Carvalho quem a popularizou com “Coisinha do Pai” (1979), cujo refrão parece cantar em nossa memória afetiva. Já “coisinha de nada” dá a ideia de insignificância, assim como “qualquer coisa”, quando assume o caráter de generalidade. Um casal que se desentende por qualquer coisa, mesmo que seja uma coisinha de nada, não vai muito longe, vai?

Quando as coisas nos afetam negativamente, alguns culpam o “coisa-ruim”. Graças a Deus nem todo mundo trilha essa vereda. Porque, sim, existem muitas coisas boas para quem tem bons olhos e bons ouvidos. Sol, natureza, liberdade, prazer. Aprecie estes versos de uma toada do bumba-meu-boi do Maranhão: “Sereia canta na proa/ Na mata o guriatã/ Terra da pirunga doce/ E tem a gostosa pitombotã/ E todo ano, a grande festa da juçara/ No mês de outubro, no Maracanã”. (“Maranhão, meu tesouro, meu torrão”, de Humberto de Maracanã, também entoada na voz de Alcione).

Uma coisa qualquer pode virar arte na voz de um gênio da estirpe de Caetano Veloso. Já imaginou uma viagem de Salvador a Marrakesh só para levar um papo “qualquer coisa”? Brincando com as palavras, esse baiano arretado revela como isso é possível: “Mexe qualquer coisa dentro doida/ Já qualquer coisa doida, dentro, mexe”. O sentido é que “esse papo seu já tá de manhã” (Qualquer Coisa, 1975). Alguns não gostam dessa vibe coisada do Caetano, mas, para os críticos, é aí que reside a sua genialidade.

E o verbo “coisar”, hein? Acho que não se deve explorar a opção sexual das palavras. Até porque, segundo o dito popular, “quem coisa quer casar”. Para espanto de alguns, “coisar” se exibe na vida real e na ficção. Na novela global “Eita Mundo Melhor!” (7/1/2026), Maria Divina se antecipa e revela ao noivo, Zé dos Porcos: “Falei pro meu pai. Eu não vou coisar antes do casório”. Êta sinceridade porreta, siô!

Se alguém não diz “coisa com coisa” é porque suas ideias estão desconexas. Mas, para encurtar uma conversa, “e coisa e tal” serve como uma luva. Já “coisa de louco” é algo tão esquisito quanto queimar cem cédulas de cem dólares.

Duas amigas conversam sobre um casal de amigos: “Alguma coisa provocou essa separação”. “Sim. E não foi coisa banal, não.” “Mas acho que vão se acertar, pois sabem resolver suas coisas.” E, enfim, uma sugestão poética: “Se foi coisa do coração, o Quintana tem um conselho: ‘Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho’”.

A verdade é que essa palavrinha carrega sobre si o peso do mundo. Se não pode tudo, pode muita coisa. E não desfila apenas na linguagem coloquial. Também se exibe nos textos políticos e jurídicos. “Coisa julgada” e “coisa pública”, por exemplo, são duas facetas de seu caráter formal.

Quem disse que a erudição rejeitaria “coisa” em seu vasto campo de conhecimento? Só se foi um otário coisado da cabeça. Leia o que disse o argentino Jorge Luis Borges — um dos dois escritores latino-americanos a constar entre os “100 autores mais criativos da história da literatura” — no prefácio de seu livro “Biblioteca Pessoal”: “Um livro é uma coisa entre as coisas, …”. À propósito, o outro autor entre os “100 de Harold Bloom” é o nosso Machado de Assis.

Uma coisa é certa: é raro o dia em que você não a vê ou não a ouve, ou mesmo não a usa em algum instante. Na contramão de sua versatilidade, algumas expressões se descoisaram na poeira da vida. Há quanto tempo você não ouve “coisas e loisas”? Acho que essa já está pra lá de Marrakesh. E aí, só mesmo o Caetano para fazer seu resgate.

E, por fim, meu conterrâneo João do Vale (1934-1996) cantando as belezas da nossa terra: “Tinha tanta coisa pra falar/ Quando estava fazendo esse baião/ Que quase me esqueço de dizer/ Que essa terra tão linda é o Maranhão” (Todos Cantam Sua Terra/ Alerta Geral, Alcione). E, por falar em esquecer, peço permissão ao sambista para lembrar: “Respeite quem pôde chegar aonde ‘coisa’ chegou”.

Entre coisas pra lá e coisas pra cá, concluo com o último verso do poema “Tantas coisas”, de Travessia (set/2021), meu segundo livro de poemas: “Ah, a vida são tantas coisas!”


Eloy Melonio 

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