quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

COM A PALAVRA - HISTORIETA DE MEU AGRADO Izv ,- POR ZÉ CARLOS GONÇALVES


 HISTORIETA DE MEU AGRADO IV

   (... a sisuda vida de Mundoca)


     A Chapada sorria verdejante no fim das últimas chuvicas de junho. O paiol de Mundoca, mais uma vez, "tava de boca aberta", abarrotado da garantia de mais um ano de fartura.

     E não era só fartura de milho e arroz, o feijão já amadurecia "nas bagens amarelecidas" e, no roçado, sorria a mandioca viçosa, faminta do tipiti e do calor do forno. "A porcada", tão arisca, sumida no mato, voltava enfeitiçada, ao pé do pilão, pelo compassado tuntum, a se fartar do que era parido da socagem do arroz e do babaçu; e, debaixo do jirau, "da babugem", de todas as refeições. As poucas cabras ruminavam um pingo de leite, a saciar a fome "dos piquininhos", que buscavam se equilibrar nas vacilantes perninhas. "O chibé corria solto", na mais perfeita comunhão, de tantas mãos. "As criações", em um ensurdecedor alarido, se chegavam em uma correria desengonçada, a coalhar o terreiro, ao som do milho, que dançava na dureza da cuia, delirante, a invadir a nascente manhã.

     E a natureza, como sempre, "dava uma mãozinha". Oferecia o tempo de manga, de caju, de ingá, de jaca, de goiaba araçá, de "meluim", de tuturubá ... "a istufá us bucho dus minino".

     E, para coroar tão pródigo ano, Maricota se arrastava pesada, com o barrigão por ali, a esperar o nono filho. Era um cordão de menino, a zanzar "pelo apertado da casinha e a saracotiá pela imensidão branca e arenosa do terreiro".

     Mundoca, "de riba de sua pacença", olhava satisfeito a sua prole. Ainda não falhara. Um filho, por ano. E Maricota seguia na sua sina de mulher parideira. Mais um, pelas mãos de dona Nininha, rezadeira de forte reza, parteira e mãe de leite. O verdadeiro porto seguro daquele lugar, tão desassistido e tão perfeito, em todas as suas imperfeições.

   Sem pressa, a vida seguia o seu curso. Sem sobressaltos. Sem arrelia.

   E, nesse compasso de tempo, Mundoca "se apreparava pra ir na vila". Um único café com beiju e farinha d'água, durante o dia todo, já lhe era suficiente. Levava o que lhe era mais caro. O pacotinho de fumo de môlho, picado, o macinho de abade e "a caxa di fófi". Olhava, estudando o céu, a se prevenir da chuva. Em sua vagareza, juntava a tropa de burros, "incangalhava" e distribuía a pesada carga. A marcha lenta só era quebrada pela rouca e respeitada voz de Mundoca, que despertava e guiava o comboio nas estreitas veredas, que lhe tiravam do alheamento do mundo.

    Ali, de verdade, uma aquarela pincelada com a pureza da vida. As alimárias debaixo de suas cargas; e Mundoca, a exalar, em todo o seu corpo e a sua alma, a bruteza, que se estampava no cenário de um sobrevivente de árdua luta.

     Ia alheio às armadilhas de um viver sofrido. Ia, a enfrentar um escambo, quase nunca justo. Quase sempre faminto. Ia servo "du incardido caderninho", que o engolia com a voraz fome dos números. Ia, de um lado, a carga de sofrimento; do outro, o fiel da balança, viciado. 

     ... e a vida ia seguindo, sisuda, a montar nos Mundocas de eterna labuta, tão castigados por uma sina, não tão materna, assim!


          Zé Carlos Gonçalves

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